sábado, 25 de novembro de 2017

Manifestações políticas (Conto), de Lima Barreto


Manifestações políticas
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A propósito de recentes e ruidosas manifestações políticas, contou-me um plácido filósofo o seguinte:

“Em eras passadas e bem distantes da nossa, houve num país longínquo da Ásia uma guerra sangrenta que teve, do lado de um dos partidos, como general em chefe o cabo de guerra pouco conhecido chamado Brederodes. Este cabo de guerra não foi feliz nas operações, fosse por incapacidade própria, fosse por outro qualquer motivo. Naquele tempo, não havia jornais, mas todos murmuravam contra a sua conduta, nas lojas de comércio e outros lugares públicos em que se reuniam pessoas de todas as condições sociais. O rei ou imperador do país nada dizia nem tomava providência alguma. O povo, porém, insistia; e o soberano, para não desgostar o seu fiel Brederodes, tomou um alvitre salvador e conciliador: resolveu fazer as pazes com o inimigo de qualquer modo. Isto desgostou o povo de uma maneira profunda; mas, ao invés de acusar o rei, a população atribuiu o desastre da campanha ao general Brederodes e, quando ele aportou à capital do país, fez-lhe uma imponente manifestação de desagrado.

Na rua principal, alguns admiradores do general, no intuito de diminuírem a indignação do povo, haviam erguido coretos e outros adornos festivos, muito pouco próprios de um triunfo negativo, como era o do general Brederodes, mediante essas falsas demonstrações de entusiasmo. Além disso, para abafarem os esperados apupos, os seus fiéis amigos e apaniguados haviam alugado uma coorte de homens de duvidosa condição e reputação ainda mais duvidosa para o aclamarem. O general Brederodes chegou”, continuou o meu amigo, “depois de sua estrondosa derrota; e, como era de esperar, sofreu uma vaia homérica. Além disto, não contente com tal, queimou o povo coretos, as anexas, rasgou retratos; enfim, fez o diabo na ‘Via Ápia’ da cidade, na intenção de desfeitear o herói negativo e falsificado.

Brederodes, à vista de tal, muito a propósito, recolheu-se à vida privada, numa casa de campo, onde cultiva cenouras e couves.

Passaram-se anos e surgiu uma nova guerra do seu país com um outro vizinho. Nomearam uma porção de generais e todos eles foram derrotados. O povo começou a dar sinais de impaciência, reclamando do imperador providências enérgicas, a fim de que o país não continuasse a ser humilhado. Todos os principais cabos de guerra da nação já haviam sido experimentados e nenhum deles obtinha vantagem. Brederodes era o único que o não havia sido. Resolveram experimentá-lo; e — coisa singular! — Brederodes foi vitorioso, transformando-se em ídolo do país. Voltou e recebeu as mais estrondosas aclamações do povo da capital. Atravessou a rua principal, a cavalo, tendo ao lado diversos garbosos ajudantes de ordens.

Vendo e ouvindo aquilo, o general Brederodes dirigiu-se a um dos seus ajudantes, perguntou:

— Quem é essa gente que me aclama assim?

— É a mesma que o vaiou, não há muitos anos, Excelência.

— Como mudou!

— É porque ela mudou de vestuário. Há nisso uma questão de moda e de sucesso, Excelência.

Nisto um bêbedo ou um maluco, antepassado certamente de Quincas Borba, gritou bem alto:

— Ao vencedor, batatas!”

O meu amigo rematou assim o apólogo:

— Está aí a filosofia das manifestações políticas, toda ela.

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