quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Menina de olho no fundo (Conto), de Mário de Andrade


Menina de olho no fundo
(Os Contos de Belazarte)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Belazarte me contou:

Você é músico, e do conservatório grande lá da avenida São João, por isso há de se divertir com o caso...

O maestro Marchese era maestro uma ova, foi mas violinista duma companhia de operetas, isso sim. Até me contaram que na Itália ele esfregava rabecão num barzinho de Gênova, não sei, Chegou aqui, virou maestro. Mas como não tinha bastante aluno particular, botou uma espécie de escola de música diurne e serale numa casinha da avenida Rangel Pestana, lá no Brás. Cinco mil-réis mensais por cabeça, trazendo instrumento. O maestro ensinava tudo, canto, piano, violino, cavaquinho, sanfona. Choveu aluno que nem passarão no rio Negro tempo de migrar. O Marchese não dava mais conta do recado e precisou de tomar uns professores de ajuda.

Mesmo no Brás tinha um moço muito bonzinho, coitado! que estudava violino com o professor Bastiani, colega de você. Pra encurtar: o maestro Marchese mandou chamar o Carlos da Silva Gomes, e lá ficou seu Gomes como professor de viola e artinha 110 conservatório. Ia me esquecendo de contar que a tal escola se chamava Conservatório Giacomo Puccini.

A empresa progredia. Até a gente mais endinheirada do bairro principiou botando os filhos lá, ficava mais perto e não carecia de acompanhar ninguém na cidade. O Marchese, esse então virou rei da música do Brás. No cinema torcia o nariz porque a orquestrinha não prestava e o saxofone tinha desafinado. No dia seguinte toda a gente falava pra seu Fifo que o saxofone estava desafinando e crocotó! maré vazava pro pesado do saxofone. Seu Fifo mandava falar pra ele que não careciam mais de saxofone na orquestrinha e quem que arranjava saxofonista novo? já sabe: o maestro Marchese já de brilhantão no dedo e quatro marchesinhos com bastante macarrão na barriga lá em casa. Até sala-de-visitas arranjou no lar, com piano a prestação e retrato do Giacomo Puccini.

O maestro bem que gostava de ficar com todas as alunas que lhe pareciam gente mais arranjada, porém, quando a filha do Bermudes foi se matricular, parafusou, parafusou e afinal achou melhor colocar a moça no curso de seu Gomes. Não vê que a Dolores sempre botava umas olhadas pra ele e a Pascoalina não era coisa de que a gente não fizesse caso não: desconfiando, era capaz dalgum escândalo dos diabos. Por isso o maestro falou pra mãe da mocinha que a sinhora vai vedere que num stantinho sua filha fica una artista, lo giuro! Seu Gomes é un professore molto bon, ah questo!... proprio la minha scuola!

A mãe da Dolores até saiu bem contente porque tinha vindo pro bairro, fazia tempo, recém-casada ainda... Sabia que a família de seu Gomes era gente fina, parente dos Prados. Tinham continuado pobres. Ela, da casinha de porta e janela fora subindo até aquele número 25 assobradado. E agora a filha estava aprendendo com o parente dos Prados. Sorriu numa satisfa que lhe inchava toda a banha, oitenta-e-nove quilos pra mais. Tirou o chapéu de renda preta, procurou na manga da blusa o lenço marcado M. S. B., Marina Sarti Bermudes, e limpou o orvalho do bigodinho. Foi no quintal, colheu não sei quantas dúzias de margaridas, botou numa cesta e mandou a criada levar na casa de seu Gomes que a filha mandava.

Dolores era um desses tipos que o Brasil importa a mãe e o pai pra bancar que também dá moça linda. Direitinho certas indústrias de São Paulo... Da terra e da nossa raça não tinha nada, porém se pode afirmar que tinha o demais, porque não havia ninguém mais brasileiro que ela. Falassem mal do Brasil perto dela pra ver o que sucedia! Desbaratava logo com o amaldiçoado que vem comer o pão da gente, agora! pra que não ficou lá na sua terra morrendo de fome! vá saindo!... Ah! perto de mim você não fala do Brasil, não porque eu dou pra trás, sabe! Eu sei bem que a Itália é mais bonita, mais bonita o quê!... uma porcariada de casas velhas, isso sim, e gente ruim, só calabrês assassino é que se vê!... Aqui tem cada amor de bangalozinho!... e a estação da Luz, então! Você nunca, aposto, que já entrou no teatro Municipal! Se entrou, foi pro galinheiro, não viu o fuaiér! Itália... A nossa catedral... aquilo é gótico, sabe! não está acabada mas falaram pra mim que vai ter as torres mais compridas do mundo!

E Dolores ficava muito bonita na irritação, com cada olho enorme lá no fundo relumeando que nem esmeralda. Era uma belezinha. Esguia, bem feita, com tudo saltadinho, ombros descidos, pescoço penujado de iereré. Então do pescoço pra cima! Morena, com cada jambinho madurando nas faces que se a gente provasse uma vez só, virava no sufragante ijucapirama do amor. Cabelo cor-de-castanha pra mais claro, cheio de muitos cachos de verdade que ela ainda não tivera coragem de cortar pra seguir a moda das amigas. Quando for pra suspender, eu corto em vez de suspender, falava. E aqueles crespos lhe rodeavam tão bem a cor! dando pra boniteza dela uma esquisitice rara com que a gente primeiro carecia se acostumar. A boca não era grande coisa mas não prejudicava. E os olhos, Nossa Senhora! tinha verde de bredo com vagalume estrelando por cima, num Cruzeiro do Sul de noite e dia.

Estava pra fazer dezessete. Era bem educadinha, isto é... tinha seguido o curso dum colégio meio econômico mas bem frequentado. Ainda se obstinava no francês, como as amigas faziam, e experimentava as danças da moda com a melhor professora da cidade. Contava muitas amigas ali da Vila Buarque, que é bairro de pobreza escondida, e tinha sobre elas a ascendência respeitável de quem não manda reformar vestido. Andava nuns trinques!...

Era natural que revolucionasse o curso de seu Gomes, pois foi. Já sabia seus vibratos de violino aprendido no colégio e até terceira posição ia bem direitinho. Faltava afinação mas não faltava inteligência. O Gomes principiou alimentando a ideia de que a Dolores era bem capaz de fazer a notoriedade dele como professor.

Logo simpatizara com ela. Mas não envenene o caso não, era simpatia de amizade apenas. E um poucadinho de ambição também. Professor é sempre assim: por mais pura que seja a amizade dele por aluno, há sempre uma esperancinha de perpetuação enfeiando o sentimento. Não dizem, porém a gente percebe que estão procedendo como se dissessem: Isto quem fez fui eu. Seu Gomes imaginou que a Dolores ia fazer a celebridade dele e teve simpatia por ela. Em amor não pensou e, franqueza: nem sentiu nada diante dela. Era sossegado, meio tímido e chegara aos vinte- e-quatro sem nunca ter chamego por ninguém.

Nem sabia se casava ou não. Tinha primeiro que arranjar reputação de professor bom, o que já é bastante difícil pra mestre “juvenal”, como chamam aos solteirões no Nordeste. Aliás, sem querer, outro dia, seu Gomes levantara os olhos, saudara a vizinha, uma creio que modista. Até encafifara porque nunca tirava chapéu pra vizinho. Não sabia por que tirara, ia tão distraído, foi de repente. Mas, saudara uma vez e continuou saudando.

Outra razão importante acabou por destruir qualquer vontade que ele pudesse ter de se enguiçar pela Dolores. Ela era vivinha, foi logo se chegando pra maiores intimidades. Que que ele havia de fazer! tinha que falar “muito obrigado” por causa das margaridas, por causa dos cravos, por causa dos bolinhos que era quase toda semana iam parar na casa dele.

— Então o senhor gostou, é? Ainda hei de mandar pro senhor mas é um bolo que eu faço, esse sim! Mas precisa figos cristalizados e o empório não tinha. Quando eu for na cidade, trago. Papai? a gente encomenda pra ele, o pobre! esquece.

— Mas dona Dolores...

— Pra que que o senhor me chama “dona”, fica tão feio! Pois não sou sua aluna! Fale “Dores”, “Dores” como fiz me chamarem lá em casa. “Dores”, “você”, e pronto!

Ele achava graça naquela voz de criança.

— Pois então chamo. Ia dizendo que você não deve se incomodar assim comigo...

— Me incomodar! Não fale isso, seu Carlos!

— Mas sua mãe, Dolores...

— Dores! “Dolores” é espanhol, não gosto! Sou tão brasileira como o senhor, fique sabendo! Já não basta esse Bermudes tão feio que não posso mudar... Fale “Dores”! São tão bonitos os nomes brasileiros... Carlos da Silva Gomes! Ah, se eu tivesse um nome assim!

— Pois eu acho Dolores um nome bem bonito.

— Ora, seu Carlos!... O senhor vai me chamar “Dores”, chama? Não custa nada pro senhor e fico tão feliz! Diga que chama!

— Pois chamo... a senhora...

— Olhe! “Dores”, “você”.

— Espere um pouco também! deixe eu me acostumar. No começo a gente confunde... Dores.

Ela fechou os ombros numa expressão de gosto alegre. Riu.

— Do que você está rindo?

— Eu sempre falo que consigo tudo dos meus professores! Já no colégio era assim. O professor de aritmética me avisou que eu tomava bomba, e tomava mesmo porque tenho horror de aritmética, credo! Pois apostei com as colegas, não estudei mesmo nada e passei!

— E como é que você fez!

— Ah, isso... são cá uns segredinhos! A gente não estuda mas... ihi... então pra que que a gente tem olhos então!...

— Dolores!

— Ora, seu Carlos! são uns professores coiós, qualquer coisa já pensam que a gente está doida por eles... a gente aproveita, é lógico!

— Mas Dolores...

— Dores!

— Você é uma criança, Dores! Teve coragem de namorar o professor só pra passar!

— Namorar? que nada! Olhava dum certo jeitinho e ele é que pensava que eu estava namorando. Ihi... quando chegou no exame, fez a prova e disfarçando botou na minha carteira, foi só copiar! Distinção! As outras é que estrilaram! Outro coió é o professor de francês, tamanho velho!... Uma vez se queixou pra mamãe e ela me bateu. Espera aí, seu caixadoclos, que eu faço você ficar manso!... do que que o senhor está se rindo tanto, seu Carlos!

— Pois Dores, eu sou seu professor e você vem contar isso pra mim!

Dolores ficou séria de repente. E apertando a mão dele com força:

— Seu Carlos, o senhor não vá pensar que trato o senhor desse jeito quando... ah, não!

Já se ria outra vez. Retirou a mão. E por faceirice, num gesto de inocência fingida:

— Posso contar pro senhor porque já sei com quem estou tratando.

— Ah, isso, você pode ter certeza, Dores! Já falei que você tem jeito pra música mas se não estudar, comigo é que você não passa nem que remexa os olhares mais arrevesados desse mundo!

— Ihi... não é arrevesado que a gente faz, seu Carlos!

— Então como é?

— Não tem palavra pra explicar, só fazendo... Mas diante do senhor tenho vergonha!

E ficou tal qual um jenipapo, roxa de vergonha sem razão. E o verde fundo dos olhos fuzilando... Seu Gomes pensou a palavra “bonita” e fez a menina repetir mais três vezes a escala de ré maior.

— Dores, você carece estudar mais! Olhe que lição você me trouxe! Assim não serve porque afinal nós dois perdemos tempo à toa. Não estou aqui pra isso não!

— Oh, seu Carlos...

E num átimo ele se viu todo coberto de esmeraldas tristes. Percebeu que fora ríspido demais, melhorou:

— Dores, você não sabe... Um professor, se é deveras professor, quer bem as alunas como... filhas, Dores. Quer que elas progridam, que fiquem tocando muito bem... Você, Dores... você precisa aproveitar os dotes que tem! De todas as minhas alunas é a mais bem dotada, é... é a melhor, estude, faz favor! Você já me disse que gosta muito de mim como professor...

— Gosto muito!

— ...pois então, estude... pra me fazer feliz!

— Seu Carlos, eu vou estudar muito agora!

— Então vá!

— ‘Té quinta, seu Carlos!

— ‘Té mais.

Ficou sozinho na sala, todo cheio de esmeraldas alegres. Não percebia que tinha melhorado por demais a zanga, eis como os casos principiam, meu caro. A gente vai melhorar e daí que a joça destempera duma vez. Seu Gomes ficara zangado por timidez. A palavra “bonita” avisou que se ele não pusesse reparo seria o bobão próximo. E ainda restava um certo despeito de classe por ver os professores tão brincados por uma criança, então zangou meio sem razão. Mas tristura de olho no fundo quem que aguenta? Seu Gomes acalmou fácil. Não sentiu mais nada que continuasse a palavra “bonita” e quis carinhosamente fazer estudar mais, uma aluna de que esperava muita coisa. Pôs ambição no conselho e a boba da mocinha sentiu um golpe bom dentro da impaciência. Saiu feliz sem saber de que, porém mesmo nesse dia inda foram quase duas horas de ré maior.

Seu Gomes sorumbático puxou a cigarreira pra fumar. Viu a cara embaçada na tampa de prata. E daquela cara regular dum moreno pálido, com o cabelo crespo negrejando sobre as entradas, descia um corpo que não era fraco não: capaz de aguentar com a dona que encostasse nele. E seu Gomes piazinho inda machucara muito uma unha. Ficara aquela mancha preta grande que até dava espírito pra mão. Saiu sorumbático. Aquela menina era bem capaz de fazer dele... isso não, que não era nenhum leso! A Serafina. (É a vizinha). Não podia ser acaso não. De primeiro inda era só de-tarde, hora mesmo da gente estar na janela, mas agora ao meio-dia, pronto: sorrindo pálido pra saudação dele. Serafina. Doce nome... Todas as raças são iguais... Seu Gomes entardeceu num sossego largado, muito suave. Sorriu livre, tornando a pensar na Dolores, que sapequinha! Enfim, fora bom porque agora sabia com quem estava tratando.

E ensinou a Dolores com muito carinho, com imensa amizade, cada vez mais íntima e mais amizade.

E depois: ela progredia. Muito preguiçosa, porém seu Gomes logo descobriu que falando com certo jeitinho, voz mais baixa meio surda... só fazendo, a Dores saía dali e estudava até umas quatro horas por dia durante uma semana. Pois então, queria que ela estudasse? duas três vezes por mês falava do tal jeitinho. Isso chovia esmeralda de bandeirante numa conta em cima dele. Até, no fim desse mesmo ano, quando o maestro Marchese disse que bisognava arranjare qualque músicas pra la signorina tocare náa festa, nem seu Gomes precisou se incomodar muito: a signorina teve um sucesso com o Noturno de Chopin transcrito.

Estamos três anos depois dessa festa e lá por dezembro Dolores recebe o diploma do Giacomo Puccini. E sempre a mesma coisa como carinha bonita mas anda mais desmerecida. Estuda muito agora e toca de deveras com espírito o que toca. Era considerada a melhor aluna do “Giacomo”, como se falava no Brás, deixando rabi o nome do conservatório. O Marchese andava enciumado e sei que andou chamando umas colegas da Dolores na sala da diretoria, perguntando umas coisas, filho-da-mãe!...

Uhm, me esquecia... meses antes ela ficara noiva. Seu Gomes fora na casa dela acertar umas músicas, de repente ela mostrou a aliança de prata na mão direita:

— Já reparou?

— Já. Não sabia que a minha Dores estava casada, o que você carece mas é estudar mais, sabe!

— Não estou casada não, seu Carlos! As noivas é que usam aliança de prata.

— Você está noiva, Dores!

Ela abaixou a cabeça, rindo manso e mandou lá do fundo um feixe de esmeraldas pra seu Gomes. Ele estava sério. Antes de mais nada, se lembrou da aluna, tanta trabalheira de estudo e pronto! se apaixonava pelo primeiro sarambé que aparecia.

— Meus parabéns. Não sabia.

— O senhor... parece que não gostou, seu Carlos!

— Gostei, Dores. Mas acho que é uma pena você casar já, tão moça. E depois: por causa dos seus estudos que vão tão bem.

— Seu Carlos não quer, eu não caso!

— Não quero? Deus me livre, Dores! Pois... eu quero é que você seja feliz. Você gosta dele, naturalmente é rapaz bom...

Falando, o mal-estar em que ficara desde o princípio do diálogo foi se substituindo pela imagem da vizinha costureira. Apoiou-se na imagem e sentiu chão firme.

— Não gosto nem desgosto... Mamãe com papai que quiseram, diz que é bom partido. E muito simpático, bonzinho...

— Pois seja feliz, Dores. Mas vamos continuar a lição.

E a lição voou apesar duma certa distração na sala. Dolores tocou como nunca. Humilde, riso impassível meio amarelo, muito calma. Seu Gomes saiu satisfeitíssimo.

— Eu não devia dizer, Dores... mas é uma pena se você casar logo! Com mais dois anos eu punha você artista, garanto.

— Já falei! é só o senhor não querer que eu não caso, seu Carlos!

— Case sim, Deus me livre agora de andar desmanchando casamento de ninguém! ‘Té mais.

— ‘Té quinta, seu Carlos!

Seu Gomes saiu. Todo coberto de esmeraldas tristes. O mais engraçado é que pouco depois uma pessoa que conhecia bem os Bermudes afirmou pra ele que a Dolores não estava noiva. Não compreendeu nada e, indagando, ela tornou a afirmar que estava. Então é porque estava e não se incomodou mais com aquilo. Sarambé era ele que não entendia, e não os moços que tiram as moças da casa dos pais! Dolores continuou representando o noivado por mais de mês. Era assunto que lhe permitia dizer que casava com aquele como podia casar com qualquer um e não tinha mais esperança neste mundo. Um dia apareceu sem aliança na aula.

— Que-dele o anel, Dores?

— Acabou-se tudo, seu Carlos! Agora o senhor pode ficar sossegado que não caso mais, ouviu! Se um dia me casar há de ser com o consentimento do senhor!

— Mas, Dores, eu não quero tomar essa responsabilidade, não! Olhe, você quer uma palavra de amigo? essas coisas a gente não vai fazendo e desfazendo assim à toa!

— Ah, só pra experimentar um pouco... eu não gostava dele!

— Mas fez o pobre moço sofrer!

— Ara, isso todos nós sofremos, seu Carlos! Porque a gente não há de gostar duma pessoa e ser logo correspondida!

E principiou chorando, muito nervosa, ali mesmo na sala, podiam ver. Seu Gomes espantadíssimo.

— Que é isso, Dores! não faça assim!

— Ah, seu Carlos... sou uma desgraçada!...

— Sossegue, Dores! Pode passar alguém, não fica bonito ver você chorando assim!

Dolores soluçando muito sacudida, apagava esmeraldas no lencinho. Já sorria:

— Você tá nervosa, vá pra casa. Olhe: não se esqueça de repassar a Ave-Maria pra missa de domingo.

— Sei, seu Carlos.

Suspirou fundo que doía, foi-se embora.

Pois não durou nem vinte dias, seu Gomes recebeu o cartão em que “Temos a honra de participar a vossa excelência e excelentíssima Família que contratamos o casamento de nossa adorada filha Dolores Sarti Bermudes com o sr. Agostinho Nardelli. Alonso Bermudes”, rua tal, etc. Desta vez era certo. Escreveu agradecendo e com os votos.

Casar... é. Seu Gomes já estava com quatrocentos mil-réis das lições. E com moça boa, trabalhadeira... Mesmo que não ajudasse no ganho, ao menos que fizesse os próprios vestidos... Cento-e-cinquenta pro aluguel, cento-e-cinquenta pra comerem. Inda restava cem pro que desse e viesse. Nessa noite seu Gomes teve um sonho bem desagradável. Era uma rua, num beco, tapado por um casarão no fundo. A vizinha estava numa janela alugável aí por uns trezentos mil-réis por mês. Mas na outra calçada a mãe da Dores sacudia as banhas numa risada sem educação, dizendo: “É muito!” Seu Gomes apesar da vergonha continuou andando e saudou a modista, pra que saudou! Saiu de dentro do chapéu dele um papagaio com um cinzeiro de prata no bico. Dentro do cinzeiro está todo o meu dinheiro, pensava o sonho assustado. Seu Gomes ficou num desespero enorme e resolveu subir pelo poste pra ver se agarrava o papagaio. A vizinha rindo pálido falou assim:

— Quer que ajude? Seu Gomes implorou:

— Me ajude, Serafina!

Nem bem falou, a modista já estava agarrada nas costas dele. Chê... ficou difícil de trepar no poste com mais aquele peso nas costas, ficou impossível de trepar. Também não era preciso mais porque desaparecera o papagaio e estava tão bom que seu Gomes mexia na cama até que o chão se abriu. Seu Gomes com a Serafina caíram e o sonhador acordou com uma sede louca.

Dolores se explicou bem sobre o primeiro noivado secreto. O segundo é que não durou três meses, dona Marina contou pra seu Gomes que tinham desmanchado porque o moço não prestava. Essas coisas não aborreciam seu Gomes porque por uma curiosa inversão de papéis o tímido substituía secretamente a Dolores pela Serafina naquele casa-não-casa e tanto falar em casamento cotidianizava na hesitação dele a evidência do casamento: precisava se casar. E tudo isso prova também que ele não estava de todo inocente a respeito da Dores. Mas o importante no momento era preparar bem o Pugnani-Kreisler pra festa de formatura.

Estava nisso quando a Dores apareceu inquieta na lição. Era nesse tempo que parecia mais magrinha, olhos cada vez mais no fundo, toda a gente imaginando que era o estudo. Outra aluna estava ali, falou baixinho:

— Preciso falar muito com o senhor!

— Pois fa...

— Fale baixo! Tenho um assunto muito importante pra dizer pro senhor. Vá amanhã na missa e suba no coro, vou tocar. É coisa muito séria, seu Carlos!

Ele reparou que era coisa muito séria mesmo. Aqueles olhos, aquela boca tremendo entre angústia e autoridade... Passou meio inquieto uma parte da noite. Foi na missa.

Dolores desfiou uma lengalenga muito atrapalhada, cheia de reticências, de vergonhas, que já estavam falando muito deles, que não havia nada porém o senhor sabe como é boca do mundo, as colegas, seu Carlos!... e os olhos dela encheram-se de lágrimas, as colegas vivem bulindo comigo, que o senhor gosta de mim, mas eu sei que não gosta! foram contar pra seu Marchese, ele mandou me chamar, vive falando pra mim que, quihihi... eu sei que o senhor é tão bom, é tão sério, mas ele vive me falando que o senhor não presta, que está me namorando por causa do meu dinheiro, que ficou muito feio pra mim!... Toda a gente já sabe! que eu devia largar da aula com o senhor, e que depois o senhor não casa comigo, tá só se divertindo, seu Carlos!... eu sei que o senhor é incapaz de me enganar mas ele mandou chamar mamãe, falou tudo pra ela, ela me deu uma surra, seu... seu Carlos! me deu duas bofetadas na cara, quihi, quihihi... e chorava de não falar mais.

— Mas o que você está me contando, Dores!... Será possível!

— É possível sim! Toda a gente caçoa de mim por causa do senhor! Nunca falei nada porque eu gosto muito do senhor, não quis que o senhor ficasse triste. Sabe? meu noivado desmanchou só por sua causa, foram contar tudo pro Agostinho! outro dia no baile ninguém mais não queria dançar comigo porque diziam que eu estava ocupada! “Ocupada”! seu Carlos! falaram assim mesmo! De já-hoje quando o senhor entrou não viu a cara que a organista fez!...

— Meu Deus! mas se nunca houve nada, Dores! como é que...

— Tenho sofrido, seu Carlos! tenho sofrido muito!... dizem que estou doente, doença nada!... É tudo por sua causa mesmo!... mas eu sei que o senhor não gosta de mim e não queria que o senhor soubesse disso mas... quihihi... não posso mais!... e mamãe me falou pra mim que quer falar com o senhor...

— Pois falo, Dores! Sempre tratei você como minha aluna e não tenho medo de ninguém!

— Vá amanhã lá em casa mas... seu Carlos! eu não quero largar do senhor! não deixe me darem pra outro professor! com outro eu não estudo mais!...

Seu Gomes olhou com dó aquele corpinho magro estalando. Segurou-lhe as mãos que apertavam os lábios querendo gritar. Quis levantar-lhe a cabeça, porém estava desamparada, tornou a cair pra frente com os lábios colados na mão dele num beijo de fogo molhado. Tirou rápido a mão. Desceu a escadinha do coro, partiu. Estava com a mão insuportável com a lembrança do beijo, estava tonto. Estava nem querendo pensar. Seguia com muita pressa, louco pra chegar em casa porque parece mesmo que a casa da gente nos protege de tudo.

Em casa lhe deram o recado que o maestro Marchese pedia pra seu Gomes ir falar com ele, foi.

— Bom-dia.

— Bom-dia, s'accomodi. Professore, mandei chamar o signore por causa dum assunto molto serio! Il Giacomo é un stabilimento sério! Qui non si fa scherzi com moças, signor professore! Si lei aveva l’intenzione di namorare careceva de andare noutro...

— Seu Marchese, o senhor dobre a língua já, ouviu! O senhor tirou alguma coisa a limpo pra saber se estou namorando, hein! Fique sabendo que eu não estou disposto a aguentar insulto de ninguém e faço o senhor calar a boca já!

— Ma non dzangate! non dzan-ga-te, signor professore! non cé mica male in quello que eu disse! Sei molto bene que lei é honestíssimo ma che posso fare, io! todos falam! S'accomodi, per favore!

— Tou bem de-pé.

— Ma non dzangate, signor fessore!... Stó falando sul serio! Sono un povero uomo con quatro figlioli in casa, si! signor professore, che belleza de criancinhas! non posso expulsare questa ragazza Bermudes sinon m'isculhamba tutta la vida! Sono inrovinato, Dia Santo! non posso mandare la ragazza s’imbora! é ó non é!...

— Isso é o de menos, seu Marchese... o senhor... ponha a Dolores no seu curso, não me incomodo.

Seu Gomes tinha pensado primeiro em se retirar do Giacomo, porém lembrou dos cem mil-réis, se acovardou. Pois é: Dolores passava pro curso do outro e tudo se arranjava.

— Ma, signore professore, non basta! Bermudes ‘stá uma fera! e io ho paúra dun scandalo!... Bisogna dare una satisfazione a tutto il Brás!...

Seu Gomes estava cansado. Era muito frouxo pra pelejar mais.

— Está bem, seu Marchese, eu saio do Giacomo.

— Bravo! Se vede que lei é um bravo moço! sempre falei pra todos que lei é um bravo moço!

— Já sei. Passe bem.

— Ah, ma o signore se esquece o dinheiro, isto nó! Mancano cinco dias ma il Giacomo paga tutta la mensalitá. Tante grazie, signor professore, tante grazie!...

Á rivederlo!

Careceu de gritar o “rivederlo”, seu Gomes já ia longe. Chegou em casa abatido, nem almoçou. De repente lhe veio aquela vontade de resolver tudo aquele dia mesmo, pegou no chapéu, foi pra casa da Dores.

O violino parou e dois olhos relampearam na sombra da janela. Dolores veio correndo abrir a porta.

— O que foi!

— Quero falar com sua mãe já.

— Sente, seu Carlos. Mamãe não está mas eu mando chamar, é aqui pertinho! E foi bom porque assim a gente pode combinar primeiro. Maria, vá chamar mamãe na casa de seu Almeida, fale pra ela que seu Gomes está aqui, ela já sabe.

Houve um momento de silêncio. Ela tomara um ar tímido de viada, rostinho baixo. De repente seu Gomes ficou todo coberto de esmeraldas alegres. Dores sorriu:

— Então?...

— Não tem nada, Dores, não se luta com boca de povo. Mas você carece ter paciência também!

A frase deixara a coitadinha supliciada de novo. Seu Gomes sentiu uma vontade de machucar inda mais quem lhe roubava tanto cem mil-réis seguro.

— Acabo de ser expulso do Giacomo.

— Seu Carlos!...

Ele ficou com dó. Remediou:

— Não se incomode não! A vida tem mesmo dessas... A gente põe tanta esperança numa coisa ahn... tudo escapa de repente.

Dores chorando.

— Você que carece de ser mais enérgica, vai pra outro professor, paciência. Pra que você não continua com o Bastiani? Ao menos vai pra melhor.

— Eu não quero, seu Carlos! não largue de mim!... deixe eu ficar com o senhor!...

Ele estava muito calmo, carinhoso, piorando tudo.

— Tomara eu ficar com você, Dores, mas não pode ser, se acalme! Olhe, você se forma e depois continua com o...

— Não continuo com ninguém! seu Carlos... é mamãe! fale pra ela, o senhor consegue, fale!

A gordura de dona Marina enlambuzou a porta.

— Já está chorando outra vez! que menina.... Não se incomode, seu Gomes, etc.

Foi uma explicação muito simples, os dois procederam bonito de verdade. A lealdade sem recantos da dona fortificou seu Gomes. Só que um pouco atrapalhados pela Dores que se metia chorando, falando bobices até que dona Marina lhe deu aquele tabefe na boca. Então seu Gomes não pôde suportar!

— Dona Marina, não vim aqui pra ver a senhora bater na sua filha. Acho que não temos mais nada pra explicar. Quanto aos estudos dela, quando a senhora quiser, vá lá em casa que dou a recomendação pro Bastiani, passe bem. Adeus, Dores.

Então é que foi a história. Ela agarrou na mão, no braço dele, olho veio vindo e ficou saltado bem na frente feito holofote verde.

— Não! o senhor não larga de mim! Me leve daqui! é mentira! Nem podia falar, feito louca.

— É mentira! não largue de mim, eu gosto tanto do senhor! Eu morro! É tudo mentira! Ninguém está falando mal de nós! Fui eu que falei pras colegas! Eu! Eu não posso ficar sem o senhor! Nem que seja só pra estudar! mamãe! Fui eu que falei pro diretor! me deixe com o senhor!...

Era grito já.

Seu Gomes voltou com uma piedade amarga.

— Dores, você...

Ela apertou-o nos braços, mais baixa, esfregando o queixo no peito dele. Dona Marina brutaça arrancando a filha. Seu Gomes com doçura se desenlaçando. Dores gritava, dando cotoveladas na mãe, “Me largue! me largue!” rouca duma vez. “Eu quero ir com ele!...”

Mas seu Gomes bem percebia que agora era tarde pra começar o amor. Havia uma modista inteirinha entre os dois e três anos de costume com a modista no sentimento. Meio sorrindo desapontado:

— Que criançada, Dores!

— Não!!

Foi o grito maior, se escutou da rua. Seu Gomes fugiu pela porta.

Ela ficara parada, presa na cintura pelos braços da mãe, ofegando, boca aberta, cada olho destamanho bem na frente brilhando claro claro. Só deu tento de se com a bofetada. Não ardeu. Nem essa nem as outras nem os cocres e tabefes pelas costas peito cabeça. Foi chorando pra cama, com uma dor de angústia aguda, sem ninguém dentro do corpo.

Mas três meses depois estava curada.

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