domingo, 26 de novembro de 2017

Meditações na janela (Conto), de Lima Barreto


Meditações na janela
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Na galé que remo das 10 às 3 (muito semelhante àquela em que meu pai remou durante 25 anos, pela mesmas horas), chego às vezes, à janela, e olho a praça em frente movimentada.

A princípio reinou o vazio. Nada vem dos objetos ou do meu íntimo perceptível. Meu pensamento está adormecido. Mas eis que chega próximo do lampião, cuja lanterna envidraçada brilha ao sol como uma pedra preciosa, um soldado. Ergue o ao alto da cabeça e discursa-se em tempo para a campanha, e se reparo-lhe bem à frente deprimido o olhar oblíquo, a cor de cobre... E não sei por que me sobe aos olhos a visão de um índio a flechar peixes nas margens dos grandes rios. Vejo-o depois apujado, amarrado ao fundo de uma grande canoa, descer o rio que o vira livre. No fundo da montaria, é como uma peça de caça. Seus olhos redondos e vivos não compreendem aquilo, brilham estupidamente, e traduzem um esforço inútil de uma inteligência que não pode penetrar no fato que se lhe apresenta. O soldado ergueu-se.

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