sábado, 25 de novembro de 2017

O ideal (Conto), de Lima Barreto


O ideal

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Assim que Irene soube que a sua amiga Inês se havia casado, imaginou logo que o tivesse feito com um grande poeta, uma jovem notabilidade.

Irene estava em Paris há muitos anos e raramente se correspondia com sua amiga, de forma que não podia fazer um juízo certo de quem fosse o marido de Inês.

Entretanto, sabia aquela das ideias de casamento de sua antiga colega. No colégio em que ambas cursaram, quando tratavam desse assunto palpitante para o coração das moças — o casamento —, era hábito de Inês dizer à amiga:

— Eu me hei de casar com um grande poeta. Ao que a amiga respondia:

— Esta gente não serve para marido; são estroinas, volúveis...

— Qual! Nem todos... E mesmo que assim seja, eu quero que o meu nome corra mundo junto ao nome do meu marido...

Moça feita, Inês sempre se interessou por essas coisas de letras e seguia todos os poetas que surgiam, com vagar, ardor e uma ingênua admiração.

Conferência deste ou daquele não era anunciada que lá não estivesse; aos salões da literatura elegante e decorativa, estava sempre presente.

Muitos esperaram dela uma literata e houve um ironista que a crismou mesmo de próxima futura poetisa ou... romancista.

Tudo isto fez ver à sua amiga Irene que ela se houvesse casado com um jovem poeta de grande talento.

Aconteceu que o marido desta última, com medo dos azares da guerra, deixasse a sua residência em Paris e viesse para o Rio.

Logo que as duas se avistaram, Irene imediatamente perguntou pressurosa:

— Já vi que o teu marido é um grande poeta.

— Não; é campeão do football.

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