sábado, 25 de novembro de 2017

Cincinato, o romano (Conto), de Lima Barreto


Cincinato, o romano
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Todos os compêndios de história romana não se fartam de gabar as virtudes e a austeridade de vida desse famoso ditador.

Contam mesmo que, em uma das duas vezes em que foi escolhido pelo povo para ditador, os eleitores o encontraram arando ele próprio o seu campo.

Washington, que o imitava muito, chegou a criar uma ordem com o nome do ditador romano, para galardoar os altos serviços que os oficiais e praças do Exército da Independência dos Estados Unidos prestassem à causa que defendiam.

Cincinato foi ditador pelo v século antes de Jesus, portanto há cerca de 25 séculos que essa sua fama dura.

Um sábio alemão, porém, acaba de destruí-la por completo.

O Sr. Karl von Bielgler, professor da Universidade de Bonn, baseado em documentos descobertos na Dácia (Romênia), como sejam inscrições e mesmo fragmentos de manuscritos, fixou definitivamente a fisionomia de Cincinato.

Começa o professor von Bielgler por estabelecer, com as mais sólidas provas, que o ditador nunca pegou na rabiça de um arado. Essa tradição vem, diz ele, de falar sempre o poderoso patrício romano, quer no Senado, quer em outros comícios, em causas de agricultura.

Aconselhava sempre a todos que se dedicassem a ela, levava para o Senado a miniatura de uma charrua, que punha a seus pés, quando se sentava na curul. Além, como se sabe, os senadores romanos tinham o dever de ter seus clientes. Eram destes patronos e distribuíam todas as manhãs dez sertécios — a espórtula — o que equivale, mais ou menos, na nossa moeda, a 1$600.

Juvenal, que foi um grande satírico, viveu durante muito tempo da espórtula e descreve como se a recebia, com amargor extraordinário.

Cincinato, sendo senador, tinha que atender a esse curioso costume e aborrecia-se muito por isso, quando recebia os seus clientes gritava:

— Plantem couves! Dediquem-se à agricultura!

Por essas e outras é que ele passou como sendo um amador da agricultura, mas de fato pouco pisava nas suas terras, deixando-as entregues aos escravos e libertos.

O Dr. Karl von Bielgler diz que a tal lenda de terem os eleitores, quando o foram chamar para ditador, encontrado a arar em pessoa o seu campo, bem pode ter sido um ardil dele para impressionar a plebe romana.

O que é certo é que ele gostava muito de fazer o Senado votar subvenções aos federados e tudo faz crer que já, naquela data, ele tinha ideias de banco e especulações bancárias, pois há disso bastas provas nos documentos descobertos.

É em resumo o que nos conta o professor de Bonn, na acreditada revista alemã Universum, no artigo que tem o título simples de “Cincinnatus”.

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