sábado, 25 de novembro de 2017

Faustino I (Conto), de Lima Barreto


Faustino I
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Lendo à toa um dicionário biográfico, temos às vezes surpresas bem agradáveis e revelações inéditas.

Há dias folheando o velho Dicionário dos contemporâneos, de Vapereau,260 encontrei a biografia de um curioso imperador do Haiti, Faustino I, mais conhecido por Suluque.

Não sei o que de atual descobri na sua vida que não me posso furtar ao desejo de comunicá-la aos leitores, em largos traços. Se a história se repete, as biografias dos seus grandes homens também. Vejam só.

Suluque era general de divisão em 1846, quando uma moléstia súbita prostrou sem vida o presidente da república haitiana, Riché. Dividiu-se a opinião entre dois candidatos, os generais Souffrau e Paul, e o Senado, a fim de sair-se do embaraço, escolheu um terceiro general, Suluque, escolha que ninguém esperava.

Cheio de medo, o futuro Faustino I tomou as rédeas do governo.

Tímido em excesso, seguro de sua ignorância, foi no começo dócil aos bons conselhos; mas bem depressa as suas superstições africanas e falta de cultura se mostraram patentemente nos seus atos.

Tornou-se, por isso, objeto de risada para as pessoas esclarecidas do país e um jornal, Folha do Comércio, tendo ido, por intermédio de um dos seus colaboradores, mais longe na crítica, foi sequestrado e o autor do artigo, Courtois, apesar de senador, condenado à morte.

Daí em diante, Suluque não viu por toda a parte senão conspiração e, em certo dia, fez tocar alarme e proceder à matança indistinta de todos aqueles que ele julgava seus inimigos.

Seguido de sua guarda, dias depois, foi para o interior da ilha e continuou o Saint-Barthélemy.

Voltou triunfalmente à capital e uma “súplica humilde” do povo às câmaras fez com que estas o aclamassem imperador.

Suluque tomou o nome de Faustino I, instituiu uma família imperial, criou uma nobreza e atribuiu-se uma lista civil de 800 mil francos, cerca de um sétimo da renda total do país.

No ano seguinte, fuzilou sem dó nem piedade os mais proeminentes membros do partido que o elevava à dignidade imperial.

Teve azedas questões com os grandes dignitários de sua corte, entre os quais Bobo, príncipe e ex-forçado.

Durante toda essa sangrenta palhaçada, Faustino não cuidou de um só melhoramento público, deixou arruinarem-se os que havia, foi derrotado pela república vizinha de São Domingos e empregou os soldados do seu exército na exploração de suas plantações de café e cana-de-açúcar. Tratava de matar e fingir de imperador.

Não podendo o Haiti rir-se dele, porque Faustino cortava cabeças sem dó nem piedade, a Europa riu-se a valer desse soberano durante anos. Destronado em 1859, morreu em 1867.

É bem bom ler-se a esmo um dicionário biográfico...

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