terça-feira, 28 de novembro de 2017

Dois cemitérios japoneses (Conto), de Wenceslau de Moraes


Dois cemitérios japoneses
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Pelos fins de Dezembro, em vésperas de Natal e de Ano-Bom, encontrei-me um belo dia, sem bem saber porquê, vagabundeando no cemitério dos europeus em Kobe, o velho. O velho, porque há um cemitério novo que se estreou há pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia dúzia de inquilinos; está este situado longe da cidade, num declive de colina, amplo, com belos horizontes em redor. O velho, de acanhadas dimensões, enchera-se de moradores em uns trinta anos de exercício, e foi por tal razão posto de parte.
O velho cemitério fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca dos edifícios da alfândega, quando começa um bairro sujo, de fábricas, de armazéns, que povoa uma mísera ralé de carregadores e de mendigos. Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depósitos de mercadorias, sem outro horizonte, com pouco ar, com pouca luz, úmido e ermo, é bem triste este canto; até, se não me iludo, os vetustos pinheiros que o arborizam, testemunham pelo verde-escuro e estorcimentos convulsos das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre tudo.
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Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, sobre a relva do parque público, a chusma dos caixeiros — ingleses, americanos, alemães, — a chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapéu, berra, corre, esbraceja, esperneia, joga o tennis, o fout-ball. Mais além, pelas ruas de tráfego indígena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo em barda, entre japoneses e estrangeiros. Destes últimos, são especialmente as damas que mais se alvoroçam com a proximidade do christmas day, e que afanosamente percorrem a cidade, em carruagens, em jinrikshas, a pé — a pés... e que pés!... — enfiando pelas lojas, mercadejando bonecas, quinquilharias, guloseimas, as mil e mil frivolidades que vão constituir os frutos dessas estupendas árvores de Natal, prestes a surgirem nos salões. Pobre Natal! Nestes países exóticos, de ganho e de aventura, as festas particulares da família europeia perdem em regra a sua feição de severidade tocante e amorosa, para se transformarem num simples sport, irritante, maçador, — falo por mim, — mero pretexto para ostentações, dissipações e mexericos, a caterva de todos os sintomas da morbidez do exílio. Para o povo japonês, o impulso é bem outro: o dia de ano novo é a festa principal de cada ano, a única para muitos; religiosa, emocionando a alma indígena, levando a turba aos templos a dar graças aos deuses pelas prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: íntima, de família, preceituando o doce dever das saudações aos parentes e aos amigos; ninguém trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a casa toda; por isto, com louvável antecipação se compram nos bazares os pequeninos nadas que vão ornar o lar, e os bolos de arroz, e o corte de fazenda, e a flor para o cabelo, coisas de que não prescinde a mais modesta família de lavrador ou de operário, naquele dia abençoado.
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No sítio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que palpita lá por fora. É positivo que os mortos não festejam o Natal... nem eu tão pouco, poderia acrescentar, desde mui largos anos de boêmia , sem lar e sem família. Pesa aqui, no cemitério, mais duramente por certo do que em outro lugar, a aspereza de um triste dia de Inverno, sem sol, sombrio e úmido; paira no ar uma poeira levíssima de neve, que mal se vê, mas fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando em quando, uma rajada fresca sacode a rama dos pinheiros, corta o silêncio então um vago murmúrio de folhagem, — da folhagem sem dúvida, mas que acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos uns com os outros, de cova para cova...
Vou vagueando, com passos e em espírito. Estou só, ou quase só; há pouco dei fé, por entre as sepulturas, de uma velha japonesa, guarda do cemitério, que ia apanhando do chão alguns cavacos. Vou lendo os epitáfios, estudando a botânica tumular nos arbustos plantados e nos musgos espontâneos, lançando um olhar condoído às coroas murchas, que aqui e ali se encostam ao mármore das lápidas, pobres coroas queimadas pelo sol, rasgadas pelo vento, roídas pelos vermes, poluídas pelo pó, e em pó se desfazendo... Neste grêmio de mortos abundam os padres e os missionários de todas as seitas e de todos os países; vários pilotos dos mares do Japão, capitães, tripulantes de barcos; gente de negócio; e a mais uns pobres nomes obscuros de mulheres e de crianças, sem títulos nem história. Aqui deparo agora com um nome de português, Felisberto da Cunha, da Figueira, que morreu com quarenta anos, e a esposa (uma japonesa) lhe mandou erigir o mausoléu.
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De trilha em trilha e de túmulo em túmulo, eis-me em frente do monumento tumular dos marinheiros franceses assassinados em Sakai. Lúgubre história; e aqui, neste Japão da grande hospitalidade e da notória cortesia, impressiona por estranha e quase inverossímil. Pois foi bem verdadeira. Há mais de trinta anos, por um dia de Março, uma lancha a vapor da corveta Dupleix aguardava na praia de Sakai a volta de alguns oficiais, que haviam descido à terra e seguido para Osaka; passa casualmente um troço de tropas do Mikado, samurais da província de Tosa; e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os marinheiros, matam onze. São os onze túmulos destes mártires, destes míseros camaradas (porque eu sou como eles marinheiro), que agora contemplo.
Sobre três degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco por banda, e o aspirante à frente, como se estivessem na tolda da corveta em formatura, estão os onze corpos, estão as onze lajes, aqueles desfeitos em pó seguramente, estas enegrecidas pelo tempo e pela lepra dos líquenes ressequidos... pois não se esqueça que há mais de trinta invernos vai durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o seguinte: — “À la memoire des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai le 8 mars 1868. Requiescant in pace.” — Massacrés! massacrados! Como isto é destoante neste solo, no Dai-Nippon das paisagens amorosas e do sorriso perene nos rostos dos que passam!...
Vou lendo seguidamente as inscrições dos túmulos: — “Ci git Guilon, Charles Pierre, aspirant de 1ère classe, agê de 22 ans. Priez pour lui. — Ci git Boulard, Vincent, matelot de 3ème classe, agê de 21 ans. Priez pour lui. — Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3ème classe, agê de 25 ans. Priez pour lui. — Ci git Condette, François Désire, matelot de 3ème classe, agê de 24 ans. Priez pour lui. — Ci git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.r m.tre de manoeuv.re de 1ère classe, agê de 29 ans. Priez pour lui. — Ci git Savie, Jacques, matelot de 3ème classe, agê 23 ans. Priez pour lui. — Ci git Humet, Arséne Florimont, matelot de 3ème classe, agê de 24 ans. Priez pour lui. — Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3ème classe, agê de 22 ans. Priez pour lui. — Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3ème classe, agê de 22 ans. Priez pour lui. — Ci git Modest, Pierre Marie, matelot de 2e classe, agê de 26 ans. Priez pour lui. — Ci git Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3ème classe, agê de 24 ans. Priez pour lui.” — A ladainha é longa, como vêem; e bem comovedora, quando se atenta nas idades. Onze rapazes; quadra de ilusões, de amores, de esperanças. O mais velho do grupo teria hoje os seus sessenta e dois anos, se fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moços poderiam muito bem gozar ainda agora da doce alegria de viver, se o destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria provavelmente a sua farda de capitão-de-mar-e-guerra, chapada de veneras; e os marujos estariam talvez com a sua baixa, na aldeia pátria, em descanso, a verem o mar por um óculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! bárbara cáfila de soldados japoneses!...
A gente pode recompor em pensamento a cena da praia de Sakai. Uns belos louros, rosados como pêssegos, robustos como jovens Hércules. Riem, brincam, cantam, pisando a fofa areia. É um bando de irmãos, todos da mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de tabaco, e até de boca para boca o cachimbo de gesso fumegante. — “Olha, Jacques! Repara, Gabriel!” — E batem palmadas nas costas uns dos outros, e brilham-lhes as pupilas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes gestos rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os contorcidos pinheiros que rendilham o horizonte, para as ameixieiras em pasmosas florescências, para as casinhas de madeira e de papel, para as musumés em sedas, sedutoras... exóticos, cativantes aspetos de um país maravilhoso, que abre agora as suas portas à curiosidade do mundo ocidental, deslumbrando a imaginação juvenil destes pobres franceses, habituados à monotonia do azul das longas viagens fadigosas. Consta que os garotitos de Sakai iam afluindo à praia, e quedavam-se em volta dos marujos, boca aberta, espantados dos seus modos, do uniforme, das suas feições de raça branca; e que estes com as crianças partilharam algum pão das suas provisões. De repente, surde de algures um bando petulante, irrequieto, multicor pelas bandeiras desfraldadas e pelas sedas das cabaias, e reluzente pelas armas que empunha; são samurais do império; o quadro é deveras interessante; os marujitos, surpresos e atentos, são todos olhos... olhos que em breve se cerram, quando os corpos caem inertes sobre a areia, após uma descarga de metralha... Ah! bárbara cáfila de soldados japoneses!...
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No meu espírito vagabundo, depois da ferocíssima cena de matança, é agora a sorte destes samurais que relembro, e me comove. Comovem-me assassinos? Sim; os anos foram correndo sobre os fatos e esfriaram os rancores. Pode hoje memorar-se, sem asco, com simpatia, mesmo nos seus transes sanguinários, a breve luta de resistência que o velho Nippon feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aqueles que vinham despertá-lo do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados todos, pertencendo à nobre casta dos guerreiros, seria realmente exceção estranha se não fulgurassem no seu ânimo, remindo-os do opróbrio, as virtudes da casta — a extrema dedicação aos chefes, o sacrifício de si próprios pela pátria, e o amor por essa pátria guindado à intensidade de paixão, mais alto ainda, aos paroxismos do delírio. —
A história plenamente nos explica o ódio que a massa dos guerreiros ia nutrindo então pelos estranhos. O shogun, generalíssimo do imperador, com residência em Yedo, assinara por conta própria tratados de amizade e de comércio com a América e com a Europa, e os estrangeiros, em Yokohama, pisavam já afoitamente o solo japonês. O shogun violava por este modo o dogma sagrado do império, que era o isolamento absoluto, a exclusão do homem do Ocidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo, o gozo eterno e sem partilha, deliciosamente egoísta, do país maravilhoso que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a notícia do insólito desacato chegou até Kioto, a cidade santa, onde vivia a corte, em torno do Soberano, a mais acesa cólera explodiu, e todas as energias se ligaram para humilhar o shogun e varrer para sempre da pátria os teimosos intrusos. — “Morte aos bárbaros!” — foi o grito do soberano, da corte, dos senhores feudais. — “Morte aos bárbaros!” — foi o credo que incutiram às legiões à pressa reunidas, que corriam a expulsar, a massacrar, a exterminar, os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até então, estava perdido, debaixo de seus pés tremia a terra, rugia o vulcão político que em breve ia esmagá-lo; mas, pela fatalidade dos tempos, as energias e as cobiças dos intrusos haviam de vencer, de impor os seus desígnios; e a retórica dos diplomatas, prudentemente sublinhada pela metralha dos canhões, tinha de ser ouvida. Os dias iam passando, e o solene decreto de extermínio não podia ser cumprido; apenas, de quando em quando, um ou outro samurai lograva decepar alguma cabeça loira de inglês, merecendo dos seus chefes fartos aplausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes compreenderam que a luta era impossível, que o mistério nipônico findara; e o Japão foi descerrando pouco a pouco as suas portas, entrando em negociações com os diplomatas estrangeiros, não já pela iniciativa incompetente do shogun, mas pela própria iniciativa do soberano. O shogun, por inútil, foi deposto; como se não conformasse com a vontade imperial, travou-se dura luta, foi batido e retirou para Yedo. Estes acontecimentos sucediam-se em tropel; a grande maioria da nação não podia apreciá-los, e menos presumir das vistas do soberano; a grande maioria da nação ia odiando o shogun e repetindo o seu credo — “Morte aos bárbaros!” — sem se aperceber que a situação mudara, que a corte já tratava com as potências, e que a agressão aos europeus, havia pouco meritória, era agora condenada e prejudicava fortemente a marcha da política imperial.
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Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros franceses que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e útil para a pátria. Iludiam-se. A resposta às enérgicas reclamações das autoridades francesas foi a condenação à morte de todos os culpados, que eram vinte. Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido como graça o hara-kiri, isto é, a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a própria carne a punhaladas.
Foi escolhido para a cerimônia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de Março teve lugar o suplício. Passou-se então um espetáculo tremendo, não de tristeza, antes uma festa de sangue, de morte, que excede a compreensão dos homens europeus. Enchia o recinto do templo a multidão dos oficiais do império, das autoridades francesas, das testemunhas, dos amigos, dos bonzos, dos curiosos, vistosa em cores, em belos uniformes, em garbo e fidalguia; e, um por um, por seu turno, veio aparecendo cada condenado, todo vestido de luto, de alvas vestes, ajoelhou no solo, curvou-se em reverências, saudou a multidão, recebeu solenemente o curto sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas entranhas, rasgou as carnes com mão firme, tingiram-se as vestes de escarlate, jorrou o sangue sob uma urna próxima, a fronte crispou-se pela dor, a cor fugiu da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente...
Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco anos, escreveu no seu último momento de vida uma curta poesia, que era assim: — “Condenam-me; não discuto a minha morte; servirá ela de pretexto à justiça do futuro, que decidirá se, para honra da pátria, devem ser expulsos os bárbaros.” — Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu, de vinte e quatro anos, escreveu o seguinte: — “Não me pesa o morrer, a vida passa como o orvalho desaparece com o vento; uma coisa me aflige: — o futuro da pátria.” — Ikegami Iasakichi Fujiwara no Mitsunori, de trinta e oito anos, escreveu o seguinte: — “É preciso alumiar o espírito da nação; para isto abandono o corpo ao meu país;” — este, quando as entranhas lhe caíram, fez menção de atirá-las à cara dos franceses. Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e oito anos, escreveu o seguinte: — “Façamos hoje o sacrifício da vida, com o maior respeito, pois somos todos filhos deste país dos deuses.” — Sugimoto Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro anos, escreveu o seguinte: — “Sinto o coração feliz pela agonia que sofro, ao dar a vida pela pátria;” este, por um gesto respeitoso, ofereceu as entranhas aos franceses. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e oito anos, escreveu o seguinte: — “Ninguém pode abalar no ânimo dum samurai o sentimento que tributa ao seu senhor.” — Iamamoto Tetsusuka Minamoto no Toshiwo, de vinte e oito anos, escreveu o seguinte: — “Muitos condenam a alma do samurai; pensarão de outro modo aqueles que bem a conhecem.” — Morishita Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove anos, escreveu o seguinte: — “Abramos o caminho aos ignorantes, a fim de alumiar o mundo.” — Kitashiro Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta e seis anos, escreveu o seguinte: — “Para legar o seu nome à posteridade há um meio: o sacrifício da vida.” — Inada Kwannoyo Fujiwara no Norashige, de vinte e oito anos, escreveu o seguinte: — “Os japoneses não temem de perder a vida; também a cerejeira, rainha das árvores pelas suas flores, perde um dia essas flores.” — Yanagase Tsuneshichi Fujiwara no Yoshiyoshi, de vinte e seis anos, escreveu o seguinte: — “Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos estrangeiros o que vale a nobre coragem japonesa.” — Contando bem, são onze já. Parou aqui a cena, porque o comandante do Dupleix, notando já onze mortos para expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito, pediu que cessasse aquele espetáculo assombroso. Dos samurais perdoados, um suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graça pela honra de morrer com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda hoje, presumo que em Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de bom grado as peripécias daquele horrível drama.
Os onze samurais foram ali mesmo enterrados, no cemitério, junto ao templo. Ainda há pouco lá estive. O templo é um plácido retiro de sombra e de silêncio, tão velho, que há alguns meses um rijo vendaval quase o desfez em pó.
Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma árvore sagrada, um enorme sagueiro, ocupa o espaço todo, lançando em volta as suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos anos de existência, e reza que há quase quatro séculos o shogun Nobunaga tanto se agradou daquela árvore, que mandou arrancá-la e transportar para um dos seus jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e dia, que não houve remédio senão trazê-lo de novo ao velho pouso.
Do jardim, passa-se ao pequeno cemitério. As sepulturas, apresentando a forma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se numa intimidade comovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azáleas e verdejam os musgos, e mãos piedosas vêm depor ramos de flores e de verdura. Entre estas sepulturas contam-se as dos onze samurais. Mais adiante, as urnas de charão que serviram ao suplício, alinham-se num altar, e ainda se distinguem manchas negras, do sangue derramado.
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Como eu dizia há pouco, os anos passaram sobre os fatos e esfriaram os rancores. Nestes dois cemitérios, de Kobe e de Sakai, nem já existe sequer o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, as onze sepulturas evocam no espírito esse período de frenesi da Europa, de curiosidade, de cobiça, em face da morna inércia deste canto do mundo; e as esquadras que o devassam, que o visam com os canhões; e os diplomatas que intrigam, que teimam, conduzindo-o finalmente, à força, ao convívio das nações; e, como peripécias ínfimas, quase olvidadas e não pesando na marcha progressiva dos negócios, o sacrifício inglório de alguns humildes obreiros dessa empresa... Em Sakai, as onze sepulturas rememoram a desesperada resistência duma tribo feliz, contra aqueles que vinham arrancá-la aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a crença, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso, já não é permitido. Pobres mortos! abraço com um mesmo olhar de alma, enternecido, as vinte e duas campas...

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