domingo, 26 de novembro de 2017

Interesse público (Conto), de Lima Barreto


Interesse público
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O senador Victoman era conhecido pela sua grande severidade na fiscalização dos dinheiros públicos. Nenhum outro era como ele inimigo dos burocratas que, no seu julgar, sugavam o melhor das rendas públicas, vivendo à larga, sem prestar serviço algum ao país e ao Estado.

A sua implicância por essa classe dos servidores do governo, em certas ocasiões, levava-o a explosões de cólera que metiam medo a todo mundo.

Por isso, quando ele falava no Senado, no dia seguinte, os modestos lares dos funcionários públicos eram abalados com a tempestade que as suas palavras desencadeavam.

A esposa de um amanuense que via seu marido sair toda a manhã para o trabalho e voltar à tarde, sabendo que Victoman chamara todos os funcionários públicos de madraços, punha-se a desconfiar do emprego que seu marido dava ao tempo que levava fora de casa e recriminava-o com meias palavras.

Algumas mesmo excediam e diziam francamente aos maridos que eles se metiam em pândegas nas horas que afirmavam passarem nas repartições.

Sendo assim, o senador Victoman quando, naquele dia, subiu à tribuna para falar, todos estremeceram, e as repartições públicas, ao saberem do caso, encheram-se de pavor.

Entretanto, não havia motivo para isso.

O senador pediu a palavra e disse, em resumo, o seguinte que nada tem a ver com o funcionalismo do Estado:

“Meus senhores. Há dias comprei dez bois e algumas vacas que enviei para as minhas fazendas.

Devido à pouca importância que a administração liga aos meus bois e às minhas vacas, eles chegaram às propriedades agrícolas com alguns arranhões insignificantes.

Tal coisa não se teria dado se o governo acolchoasse convenientemente os carros da estrada de ferro destinados ao transporte dos meus bois e das minhas vacas.

Julgo, portanto, do meu dever apresentar a esta casa um projeto de lei, concedendo um crédito de 2 mil contos para acolchoar os carros das estradas federais que tiverem de transportar o meu gado vacum.”

O orador, dizia a ata, foi muito cumprimentado por ter tratado de caso de tanto interesse público.

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