domingo, 12 de novembro de 2017

Banhos de mar (Conto), de Artur Azevedo


Banhos de mar
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Manuel Antônio de Carvalho Santos, 
Negociante dos mais acreditados,
Tinha, em sessenta e tantos, 
Uma casa de secos e molhados 
Na Rua do Trapiche. Toda a gente
— Gente alta e gente baixa — 
O respeitava. Merecidamente:

A sua firma era dinheiro em caixa.
Rubicundo, roliço,
Era já outoniço, 
Pois há muito passara dos quarenta 
E caminhava já para os cinquenta.
O bom Manuel Antônio
(Que assim era chamado), 
Quando do amor o deus (Deus ou demônio, 
Porque como um demônio os homens tenta,
Trazendo-os num cortado)
Fê-lo gostar deveras 
De uma menina que contava apenas
Dezoito primaveras,
E na candura de anjo 
Causava inveja às próprias açucenas.

Tinha a menina um namorado, é certo; 
Porém o pai, um madeireiro esperto, 
Que no outro viu muito melhor arranjo,
Tratou de convencê-la 
De que, aceitando a mão que lhe estendia
Manuel Antônio, a moça trocaria 
De um vaga-lume a luz por uma estrela

Ela era boa, compassiva, terna,
E havia feito ao moço o juramento
De que a sua afeição seria eterna;
Porém dobrou-se à lógica paterna
Como uma planta se dobrara ao vento.

Sabia que seria
Tempo perdido protestar; sabia
Que, na opinião do pai, o casamento
Era um negócio e nada mais. Amava;
Sentia-se abrasada em chama viva;
Mas... tinha-se na conta de uma escrava, 
Esperando, passiva,
Que um marido qualquer lhe fosse imposto, 
Contra o seu coração, contra o seu gosto.

Calou-se. Que argumento 
Podia a planta contrapor ao vento?

No dia em que a notícia
Do casamento se espalhou na praça,
A Praia Grande inteira achou-lhe graça
E comentou-a com feroz malícia, 
E na porta da Alfândega, 
E no leilão do Basto
Outro caso não houve era uma pândega! 
Que às línguas fornecesse melhor pasto 
Durante uma semana, ou uma quinzena,
Pois em terra pequena
Nenhum assunto é facilmente gasto,
E raramente um escândalo se pilha.
Quando um dizia: — A noiva do pateta
Podia muito bem ser sua filha,
Logo outro exagerava: — Ou sua neta!

O moço desdenhado, 
Que na tesouraria era empregado,
E metido a poeta,
Durante muito tempo andou de preto,
Co'a barba por fazer, muito abatido;
Mas, se a barba não fez, fez um soneto,
Em que chorava o seu amor perdido.

 DO barbeiro esquecido 
Só foi à loja, e vestiu roupa clara, 
Depois que a virgem que ele tanto amara 
Saiu da igreja ao braço do marido.

Pois, meus senhores, o Manuel Antônio 
Jamais se arrependeu do matrimônio;
Mas, passados três anos, 
Sentiu que alguma coisa lhe faltava:
Não se realizava
O melhor dos seus planos.

Sim, faltava-lhe um filho, uma criança, 
Na qual pudesse reviver contente,
E este sonho insistente,
E essa firme esperança
Fugiam lentamente. 
À proporção que os dias e os trabalhos 
Seus cabelos tornavam mais grisalhos.

Recorreu à Ciência:
Foi consultar um médico famoso, 
De muita experiência, 
E este, num tom bondoso, 
Lhe disse: — A Medicina
Forçar não pode a natureza humana. 
Se o contrário imagina, 
Digo-lhe que se engana.

 Manuel Antônio, logo entristecido, 
Pôs os olhos no chão; mas, decorrido
Um ligeiro intervalo, 
O médico aduziu, para animá-lo:
—Todavia, Verrier, se não me engano,
Diz que os banhos salgados
Dão belos resultados...
Experimente o oceano! —

No mesmo dia o bom Manuel Antônio, 
À vista de juízo tão idôneo,
Tinha casa alugada 
Lá na Ponta d'Areia,
Praia de banhos muito frequentada, 
Que está do porto à entrada 
E o porto aformoseia.

Nessa praia, onde um forte
Do séc'lo dezessete
Tem tido vária sorte
E medo a ninguém mete;
Nessa praia, afamada
Pela revolta, logo sufocada
De um Manuel Joaquim Gomes,
Nome olvidado, como tantos nomes;
Nessa praia que... (Vide o dicionário
Do Doutor César Marques) nessa praia,
Passou três meses o quinquagenário, 
Com a esposa e uma aia.

Não sei se coincidência 
Ou propósito foi: o namorado 
Que não tivera um dia a preferência,
Maldade que tamanhos 
Ais lhe arrancou do coração magoado,
Também se achava a banhos 
Lá na Ponta d'Areia...

Creia, leitor, ou, se quiser, não creia:
Manuel Antônio nunca o viu; bem cedo, 
Sem receio, sem medo
De deixar a senhora ali sozinha, 
Para a cidade vinha
Num escaler que havia contratado, 
E voltava à tardinha.

Tempos depois — marido afortunado!
Viu que a senhora estava de esperanças...

Ela teve, de fato, 
Duas belas crianças,
E o bondoso doutor, estupefato, 
Um ótimo presente,
Que o pagou larga e principescamente!

Viva o banho de mar! ditoso banho! 
Dizia, ardendo em júbilo, o marido.
—Eu pedia-lhe um filho, e dois apanho! 
Doutor, meu bom doutor, agradecido!

Pouco tempo durou tanta ventura; 
Fulminado por uma apoplexia, 
Baixou Manuel Antônio à sepultura.

O desdenhado moço um belo dia
A viúva esposou, que lhe trazia
Amor, contos de réis e formosura.

E no leilão do Basto 
Diziam todos os desocupados

Que nunca houve padrasto 
Mais carinhoso para os enteados.

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