sábado, 25 de novembro de 2017

Falar inglês (Conto), de Lima Barreto


Falar inglês
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A amizade, que eu mantinha com o Dr. Serapião Fortunato Cosme Damião, era antiga e sólida. Sempre ele me protegeu de todas as formas que pôde, embora não dispusesse de grandes recursos. Há anos passados, andava eu muito atrapalhado da vida, desempregado, quando recebi um telegrama de Serapião, nestes termos: “Venâncio — Corre cá em casa. — Serapião”. Assim fiz; e só não fui de táxi porque não me sobrava dinheiro. Chegando em casa dele, fui entrando e gritando pela mulher do amigo:

— Dona Miloca! Dona Miloca! Ela respondeu.

— Sou eu, o Venâncio.

— Oh! “seu” Venâncio! Entre, entre! O Serapião está à sua espera, no gabinete.

Conhecendo a casa, dirigi-me com toda a liberdade, para o aposento em que estava o meu camarada. Ao dar com ele, mal cumprimentei-o e perguntei-lhe logo:

— Que há?

— Boa coisa.

— O que é?

— Vou ter uma boa empreitada, no estado de Ibiturana, e vais trabalhar comigo.

— Que vais fazer lá?

— Vou sanear o vale do Ipitiranga, um dos lugares mais férteis do Brasil, e que se presta admiravelmente para a cultura da oliveira.

— Há lá oliveira, já?

— Nunca houve; mas observações climatológicas, geológicas, análises químicas dos terrenos etc. etc. permitem identificar o solo e a semelhança daquela parte do Brasil com os melhores trechos da Europa em que crescem árvores de azeitonas. Todas as observações, experiências e análises foram feitas nos laboratórios do Ministério da Agricultura, por operadores de ambos os sexos, e “controladas” por sumidades alemãs, belgas, suíças e japonesas.

— Mas... azeitonas!

— Que tem azeitonas? São um excelente alimento. É o fruto da sabedoria que Minerva fez brotar na terra. Na Europa, nos lugares em que elas são abundantes, os camponeses, dias e dias, unicamente se alimentam com elas, acompanhando-as com pão duro ou bolacha. Aqui, os bufarinheiros sírios, turcos — tens visto? Demais, e o azeite?

— Como arranjaste isto?

— Eu te conto. Dou-me com doutor Karl Ten Kantay o, que foi meu lente, e é hoje governador de Ibiturana. Ele está aqui, pois veio tratar-se. Não me aparecendo comissão nenhuma de engenharia e como, com as moléstias constantes da mulher e dos filhos, eu ia entrando no grosso do capital, era urgente obter qualquer trabalho. De resto, depois que consegui falar com desembaraço inglês, comecei a aborrecer-me com o Rio. Queria...

— Foste tenaz, não há dúvida!

— Fui. Levei quatro anos e posso te garantir que o falo bem, como tu vais ver. Queria ir para o campo. Resolvi procurar o doutor Ten Kantay o, para que ele me arranjasse alguma coisa no estado que administra. Fiz-me anunciar, dando o meu cartão. Fui logo introduzido. O doutor Karl fez-me sinal para que o esperasse e me sentasse.

Sentei-me e ele continuou a conversar com um americano de olhos esbugalhados e queixo quadrado que lhe estava à direita. Falavam em inglês e eu lhes entendia perfeitamente a palestra. Tratavam do tal saneamento. Dizia o americano que já propusera tal serviço, no governo de Prudente de Morais, em...

Não pôde dizer o ano; fui em seu socorro e disse-lhe, em inglês, todos os anos do período governamental daquele presidente. O Dr. Karl ficou espantado e ordenou:

— Então, Serapião, você fala inglês?

— Falo, respondi com modéstia, mal; mas falo.

Daí em diante conversamos os três em inglês. Convencionamos que eu seria sócio de Mr. Cecil Sharp (o tal americano), na sua empreitada de sanear o vale do Ipitiranga, pois era bom figurar na empresa um brasileiro. Objetei que não tinha capital. O Dr. Karl explicou-me que o seu estado entrava com o dinheiro, à proporção que as obras se realizassem, pagando-nos ordenado e porcentagens.

— Mas, opus eu, se por qualquer circunstância não pudermos acabar o trabalho?

O Dr. Karl, então, elucidou:

— Vocês, administradores, receberão, em tal caso, a indenização de cinco por cento, calculados sobre o custo total das obras que teriam de concluir para a execução plena do contrato. Eis aí.

Pensei um pouco e atrevi-me — com que medo! — atrevi-me a indagar:

— E a opinião pública?

— Fecho-lhe a boca, fez com império o governador, dizendo que se vocês acabassem as obras, as comissões de dez e meio por cento, fariam o estado gastar muitas vezes mais. Vou mandar lavrar o contrato. Depois de amanhã, vocês venham assiná-lo.

— De modo, Serapião — perguntei eu — o teu interesse está em não acabar a obra?

— Por certo! Nem mesmo ela foi projetada para ser ultimada.

— Para que, então, foi?

— És ingênuo! Obras como essa, meu caro, sempre tiveram um escopo.

— Qual é?

— Fornecer matéria-prima para indenizações.

— É uma indústria?

— É, das mais nacionais.

— Tens sorte.

— Por que não aprendes a falar inglês?

— Devia fazê-lo. Não há dúvida que o inglês é um instrumento próprio para... realizar altos trabalhos.

— Tolo!

E tirou uma longa fumaça do charuto.

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