domingo, 26 de novembro de 2017

Mambembes (Conto), de Lima Barreto


Mambembes
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Com um vocábulo de origem duvidosa — mambembe —, é costume se depreciar as companhias dramáticas do interior.

Há nisso uma flagrante injustiça, pois vai em tal depreciação um lastimável esquecimento dos serviços que essas companhias têm prestado ao nosso teatro e à nossa cultura em geral.

Sem temor de errar, pode-se dizer que as maiores glórias do palco nacional começaram e se educaram nessas modestas troupes; e houve, mesmo há ainda, dirigindo empresas teatrais ambulantes, diretores competentes, cuja capacidade só não é verdadeiramente aquilatada e consagrada, devido à sua invencível timidez e modéstia.

Todos conhecem os nomes respeitados de Vicente Pontes, Capitão Cabral, Ribeiro Guimarães, Guilherme do Rego, Capitão Dias e outros muitos que seria ocioso relembrar; todos se recordam que João Caetano, Vasques, J. de Aguiar, Xisto Bahia, Amoedo, Eugênio de Magalhães, Ferreira de Sousa se afirmaram grandes nos desdenhados mambembes.

E não podia ser de outra forma.

Entre nós jamais existiu uma verdadeira escola dramática, um teatro normal, por isso as modestas companhias da roça espontaneamente e inconvenientemente se transformam em fecundas escolas e em viveiro de artistas do palco.

No nosso tempo, em que os sociólogos muito encarecem a iniciativa individual, a vitalidade do esforço desses obreiros humildes, desprotegidos dos poderes públicos e semidesdenhados, obriga o estudioso a lhes dispensar consideração.

Demais, quem leva às populações simples do nosso interior um pouco das puras emoções da arte e da beleza?...

Portanto, os serviços sociais dos mambembes são valiosos; e se não imaginemos que, numa localidade qualquer, naturalmente longínqua e pobre, um rapaz sente em si fogo sagrado da arte — para onde se desse encaminhar? Para o mambembe.

Atira-se, faz pontas, desagrega o seu talento, dá-lhe corpo e afinal procura um meio maior, onde se faz uma celebridade. Pergunta-se: Quem o excitou? Quem o animou? Quem educou e dirigiu a sua voação nascente?

O mambembe, não há como negar!

Objetarão que a escola é viciosa. Não há dúvida que o é; mas se não há outra?...

Só se destrói o que se substitui. Admitindo isso, se queremos ter atos corretos, impecáveis, devemos organizar quanto antes um teatro normal, um conservatório dramático; então sim, o Brasil poderá ter atores cômicos, dramáticos, trágicos perfeitamente superiores e as exéquias serão cabidas.

Atualmente, forçoso é emendar, o mambembe ainda é digno do respeito e da consideração do país inteiro.

O público e os ruralistas do interior devem ter sempre em vista estas despretensiosas considerações; devem ter em mira que, se nada há, a respeito de teatro, no próprio Rio de Janeiro, exigir demasiado dos modestos e humildes atores do interior é disparatado; e também não se deve esquecer que, entre os mambembeiros, pode estar um futuro João Caetano, e que grande glória terá aquele que souber descobri-lo e animá-lo.

No Brasil, é dessa massa que eles se fizeram e se fazem.

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