domingo, 5 de novembro de 2017

Educação antiga (Conto), de Humberto de Campos


Educação antiga

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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As pessoas que desceram à cidade sexta-feira pela manhã, ouviram falar, com certeza, em uma vaia de que teria sido vítima, em plena Avenida, uma senhorita inconvenientemente vestida. Indignadas com a competência daquela atrevida, outras senhoras explodiram em exclamações admirativas, a que os homens, para agradar à maioria, deram seguimento, rompendo em assuada.

A mim, me custa a crer que isso tenha acontecido, por uma circunstância muito natural por não ser possível, mais, na cidade, uma "toilette" capaz de motivar surpresa. As que se exibem na Avenida impunemente, todos os dias, são de tal ordem, que, para causar escândalo, pasmo, admiração, seria preciso, não, apenas, tirar o vestido de cima da pele, mas tirar a pele de cima do corpo.

Comentava eu esse incidente, ontem, à noite, em uma roda de damas e cavalheiros, quando uma das senhoras menos jovens, Dona Ernestina Vale, procurou uma explicação para esse descalabro:

— O motivo dessa falta de pudor de certas moças de hoje, — começou, perspicaz — deve ser atribuído, senhor conselheiro, aos próprios pais, ou, antes, às mães.

E expôs o seu pensamento:

— O senhor vê, hoje, como as mães vestem as crianças. Não há dia em que não encontremos na rua meninas de quatro, seis, oito e, até dez anos, com vestidinhos muito acima dos joelhos, com os bracinhos nus, o colozinho à mostra, numa exibição completa das suas carnezinhas tenras. Aos doze anos, já mocinhas, a "toilette" dessas criaturinhas apresenta pequena diferença. E como não tiveram, em criança, a noção do pudor físico, entram assim na mocidade, sem tentar esconder as partes do corpo que nunca lhes disseram que deviam ser escondidas.

— A senhora acha, então, que elas fazem isso sem maldade? — obtemperou o Dr. Austregésilo, tomando nota na carteira.

— Perfeitamente, doutor! Elas fazem isso com a maior inocência do mundo. Os índios não se apresentam inteiramente nus aos olhos dos civilizados? E não o fazem ingenuamente, inocentemente, por terem sido criados assim? Criemos as meninas com decoro, vestindo-as com discrição, e teremos moças discretas, pudicas, decorosas, ciosas do seu corpo e dos seus encantos.

E, dizendo-me isso, acrescentou, severa, calçando as luvas, deixando-me ver, pelo vestido decotado e sem mangas, dois sinaizinhos negros, quase imperceptíveis, que se lhe aninhavam um pouco abaixo das axilas:

— Assim é que eu fui criada!

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