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11/23/2017

Nízia Figueira, sua criada (Conto), de Mário de Andrade


Nízia Figueira, sua criada
(Os Contos de Belazarte)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Belazarte me contou:

Pois eu acho que tem. Você já sabe que sou cristão... Essas coisas de felicidade e infelicidade não têm significado nenhum, se a gente se compara consigo mesmo. Infelicidade é fenômeno de relação, só mesmo a gente olhando pro vizinho é que diz o “atendite et videte”. Macaco, olhe seu rabo! isso sim, me parece o cruzamento da filosofia cristã com a precisão de felicidade neste mundo duro. Inda é bom quando a gente inventa a ilusão da vaidade, e, em vez de falar que é mais desinfeliz, fala que é mais feliz... Toquei em rabo, e estou lembrando o caso do elefante, você sabe?... Pois não vê que um dia o elefante topou com uma penuginha de beija-flor caída numa folha, vai, amarrou a penuginha no rabo com uma corda grossa, e principiou todo passeando na serrapilheira da jungia. Uma elefanta mocetona que já estava carecendo de senhor pra cumprir seu destino, viu o bicho tão bonito, mexe pra cá, mexe pra lá, ondulando feito onda quieta, e se engraçou. Falou assim: “Que elefante mais bonito, porca la miséria!” Pois ele virou pra ela encrespado e: “Dobre a língua, sabe! Elefante não senhora! sou beija-flor.” E foi-se. Eis aí um tipo que ao menos soube criar felicidade com uma ilusão sarapintada. É ridículo, é, mas que diabo! nem toda a gente consegue a grandeza de se tomar como referência de si mesmo. Quanto a que lhe suceda como com a Nízia, homem! isso estou imaginando que só com ela mesmo... Que Nízia?

...se chamava... não me lembro bem se Ferreira, Figueira... qualquer coisa em “eira”, creio que era Nízia Figueira. Essa sim, de família nacional da gema, carijó irumoguara com Figueira ascendente até o século dezessete.

Quando em 1886, tendo vendido o sítio porcaria perto de Pinda, o pai dela veio pra S. Paulo, virou mexeu até que teve coragem de comprar com o dinheiro guardado esse fiapo de terra baixa, então bem longe da cidade, no hoje bairro da Lapa. Em 88 Nízia com dezesseis anos de mocidade, guardada com olho de Figueira pai sempre em casa, foi com o velho e a criada preta que tinham, morar na chacrinha recém-comprada. Figueira pai, nem bem mudou, deu com o rabo na cerca, por causa dum antraz que o panema dum boticário novato imaginou que era furúnculo. Resultado: antraz tomou conta de Figueira que morreu apodrecido. Dores tamanhas, que se tivesse vizinho perto, não podia dormir de tanto gemido que todo o orgulho daquela carne tradicional não podia que não saísse, arrancado do coração meio com bastante vergonha até.

Nízia se via só neste mundo, contando apenas dezessete anos e uma inocência ofensiva, bimbalhando estupidez, valha a verdade. Só, mais a “prima Rufina”, como ela desde criancinha se acostumara a chamar a criada preta. Prima Rufina tinha vinte e muitos, e era bem enérgica... Plantaram pereira, pessegueiro, uma horta grande. Nízia tricotava, tricotava, fazendo sapatinho, palitozinho, touquinha de lã pros filhos desses homens. Prima Rufina vendia tudo na cidade, couve hoje, pêssego verde pra doce amanhã, trabalhinho de lã todos os dias. Eu sei que chegava muito pra elas viverem e até Nízia guardar um pouco pra velhice.

Prima Rufina saía com o baú na mão, ia na casa dum, na casa doutro, se afreguesou num instante, com tanta lábia... Pera de presente pra filha de dona Maria, bala-de-açúcar pros filhos de seu Guimarães, saber seu Quitinho como passou: trazia sempre dinheiro para o sustento. Menos o tostão ficado na venda, está claro, em troca de boa pinga de Deus.

Nízia olhava a dinheirama se engrossando, porém não sabia que dinheiro se gasta noutras coisas; e os mil-réis continuavam empilhados na gavetinha da cômoda. Prima Rufina é que aprendeu a vida... Não contava nada, quieta, preparando a janta, cachimbo no beiço grosso. No entanto bem que aprendeu...

Não durou muito, se enrabichou por um canhambora safado que vivia ali mesmo, nas barbas da cidade. O filho-da-mãe abusou dela quanto quis, deixou prima Rufina barriguda e inda por cima desapareceu de repente, levando trinta-e-seis mil-réis que pedira de emprestado pra ela. Nízia olhava aquela barriga redondinha que nem arandela, afinal perguntou:

— Uai! nhá Nízia, é doença! estamo trabaia má, barriga empina. A muié de nhô Marconde já me premeteu limão-brabo pra mim, limão-brabo sara eu!

Nízia pensava no antraz do pai e tinha medo.

Barriga, de tanto crescer, teve um dia em que careceu de botar o desgraçadinho pra fora. Prima Rufina veio correndo pra chacra, deixou o baú por aí, nem sabia mais na casa de quem, só portando na venda pra comprar a garrafa de caninha.

— Olha que tu vais por bom caminho, rapariga!

— Cuide de seus negóçu, viu!

Chegou, fechou-se por dentro no quarto, e o filho veio vindo sem que prima Rufina desse um gemido, tal-e-qual os animais do mato. Nízia mandava ela preparar a janta. “Não posso! perpare mecê!” ela roncava apertado. Que seria que tinha sucedido pra prima Rufina!... era o antraz, na certa... Nízia teve mortes, do medo de ficar sozinha.

— Mecê se deite, num s’incomode cum eu!  escutava, quando vinha chamada por aqueles guinchos abalados, que nem choro de criança. Não era choro não, naturalmente prima Rufina que sofria com o antraz... Que havia de fazer? a outra mandava ela deitar, deitou. Perguntou pra escuridão. Não tinha nem guincho mais no outro quarto. Decerto não era nada. Meia inquieta adormeceu.

Prima Rufina quando viu que não tinha mais vida na casa, se levantou. Pinga já estava toda no lugar do tiziu saído e sonhando na capa de xadrez. Carecia de coragem. Pois foi na guarda-comida buscar o espírito-de-vinho e mamou na garrafa mesmo. Enrolou bem a criancinha e saiu, saiu sim! De vez em quando sentava no caminho, suor correndo bica de dor, vista feito vidraça de neblina...

Não era madrugada ainda, a preta já não tinha mais filho no braço. Dinheiro? não vê que se esquecera de trazer! primeira venda entreaberta, pronto: entrou. Foi um pifão daqueles. Só dia velho, empurrou a porta da casa, rindo boba, com os olhos derretidos num choro sem querer, cantando o “Nossa gente já tá livre, toca zumba zumba zumba”... Nízia até chorou de susto, pensando que prima Rufina estava maluca, que maluca nada! era mas era a desgraça, saindo de mistura com bebida.

Prima Rufina ficou doente uns dias. Depois sarou e aprendeu. Quando tinha vontade, ia nas vendas procurando homem disposto. Porém não sei como fazia, sei que nunca mais teve antraz. E foi desde aquela noite que ela pegou chamando Nízia de “mia fia”.

Nízia, vinte, vinte-e-um, vinte-e-dois anos, continuava esquecida naquela chacrinha sem norte. Não tinha nada de feia, principiou se enfeitando, foi na cidade algumas vezes... Ficava no portão parada, sempre de hora em hora alguém havia de passar... Passava porém mal reparava em Nízia.

Pois até, uma feita, ela foi numa loja concorrida da cidade, se encostou no balcão esperando. Os caixeiros passavam, serviam todo mundo, pois não é que esqueceram de servir Nízia! esqueceram, meu caro! não estou fantasiando não! Então ela chamou um e pediu entremeio.

— Sim, senhora, já trago.

Outro pediu que ele endireitasse a pilha de chita quase caindo, começou a endireitar, endireitou, não sei quem pediu entremeio pra ele, serviu a outra freguesa e esqueceu Nízia. Ela ficou ali muito serena, esperando. Quando viu que entremeio não vinha mesmo, desolada foi-se embora. E prima Rufina continuou comprando tudo quanto Nízia precisava.

Desejos, não posso dizer que não tivesse desejos, teve. Olhava os homens passando, alguns eram bem simpáticos, havia de ser bom com eles... Mas iam tão distraídos na rua republicana já!... Nízia voltava murcha pra dentro, sempre matutando que havia de ser bom com eles. Porém isso era fogo-de-palha, sapatinho de lã toma atenção senão a gente erra o número dos pontos. Que-dê tempo pra imaginar nos homens?...

O que cresceu foi a intimidade com prima Rufina, principiaram conversando mais. Nízia inventava curiosidades depois do jantar, ali sentadas na varanda: a filha de nhô Guimarães enfim tinha casado com o moço médico; o caso da mulher que matou o marido na rua Major Quedinho, e assim. Então quando teve aquela dor-de-dente, por causa duns limões verdes que andou chupando e comeram o esmalte dum canino, prima Rufina fez ela beber um trago importante de cachaça. Nízia quase morreu de angústia, ficou tonta, lançou que foi um horror. Prima Rufina sempre junto dela, consolando, limpando a blusa suja, deitando a bêbeda com tanto carinho... A dor-de-dente passou, isso é que eu sei. E a intimidade entre as duas aumentou muito. Nunca mais Nízia bebeu, mas a outra contava as razões da pinga, e Nízia acabou sabendo as tristezas do nosso mundo.

Teve um momento em que a humanidade pareceu se lembrar dessa apartada, foi com seu Lemos o caso. Seu Lemos era Fluminense não sei donde, meio pálido, com bigodinho torcido e cabelo crespo repartido do lado. Vinha pela estrada, sem custo carregando o corpo baixote, saber duas, três vezes por semana o protetor como passou, lá num sítio enorme que ficava mais ou menos onde é o bairro do Anastácio agora. Assim também o graúdo, que já dera pistolão pra ele entrar como carteiro do Correio nem bem chegadinho do Estado do Rio, não se esquecia de arranjar coisa melhor. Homem... será mesmo que seu Lemos queria coisa melhor?... Indivíduo macio, fala rara, não olhando. Sentava, ficava ali uma boa meia-hora, respondendo se perguntavam, que ele ia bem, que mamãe também ia passando bem, que o serviço ia mui to bem... tudo ia bem pra seu Lemos! Depois pegava no chapéu, ia-se embora pra casinha, alugada debaixo do viaduto do Chá.

— Sua bênção, mamãe.

— Como vai seu Anastácio?

— Bem.

Comiam. Estou pensando que foi esse Anastácio que decerto deu nome ao bairro, não?... Depois seu Lemos ia palitar o dente na janela baixa. A noite vinha descendo, tapando o Anhangabaú com uma escureza solitária. Os quintais molhados do vale, botavam uma paininha de névoa sobre o corpo e ficavam bem quietinhos pra esquentar. Era um silêncio!... Poc, pocpoc... Alguém passando no viaduto. Sapo, que era uma quantidade. Luzinha aqui, luzinha ali, mais sapo querendo assustar o silêncio, qual o que! silêncio matava São Paulo cedinho, não eram nem nove horas. Seu Lemos não tinha mais no que imaginar. Ia direito botar o restico de palito mastigado no lixo, fazia o Nome-do-Padre e caía na cama já dormindo.

A mãe inda ficava rezando, uns pares de horas, pra cada santo esquisito que ela escarafunchava lá de quanta alcova tem o Paraíso. Santo Anastácio mártir; novena de S. Nicolau; oração pra evitar mordedura de cobra; oração pra evitar esbarro-de-estômago; oito Cre’m-dos-padres pra não pegar fogo na cidade. Acabava rezando a missa das almas do outro mundo, de que ela tinha um bruto dum pavor. Vela também se acabava. Era um despesão de vela naquela casa, porém São Paulo nunca pegou fogo, ninguém não teve esbarro-de-estômago na família, e seu Lemos nunca foi mordido de cobra quando ia na rua do Carmo, rua de Santa Teresa, por ali, entregando carta.

Filho bom ele não era não... Respeitar a mãe, respeitava nisso da gente tomar a bênção, não fumar na frente dela, falar bom-dia, boa-noite, levar ela ver Senhor Morto na noite de Sexta-feira Santa. Mas a pobre que cozinhava, inda lavava e engomava toda a roupa do filho, etc. Nem conversa. Aliás seu Lemos não conversava mesmo com ninguém. E quando a mãe morreu de repente, o que sentiu foi o vazio inquieto de quem nunca lidara com pensão nem lavadeira.

E foi então que, palitando dente na janela, ele afinal principiou reparando naquela moça do portão. No dia seguinte, francamente, foi até lá só pra ver se tinha mesmo moça no portão daquela chacra. Nízia estava lá meia lânguida, mui mansa, não pedindo nada, só por costume duma esquecida que não esperava mais ninguém.

Quando palitou de novo a barulhada dos sapos nesta noite, seu Lemos começou a pensar que ali estava uma moça boa pra casar com ele. Não refletiu, não comparou, não julgou, não resolveu nem nada, seu Lemos pensava por decretos espaçados. Pois um decreto apareceu em letras vagarentas no bestunto dele: “Ali está uma moça boa pra casar com você.” Na palitação do dia seguinte, estava escrito na cabeça dele: “Você vai casar com a moça do portão.” Então seu Lemos foi visitar o Anastácio e, passando, cumprimentou a moça do portão. Nízia estava já tão esquecida de si mesma que nem se assustou com o cumprimento, respondeu. Seu Lemos, que não via razão pra visita todo dia na chácara do padrinho, passava, cumprimentava, andava mais meio quilômetro pra disfarçar, ficava por ali dando com o pé na tiririca poeirenta, olhava qualquer pé de agarra-compadre do caminho, voltava, e cumprimentava de novo, rumo do Anhangabaú.

Depois de mês e meio de tanto bate-perna, seu Lemos, palitando, soletrou o decreto novo aparecido de repente na cachola: “Amanhã é domingo pé-de-cachimbo, e você vai pedir a mão da moça da chácara.” Note bem a graça desses decretos: de primeiro só falavam em moça do portão, mas agora vinham falando em moça da chacra, mais útil pra casar.

Ali pelo meio-dia, prima Rufina muito espavorida veio ver quem que estava batendo, era seu Lemos. Prima Rufina quase que dá o suíte no indivíduo, mas enfim dona Nízia havia de saber o que era aquilo. Decerto encomenda...

— Mecê entre!

Seu Lemos não esperou nem dois minutos no copiar, veio Nízia, assim como estava, com o trabalhinho no colo. Ele falou que vinha pedir a mão dela em casamento, ela respondeu que estava bom. Foi lá dentro dizer que prima Rufina preparasse também uns bolinhos pro café e voltou. Entraram na varanda. Nízia continuando o sapatinho principiado.

— Como é a sua graça?

Olhou pra ele espantada, perguntar como era a graça dela... decerto que ela é que não sabia! Seu Lemos esclareceu:

— Me chamo Lemos, José Lemos, seu criado. Queria também saber o nome da senhora.

— Nízia Figueira, sua criada.

— Sim senhora.

Seu Lemos parou de brincar com os dedos em cima das pernas.

— A senhora gosta muito de fazer sapatinho, dona Nízia?

— Já estou muito acostumada.

— Muito bonito esse que a senhora está fazendo, é presente?

— Não senhor, eu vendo.

— Ahn...

— Quantos eu faço, prima Rufina vende nas casas.

— Sei... Quem é prima Rufina?  

Seu Lemos recomeçou brincando com os dedos em cima das pernas.

— A preta que recolheu o senhor.

— Ahn... mas ela não é prima da senhora, não?

— É minha criada. Me acostumei chamando ela de prima Rufina desde criança. E ficou.

— Engraçado.

Trinta-e-seis, trinta-e-nove, quarenta-e-oito, pronto, acabava mais uma carreira.

— Está um dia bonito hoje, não?

— Está mesmo.

— Que sol mais claro, não?

— Quem sabe se está incomodando o senhor? eu fecho a janela...

— Não senhora, até nem me incomoda.

Veio o café-com-leite e bolinhos. Tomaram café-com-leite e comeram dois bolinhos cada um. Fazia uma tarde sublime lá fora, claro, claro, com o sol quente jiboiando sobre os campos. E por esse instinto de domingo que a natureza parece ter, aquela baixada estava num sossego imenso, tomava um ar de repouso largado, voluptuosamente largado, esparramado no chão. Eles ficaram ali fechados naquela sala-de-jantar, seu Lemos palitava, Nízia tricotava, até que enxergaram os primeiros ruivores passarem longe no horizonte, entardecendo o dia.

— Bom, já vou indo.

Então Nízia percebeu a ventura inconcebível que lhe trazia aquele seu Lemos. Olhou. Viu na frente o bigode e o topete simpático, sorriu pra eles. O vestido de cassa recortava as redondezas do corpo dela, feito como era costume naquele tempo, quase gordo, mais gordo que magro, peitos enchumaçados, pernas grossas, curtas, mãos parando no meio. Na cara, os olhos castanhos embaçavam o rubor liso que vinha empalidecendo até um queixo feito barrete frígio. Nariz simples, com as narinas quase grandes, ondulando nas mesmas curvas dos bandós castanhos. A boca sorrindo era pálida, com dentes cerrados e monótonos. Falou um “Já vai” meio pergunta, meio aceitação, duma calma dominical.

— Já vou sim, dona Nízia, são horas. Tive muito prazer em conhecê-la. Inquietação antiga desmanchou a cara dela:

— E o senhor volta!

— Volto. Não volto sempre porque creio que vou mudar de emprego, trabalho no Correio, é. Meu padrinho parece que vai arranjar qualquer coisa pra mim na Secretaria do Tesouro, mas volto. Passe bem.

Ele entregou-lhe a mão e a vida:

— Passe bem.

Acompanhou-o até o portão. Ficou ali, enquanto ele partiu pelo caminho ruim. Tomando a estrada larga, seu Lemos nem se voltou pra dizer outro adeus. Nízia entrou. Andava meia sem serviço pela casa.

— Essas toalhinhas-de-crochê estão carecendo lavar, prima Rufina.

— Antão num lavei elas na semana retrasada mêmo!

— Mas olhe como estão!

— Num inxergo nada não, porém mecê qué eu lavo! Tou vendo mas é que seu Leme veio atrapaiá tuda a vida nesta casa! Mecê inté parece que nem num sabe adonde assentá! cadera num farta! Sente, fique sussegada que é mió!

— Você não gostou de eu ficar noiva, é?

— Até que gostei bem. Mecê carece dum home nesta casa que lhe proteja mas porém ansim! premero que aparece, vai ficando noiva! nem num sabe si seu Lemes quem é, arre credo! Será que anda de bem cum os puliça! isso é que num posso assigurá pra mecê!

— Como você está braba comigo, prima Rufina! ele é empregado no Correio!

— Isso antão é imprego que se tenha! Gente boa num carece di andá iscrevendo carta não! véve que nem nois mêmo, bem assussegado no seu canto! Mia fia, vassuncê num cunhece nada desse mundo, mundo é mais ruim que bão... Essa história di sê impregado no Correio, num mi parece que seja coisa dereita não, infim...

Foram deitar. A felicidade de Nízia fizera dela uma desgraçada. Do passado e esquecimento de dantes não se lembrava, mas o agora é que fazia ela sofrer. Noivo, seu Lemos achou que não carecia mais de passar todo santo dia pela casa tão longe da noiva, a tarde veio e seu Lemos não veio. Nízia vivia num deslumbramento simultâneo de felicidade e amargura. Que amasse não digo, mas tinha alguém que se lembrava da existência dela. Isso lhe dava um gosto inquieto, gosto de comparação, gosto de mais de um, não sei se explico bem. De repente ficara desgraçada. “Vem amanhã”, murmurejou sofrendo de prazer. E repetiu “Vem amanhã” até na quinta-feira.

Seu Lemos chegou não eram bem seis horas, jantado. Entregou pra ela o brochinho de ouro, escrito LEMBRANÇA.

— Muito obrigado, seu Lemos.

— A senhora tem passado bem? Etc.

Ficou lá até oito, creio. Nízia trabalhando, sob o lampião de querosene, ele assuntando as assombrações do teto. Falavam de vez em quando aquelas frases de companheiro que não esperam resposta, só pra reconhecimento de existência junta, um pouco de Correio, um pouco de trabalhinho de lã. Prima Rufina pitando na cozinha. Seu Lemos afirmou que voltava no domingo e então haviam de combinar o casório.

Não veio no domingo, veio na terça-feira. Que andara muito atrapalhado por causa duma visita que fora obrigado a fazer. Depois tivera de levar uma carta do tal pra um graúdo, estava quase arranjado o lugar na Secretaria. Trazia aquela meia-dúzia de lencinhos, desculpasse. Nízia foi lá dentro e voltou, feliz duma vez, com o cachenê feito por ela na mão. Seu Lemos agradeceu e achou que estava muito bonito. Estava. Era pardo, todo com listas pretas, barra de lã-com-seda.

Seu Lemos levou uma semana sem aparecer. Só na outra terça-feira estourou na chacrinha, muito afobado, apenas tivera tempo pra arranjar aquelas cravinas, de tão atrapalhado que andava, desculpasse. Saíra a nomeação, e no dia seguinte tomava posse.

— Custou mas enfim!...

— Quem espera sempre alcança.

— É mesmo mas custou. Já ia desanimado.

Seu Lemos estava mais tagarela. Nesse dia sapatinho de lã não entrou na conversa, era só serviço ruim do Correio, serviço bom da Secretaria, ordenado bem melhor, seu Chefe de seção, “me disseram” e outras coisas nessa toada.

Nízia escutando. As palavras caíam dentro dela talqualmente flor de paina, roseando a alma devagar. Foi-se embora mais cedo? Não fazia mal! Nem soube que eram nove horas, que eram dez e muito mais, ficou sozinha no trabalho, sem saber que trabalhava, acabando carreira numa conta, acabando sapatinho, acabando outro sapatinho, escutando. Não tinha nem bulha na noite fora. Os homens estavam dormindo em São Paulo. Nem poeira nem grilo nem vento, que nada! um silêncio de matar gesto do braço. Nízia tricotando sem saber. A luz do lampião mariposava em volta da cabeça dela e, no calor seco da sala, as palavras de seu Lemos se pronunciavam ainda, sonorosas de verdade, como afago doce de companheiro. Nízia sofreu que você não imagina. Sofreu aquele sapatinho de lã; sofreu por causa de prima Rufina que estava envelhecendo muito depressa; sofreu aqueles vestidos de cassa eternamente os mesmos, carecia fazer outros; as toalhinhas de crochê não ficaram bem lavadas; ela era um poucadinho bem mais gorda que seu Lemos; também prima Rufina nunca trouxera uns pés de cravina pra plantar no jardim! flor tão bonita...

Todas essas infelicidades que nunca sentira, e que doem tanto pra quem não pode ter outras: era a voz de seu Lemos que trazia, pondo como espelho diante dela o corpo do companheiro. Foi pro quarto e pela primeira vez depois do antraz da preta, não dormiu logo. Pensar não pensou, era também do gênero dos decretos. Como decreto não vinha, ficou espalhada na escuridão, sentindo apenas que vivia, feliz, encostada na vida do companheiro.

Seu Lemos levou duas semanas sem aparecer.

— Puis é! si mecê já tivesse priguntado pra ele adonde que ele mora, eu ia inté lá sabê si é duença...

Numa quarta-feira seu Lemos apareceu. Vinha com barba por fazer e de mãos vazias, puxa! que serviceira! estava arrependido. Depois, tanta responsabilidade!... Entregar carta, a gente entrega e pronto, agora? escreve número aqui, escreve número noutra parte, e não se pode errar porque livro de Secretaria não é coisa que a gente ande rabiscando nem raspando. Depois: ainda não estava bem enfronhado do serviço que barafunda! nunca imaginei que fosse tão difícil!...

O engraçado é que ali mesmo, diante de Nízia, sem se lembrar dela, seu Lemos estava lendo os decretos da cabeça. E não pense que lia todos em voz alta que nem estou fazendo, não! Parava de falar às vezes, e lia só consigo. E que diferença agora a cabeça de seu Lemos! Antigamente era um vazio grande sem nada, só de três em cinco palitações um decretinho curto. Agora? era ver página do Correio Paulistano "que barafunda!”, como ele dizia... Foi-se embora remoendo decreto sem parada.

Nízia ficou na porta, metade do corpo na noite, metade dentro de casa, partida pelo meio. Bem sentiu que seu Lemos, coitado!

não era por querer, porém, estava escapando dela. Voltou pra dentro, e custava se lembrar do que seu Lemos falara. Quis sossegar-se, coitado! tanta ocupação... Sossegou-se, mas num sossego sozinho, de morte e de desagregação. Quando ficou bem só, não sofreu mais, dormiu.

Seu Lemos só apareceu vinte dias depois, vinha magro, passando. Viu Nízia no portão, parou pra saudar. Tinha que ir ver o protetor, por causa duma embrulhada que sucedera lá na repartição. Ela meia que ficou até espantada com a figura do estrangeiro. Teve uma dor horrível.

— Na volta o senhor entra sempre, seu Lemos?

— Pra falar verdade, dona Nízia, não sei se posso parar, se puder, paro. Mas não se incomode por minha causa não. Passe bem.

— Passe bem.

Seu Lemos tinha revivido nela uma infelicidade pesada. Mas não desejou que seu Lemos não voltasse, como seria melhor pra ela e foi. Seu Lemos não voltou. Padrinho deu o estrilo com ele por causa da tal encrenca, seu Lemos zangou com o padrinho, seu Lemos saiu da Secretaria, seu Lemos banzou sem decretos uma porção de dias, seu Lemos arranjou emprego numa loja de fazendas... O coitado não queria riqueza, queria era sossego... Arranjou uma mulata gorda pra cozinhar, dormiu uma noite no quarto da Sebastiana e depois todas as noites a Sebastiana no quarto dele, que era mais espaçoso. Sebastiana cozinhava, porém não era cozinheira mais: dona-de-casa, sempre querendo chinela nova no pé cor-de-sapota.

Nízia... Teve um homem que veio morar bem perto da chacrinha dela. Não durou muito uma família vizinhou com o tal. E aos poucos foi se fazendo a rua Guaicurus, foi se fazendo mais um bairro desta cidade ilustre. Uns se davam com os outros; uns não se davam com os outros; ninguém não se dava com Nízia; prima Rufina se dava com todos. Nízia serenamente continuava esquecida do mundo.

Deu mas foi pra beber. Banzando pela casa, quis matar uma barata e encontrou debaixo da cama de prima Rufina a garrafa que servia pra de-noite. Roubou um pouco por curiosidade. Muito pouquinho, com vergonha da outra. A primeira sensação é ruim, porém o calor que vem depois é bom.

Não levou nem mês, prima Rufina percebeu. Não falou nada, só que trouxe um garrafão de pinga, e principiaram bebendo juntas, cada mona!... Não digo que fosse todo dia, pelo contrário. Nízia trabalhava, prima Rufina vendia, sempre as mesmas. Trintonas, quarentonas, isto é, prima Rufina, sempre muito mais velha que a outra. Dera pra envelhecer rápido, essa sim, uma coitada que não o mundo porém a vida esquecera, quase senil, arrastando corpo sofrido, cada nó destamanho no tornozelo, por causa do artritismo. Quando a dor era demais, lá vinha o garrafão pesado:

— Mecê tambem qué, mia fia?

— Me dá um bocadinho pra esquentar.

— Puis é, mia fia, beba mêmo! Mundo tá ruim, cachaça dexa mundo bunito pra nóis.

Era dia de bebedeira. Prima Rufina dava pra falar e chorar alto. Nízia bebia devagar, serenamente. Não perdia a calma, nem os traços se descompunham. A boca ficava mais aberta um pouco, e vinha uma filigrana vermelha debruar a fímbria das narinas e dos olhos embaçados. Punha a mão na cabeça e o bandó do lado esquerdo se arrepiava. Ficava na cadeira, meia recurvada, com as mãos nos joelhos, balanceando o corpo instável, olhar fixo numa visão fora do mundo. Prima Rufina, se encostando em quanta parede achava, dando embigada nos móveis, puxava Nízia. Nízia se erguia, agarrava o garrafão em meio, e as duas, se encostando uma na outra, iam pro quarto.

Prima Rufina quase que deixou cair a companheira. Rolou na cama, boba duma vez, chorando, perna pendente, um dos pés, arrastando no assoalho. Nízia sentava no chão e recostava a cabeça na perna de prima Rufina. Bebia. Dava de beber pra outra. Prima Rufina punha a mão sem tato na cabeça de Nízia e consolava a serena:

— E isso mêmo, mia fia... num chore mais não! A gente toma pifão, pifão dá gosto e bota disgraça pra fora... Mecê pensa que pifão num é bom... é bão sim! pifão... pifãozinho... pra esquentá desgraça desse mundo duro... O fio de mecê, num sei que-dele ele não. Fio de mecê deve de andá pur aí, rapaiz, dicerto home feito... Dicerto mecê já isbarrô cum ele, mecê num cunheceu seu fio, seu fio num cunheceu mecê... Num chore mais ansim não!... Pifão faiz mecê esquecê seu fio, pifão... pifão... pifãozinho...

Nízia piscava olhos secos, embaçados, entredormindo. Escorregava. Ia babar num beijo mole sobre o pezão de prima Rufina. Esta queria passar a mão na outra pra consolar, vinha até a borda da cama e caía sobre Nízia, as duas se misturando num corpo só. Garrafão, largado, rolava um pouco, parava no meio do quarto. Prima Rufina inda se mexia, incomodando Nízia. Acabava se aconchegando entre as pernas desta e fazendo daquela barriga estufada um cabeceiro cômodo. Falava “pifão” não sei quantas vezes e dormia. Dormia com o corpo todo, engruvinhado de tanta vida que passara nele, gasta, olhos entreabertos, chorando.

Nízia ficava piscando, piscando devagar, mansamente. Que calma no quarto sem voz, na casa... Que calma na terra inexistente pra ela... Piscava mais. Os cabelos meio soltos se confundiam com o assoalho na escureza da noitinha. Mas inda restava bastante luz na terra, pra riscar sobre o chão aquele rosto claro. Muito sereno, um reflexo leve de baba no queixo, rubor mais acentuado na face conservada, sem uma ruga, bonita. Os beiços entreabriam pro suspiro de sono sair. Adormecida calma, sem nenhum sonho e sem gestos.

Nízia era muito feliz.

Piá não sofre? Sofre (Conto), de Mário de Andrade


Piá não sofre? Sofre
(Os Contos de Belazarte)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Belazarte me contou:

Você inda está lembrado da Teresinha? aquela uma que assassinou dois homens por tabela, os manos Aldo e Tino, e ficou com dois filhos quando o marido foi pra correição?... Parece que o sacrifício do marido tirou o mau-olhado que ela tinha: foi desinfeliz como nenhuma, porém ninguém mais assassinou por causa dela, ninguém mais penou. Só que o Alfredo lá ficou no palácio chique da Penitenciária, ruminando os vinte anos de prisão que a companheira fatalizada tinha feito ele engolir. Injustiça, amargura, desejo... tantas coisas que muito bucho não sabe digerir com paciência, resultado: o Alfredo teve uma dessas indigestões tamanhas de desespero que ficou dos hóspedes mais incômodos da Penitenciária. Ninguém gostava dele, e o amargoso atravessava o tempo do castigo num areião difícil e sem fim de castiguinhos. Estou perdendo tempo com ele.

A Teresinha sofria, coitada! ainda semiboa no corpo e com a pabulagem de muitos querendo intimidades com ela ao menos por uma noite paga. Recusou, de primeiro pensando no Alfredo gostado, em seguida pensando no Alfredo assassino. Estava já no quase, porém vinha sempre aquela ideia do Alfredo saindo da correição com uma faca nova pra destripá-la. E a virtude se conservava num susto frio, sem nenhum gosto de existir. Teresinha voltava pra casa com uma raiva desempregada, que logo descarregava na primeira coisa mais frouxa que ela. Enxergava a mãe morrendo em pé por causa da velhice temporã, pondo cinco minutos pra recolher uma ceroula do coaral, pronto: atirava a trouxa de roupa-suja na velha:

— A senhora é capaz que vai dormir com a ceroula na mão!

Entrava. Podia-se chamar de casa aquilo! Era um rancho de tropeiro onde ninguém não mora, de tão sujo. Dois aspectos de cadeira, a mesa, a cama. No assoalho havia mais um colchão, morado pelas baratas que de noite dançavam na cara da velha o torê natural dos bichinhos desta vida.

No outro quarto ninguém dormia. Ficou feito cozinha dessa família passando muitas vezes dois dias sem fósforo acendido. Porque fósforo aceso quer dizer carvão no fogãozinho portátil e algum desses alimentos de se cozinhar. E muitas vezes não havia alimento de se cozinhar... Mas isso não fazia mal pro dicionário da Teresinha e da mãe, fogareiro não estava ali? E o dicionário delas dera pra aqueles estreitos metros cúbicos de ar mofado o nome estapafúrdio de cozinha.

Nessa espécie de tapera a moça vivia com a mãe e o filhote de sobra. De sobra em todos os sentidos, sim. Sobrava porque afinal amor pra Teresinha, meu Deus! vivendo entre injustiças de toda a sorte, desejando homem pro corpo e não tendo, se esquecendo do Alfredo gostado pelo Alfredo ameaçando e já com morte na consciência... E só tendo na mão consolada pela água pura, ceroulas, calças, meias com mais de sete dias de corpo suado... E além do mais, odiando uns fregueses sempre devendo a semana retrasada... Tudo isso a Teresinha aguentava. E pra tampar duma vez todos os vinhos do amor, inda por cima chegava a peste da sogra amaldiçoada, odiada mas desejada por causa dos dez mil-réis deixados mensalmente ali. A figlia dum cane vinha, emproada porque tinha de seu aí pra uns trinta contos, nem sei, e desbaratava com ela por um nadinha.

Podia ter amor uma mulher já feita, com trinta anos de seca no prazer, corpo cearense e alma ida-se embora desde muito!... E o Paulino, faziam já quase quatro anos, dos oito meses de vida até agora, que não sabia o que era calor de peito com seio, dois braços apertando a gente, uma palavra “figliuolo mio” vinda em cima dessa gostosura, e a mesma boca enfim se aproximando da nossa cara, se ajuntando num chupão leve que faz bulha tão doce, beijo de nossa mãe...

Paulino sobrava naquela casa.

E sobrava tanto mais, que o esperto do maninho mais velho, quando viu que tudo ia mesmo por água a baixo, teve um anjo-da-guarda caridoso que depositou na língua do felizardo o micróbio do tifo. Micróbio foi pra barriguinha dele, agarrou tendo filho e mais filho a milhões por hora, e nem passaram duas noites, havia lá por dentro um footing tal da microbiada marchadeira, que o asfaltinho das tripas se gastou. E o desbatizado foi pro limbo dos pagãos sem culpa. Sobrou Paulino.

É lógico que ele não podia inda saber que estava sobrando assim tanto neste mundo duro, porém sabia muito bem que naquela casa não sobrava nada pra comer. Foi crescendo na fome, a fome era o alimento dele. Sem pôr consciência nos mistérios do corpo, ele acordava assustado. Era o anjo... que anjo-da-guarda! era o anjo da malvadeza que acordava Paulino altas horas pra ele não morrer. O desgraçadinho abria os olhos na escuridão cheirando ruim do quarto, e inda meio que percebia que estava se devorando por dentro. De primeiro ele chorava.

— Stá zito, guaglion!

Que “stá zito” nada! Fome vinha apertando... Paulino se levantava nas pernas de arco, e balanceando chegava afinal junto à cama da mãe. Cama... A cama grande ela vendeu quando esteve uma vez com a corda na garganta por causa do médico pedindo aquilo ou vinte bagarotes pela cura do pé arruinado. Deu os vinte vendendo a cama. Cortou o colchão pelo meio e botou a metade sobre aqueles três caixões. Essa era a cama.

Teresinha acordava da fadiga com a mãozinha do filho batendo na cara dela. Ficava desesperada de raiva. Atirava a mão no escuro, acertasse onde acertasse, nos olhos, na boca-do-estômago, pláa!... Paulino rolava longe com uma vontade legítima de botar a boca no mundo. Porém o corpo lembrava duma feita em que a choradeira fizera o salto do tamanco vir parar mesmo na boca dele, perdia o gosto de berrar. Ficava choramingando tão manso que até embalava o sono da Teresinha. Pequenininho, redondo, encolhido, talqualmente tatuzinho de jardim.

O sofrimento era tanto que acabava desprezando os pinicões da fome, Paulino adormecia de dor. De madrugada, o tempo esfriando acordava o corpo dele outra vez. Meio esquecido, Paulino espantava de se ver dormindo no assoalho, longe do colchão da vó. Estava com uma dorzinha no ombro, outra dorzinha no joelho, outra dorzinha na testa, direito no lugar encostado no chão. Percebia muito pouco as dorzinhas, por causa da dor guaçu do frio. Engatinhava medroso, porque a escureza estava já toda animada com as assombrações da aurora, abrindo e fechando o olho das frestas. Espantava as baratas e se aninhava no calor ilusório dos ossos da avó. Não dormia mais.

Afinal, ali pelas seis horas, já familiarizado com a vida por causa dos padeiros, dos leiteiros, dos homens cheios de comidas que passavam lá longe, um calor custoso nascia no corpo de Paulino. Porém a mãe também já estava acordando com as bulhas da vida. Sentada, vibrando com a sensualidade matinal que bota a gente louco de vontade, a Teresinha quase se arrebentava, apertando os braços contra a peitaria, o ventre e tudo, forçando tanto uma perna contra a outra que sentia uma dor nos rins. Nascia nela esse ódio impaciente e sem destino, que vem da muita virtude conservada a custo de muita miséria, virtude que ela mesma estava certa, mais dia menos dia tinha de se acabar. Procurava o tamanco, dando logo o estrilo com a mãe, “si não sabia que não era mais hora de estar na cama”, que fosse botar água na tina, etc.

Então Paulino, antes das duas mulheres, abandonava o calor nascente do corpo. Ia já rondar a cozinha porque estava chegando o momento mais feliz da vida dele: o pedaço de pão. E que domingo pra Paulino quando, porque um freguês pagou, porque a sogra apareceu, coisa assim, além do pão, bebiam café com açúcar!... Chupava depressa, queimando a língua e os beicinhos brancos, aquela água quente, sublime de gostosa por causa duma pitadinha de café. E saía comer o pão lá fora.

Na frente da casa não, era lá que ficavam a torneira, as tinas e o coaral. As mulheres estavam fazendo suas lavagens de roupa e era ali na piririca: briga e descompostura o tempo todo. Quem pagava era o reinação do Paulino. Acabava sempre com um pão mal comido e algum cocre de inhapa bem no alto do coco, doendo fino.

Deixou de ir para lá. Abria a porta só encostada da cozinha, descia o degrau, ia correcorrendo se rir pra alegria do frio companheiro, por entre os tufos de capim e as primeiras moitas de carrapicho. Esse matinho atrás da casa era a floresta. Ali Paulino curtia as penas sem disfarce. Sentado na terra ou dando com o calcanhar nos olhos dos formigueiros, principiava comendo. De repente quase caía levantando a perninha, ai! do chão, pra matar a saúva ferrada no tornozelinho de bico. Erguia o pão caído e recomeçava o almoço, achando graça no requetreque que a areia ficada no pão, ganzava agora nos dentinhos dele.

Mas não esquecia da saúva não. Pão acabado, surgia, distraindo a fome nova, o guerreiro crila. Procurava uma lasca de pau, ia caçar formigas no matinho. Afinal, matinho não muito pequeno porque dava atrás na várzea, e não havia senão um lembrete de cerca fechando o terreno. Mas nunca Paulino penetrou na várzea que era grande demais pra ele. Lhe bastava aquele matinho gigante, sem planta com nome, onde o sol mais preguiça nunca deixava de entrar.

Graveto em punho lá ia em busca de saúva. As formiguinhas menores, não se importava com elas não. Só arremetia contra saúva. Quando achava uma, perseguia-a paciente, rompendo entre os ramos entrançados dos arbustos, donde muitas vezes voltava com a mão, a perna ardendo por ter relado nalgum mandarová. Trazia a saúva pro largo e levava horas brincando com a desgraçadinha, até a desgraçadinha morrer.

Quando ela morria, o sofrimento recomeçava pra Paulino, era fome. O sol já estava alto, porém Paulino sabia que só depois das fábricas apitarem havia de ter feijão com arroz nos tempos ricos, ou novo pedaço de pão nos tempos felizmente mais raros. Batia uma fome triste nele que outra saúva combatida não conseguia distrair mais. Banzava na desgraça, melancolizado com a repetição do sofrimento cotidiano. Sentava em qualquer coisa, descansando a bochecha na mão, cabeça torcidinha, todo penaroso. Afinal, nalguma sombra rendada, aprendeu a dormir de fome. Adormecia. Sonhava não. As moscas vinham lhe bordando de asas e zumbidos a boquinha aberta, onde um resto de adocicado ficou. Paulino dormindo fecha de repente os beiços caceteados, se mexe, abre um pouco as perninhas encolhidas e mija quente em si.

Sono curto. Acordou muito antes das fábricas apitarem. Mastigou a boca esfomeada, recolheu com a língua os sucos perdidos nos beiços. Requetreque de areia e uma coisinha meia doce no paladar. Tirou com a mão pra ver o que era, eram duas moscas. Moscas sim, porém era meio adocicado. Tornou a botar as moscas na língua, chupou o gostinho delas, engoliu.

Foi assim o princípio dum disfarce da fome por meio de todas as coisas engulíveis do matinho. Não tardou muito e virou “papista” como se diz: trocou a caça das saúvas pelos piqueniques de terra molhada. Comer formiga então...

Junto dos montinhos dos formigueiros encostava a cara no chão com a língua pronta. Quando formiga aparecia, Paulino largava a língua hábil, grudava nela a formiga, e a esfregando no céu-da-boca sentia um redondinho infinitesimal. Punha o redondinho entre os dentes, trincava e engolia o guspe ilusório. E que ventura se topava com alguma correição! De gatinhas, com o fiofó espiando as nuvens, lambia o chão tamanduamente. Apagava uma carreira viva de formiga em três tempos.

Nessa esperança de matar a fome, Paulino foi descendo a coisas nojentas. Isto é, descendo, não. Era incapaz de pôr jerarquia no nojo, e até o último comestível inventado foi formiga. Porém não posso negar que uma vez até uma barata... Agarrou e foi-se embora mastigando, mais inocente que vós, filhos dos nojos. Porém, compreende-se: eram alimentos que não davam sustância nenhuma. Fábrica apitava e o arroz-com-feijão vinha achar Paulino empanturrado de ilusões, sem fome. Pegou aniquilando, escurecendo que nem dia de inverno.

Teresinha não reparava. O buçal da virtude estava já tão gasto que via-se o momento da moça desembestar livre, vida fora. Foi o tempo em que tapa choveu por todas as partes de Paulino cegamente, caísse onde caísse. Quando ela vinha pra casa já escutava a companhia do Fernandez, carroceiro. Era um mancebo de boa tradição, desempenado, meio lerdo, porém com muita energia. Devia de ter vinte-e-cinco anos, se tinha! e se engraçou pela envelhecida, quem quiser saiba por que. Buçal arrebentou. Quando ele pôde carregar a trouxa pra ela, veio até a casa, entrou que nem visita, e Teresinha ofereceu café e consentimento. A velha, sujando a língua com os palavrões mais incompreensíveis, foi dormir na cozinha com Paulino espantado.

Em todo caso a boia melhorou, e o barrigudinho conheceu o segredo da macarronada. Só que tinha muito medo do homem. Fernandez fizera uma festinha pra ele na primeira aparição, e quando saiu do quarto de-manhã e beberam café todos juntos, Paulino confiado foi brincar com a perna comprida do homem. Mas tomou com um safanão que o fez andar de orelha murcha um tempo.

E lógico que a sogra havia de saber daquilo, soube e veio. Teresinha muito fingida falou bom-dia pra ela e a mulatona respondeu com duas pedras na mão. Porém agora Teresinha não carecia mais da outra e refricou, assanhada feito irara. Bateboca tremendo! Paulino nem tinha pernas pra abrir o pala dali, porque a velha apontava pra ele, falando “meu neto” que mais “meu neto” sem parada. E mandava que Teresinha agora se arranjasse, porque não estava pra sustentar cachorrice de italiana acueirada com espanhol. Teresinha secundava gritando que espanhol era muito mais melhor que brasileiro, sabe! sua filha de negro! mãe de assassino! Não careço da senhora, sabe! mulata! mulatona! mãe de assassino!

— Mãe de assassino é tu, sua porca! Tu que fez meu filho sê infeliz, maldiçoada do diabo, carcamana porca!

— Saia já daqui, mãe de assassino! A senhora nunca se amolou com seu neto, agora vem com prosa aí! Leve seu neto se quiser!

— Pois levo mesmo! coitadinho do inocente que não sabe a mãe que tem, sua porca! porca!

Suspendeu Paulino esperneando, e lá se foi batendo salto, ajeitando o xale de domingo, por entre as curiosas raras do meidia. Inda virou, aproveitando a assistência, pra mostrar como era boa:

— Escute! Vocês agora, não pago mais aluguel de casa pra ninguém, ouviu! Protegi você porque era mulher de meu filho desgraçado, mas não tou pra dar pouso pra égua, não!

Mas a Teresinha, louca de ódio, já estava olhando em torno pra encontrar um pau, alguma coisa que matasse a mulatona. Esta achou melhor partir duma vez, triunfante ploque ploque.

Paulino ia ondulando por cima daquelas carnes quentes. Chorava assustado, não tendo mais noção da vida, porque a rua nunca vista, muita gente, aquela mulher estranha e ele sem mãe, sem pão, sem matinho, sem vó... não sabia mais nada! meu Deus! como era desgraçado! Teve um medo pavoroso no corpinho azul. Inda por cima não podia chorar à vontade porque reparara muito bem, a velha tinha um sapatão com salto muito grande, pior que tamanco. Devia de ser tão doído aquele salto batendo no dentinho, rasgando o beiço da gente... E Paulino horrorizado enfiava quase as mãozinhas na boca, inventando até bem artisticamente a função da surdina.

— Pobre de meu neto!

Com a mão grande e bem quente pegou na cabecinha dele, ajeitando-a no pescoço de borracha. Carregado gostoso naqueles braços bons, com o xale dando inda mais quentura pra gente ser feliz... E a velha olhou pra ele com olhos de piedade confortante... Meu Deus! que seria aquilo tão gostoso!... É assomo de ternura, Paulino. A velha apertou-o no peito abraçando, encostou a cara na dele, e depois deu beijos, beijos, revelando pro piá esse mistério maior.

Paulino quis sossegar. Pela primeira vez na vida o conceito de futuro se alargou até o dia seguinte na ideia dele. Paulino sentiu que estava protegido, e no dia seguinte havia de ter café-com-açúcar na certa. Pois a velha não chegara a boca ajuntada bem na cara dele e não dera aquele chupão que barulhava bom? Dera. E a ideia de Paulino se encompridou até o dia seguinte, imaginando um canecão do tamanho da velha, cheinho de café-com-açúcar. Foi se rir pras duas lágrimas piedosas dela, porém bem no meio da gota apareceu uma botina que foi crescendo, foi crescendo e ficou com um tacão do tamanho da velha. Paulino reprincipiou chorando baixo, que nem nas noites em que o acalanto da manha embalava o sono da Teresinha.

— Ara! também agora basta de chorar! Ande um pouco, vamos!

O salto da botina encompridou enormemente e era a chaminé do outro lado da rua. O pranto de Paulino parou, mas parou engasgado de terror. Chegaram.

Esta era uma casa de verdade. Entrava-se no jardinzinho com flor, que até dava vontade de arrancar as sempre-vivas todas, e, subida a escadinha, havia uma sala com dois retratos grandes na parede. Um homem e uma mulher que era a velha. Cadeiras, uma cadeira grande cabendo muita gente nela. Na mesinha do meio um vaso com uma flor cor-de-rosa que nunca murchou. E aquelas toalhinhas brancas nas cadeiras e na mesa, que devia distrair a gente cortando tantas bolotinhas...

O resto da casa assombrou desse mesmo jeito o despatriado. Depois apareceram mais duas moças muito lindas, que sempre viveram de saia azul-marinho e blusa branca. Olharam duras pra ele. Aqueles quatro olhos negros desceram lá do alto e tuque! deram um cocre na alma de Paulino. Ele ficou tonto, sem movimento, grudado no chão.

Daí foi uma discussão terrível. Não sei o que a velha falou, e uma das normalistas respondeu atravessado. A velha asperejou com ela falando no “meu neto”. A outra respondeu gritando e uma tormenta de “meu neto” e “seu neto” relampagueou alto sobre a cabeça de Paulino. A história foi piorando. Quando não teve mais agudos pras três vozes subirem, a velha virou um bofete na filha da frente, e a outra fugindo escapou de levar com a colher bem no coco.

A invenção de Paulino não podia ajuntar mais terrores. E o engraçado é que o terror pela primeira vez despertou mais a inteligência dele. O conceito de futuro que fazia pouco atingira até o dia seguinte, se alongou, se alongou até demais, e  Paulino percebeu que entre raivas e maus-tratos havia de passar agora o dia seguinte inteiro e o outro dia seguinte e outro, e nunca mais haviam de parar os dias seguintes assim. É lógico: sem ter a soma dos números, mais de três mil anos de dias seguintes sofridos, se ajuntaram no susto do piá.

— Vá erguer aquela colher!

As metades do arco se moveram ninguém sabe como, Paulino levantou a colher do chão que deu pra velha. Ela guardou a colher e foi lá dentro. A varanda ficou vazia. Estava tudo arranjado, e as sombras da tarde rápida entravam apagando as coisas desconhecidas. Só a mesa do centro inda existia nitidamente, riscada de vermelho e branco. Paulino foi se encostar na perna dela. Tremia de medo. Chiava um cheiro gostoso lá dentro, e da sombra da varanda um barulhinho monótono, tique-taque, regulava as sensações da gente. Paulino sentou no chão. Uma calma grande foi cobrindo o pensamento aniquilado: estava livre do tacão da velha. Ela não era que nem a mãe não. Quando tinha raiva não atirava botina, atirava uma colher levinha, brilhando de prateada. Paulino se encolheu deitado, encostando a cabeça no chão. Estava com um sono enorme de tanto cansaço nos sentimentos. Não havia mais perigo de receber com tamanco no dentinho, a mulatona só atirava aquela colher prateada. E Paulino ignorava se colher doía muito, batendo na gente. Adormeceu bem calmo.

— Levante! que é isso agora! Como esse menino deve ter sofrido, Margot! Olhe a magreira dele!

— Pudera! com a mãe na gandaia, festando dia e noite, você queria o que, então!

— Margot... você sabe bem certo o que quer dizer puta, hein? Eu acho que a gente pode falar que Paulino é filho-da-puta, não?

Se riram.

— Margot!

— Senhora!

— Mande Paulino aqui pra dar comida pra ele!

— Vá lá dentro, menino!

As pernas de arco balançaram mais rápidas. Uma cozinha em que a gente não podia nem se mexer. A velha boa inda puxou o capacho da porta com o pé:

— Sente aí e coma tudo, ouviu!

Era arroz-com-feijão. A carne, Paulino viu com olho comprido ela desaparecer na porta da varanda. Menino de quatro anos não come carne, decerto imaginou a velha, meia em dificuldades sempre com a educação das filhas.

E a vida mudou de misérias pra Paulino, mas continuou a sempre miserável. Boia melhorou muito e não faltava mais, porém Paulino estava sendo perseguido pelos vícios do matinho. Nunca mais a mulatona teve daqueles assomos de ternura do primeiro dia, era uma dessas cujo mecanismo de vida não difere muito do cumprimento do dever. Aquele beijo fora sincero, mas apenas dentro das convenções da tragédia. Tragédia acabara e com ela a ternura também. E no entanto ficara muito em Paulino a saudade dos beijos...

Quis se chegar pras moças porém elas tinham raiva dele, e podendo, beliscavam. Assim mesmo a mais moça, que era uma curiosa do apá virado e nunca tirava as notas de Margot na escola, Nininha, é que tomara pra si dar banho no Paulino. Quando chegava no sábado, o pequeno meio espantado e muito com medo de beliscão, sentia as carícias dum rosto lindo em fogo se esfregando no corpinho dele. Acabava sempre aquilo, a menina com uma raiva bruta, vestindo depressa a camisolinha nele, machucando, “fica direito, peste!” pronto: um beliscão que doía tanto, meu Deus!

Paulino descia a escada da cozinha, ia muito jururu pelo corredorzinho que dava no jardim da frente, puxava com esforço o portão sempre encostado, sentava, punha a mão na bochecha, cabecinha torcida pro lado e ficava ali, vendo o mundo passar.

E assim, entre beliscões e palavras duras que ele não entendia nada, “menino fogueto”, “filho de assassino”, ele também passava feito o mundo: magro escuro terroso, cada vez se aniquilando mais. Mas o que que havia de fazer? Bebia o café e já falavam que fosse comer o pão no quintal senão, porco! sujava a casa toda. Ia pro quintal, e a terra estava tão úmida, era uma tentação danada! Nem ele punha reparo que era uma tentação porque nenhum cocre, nenhuma colherada, o proibira de comer terra. Treque-trrleque, mastigava um bocadinho, engolia, mastigava outro bocadinho, engolia. E ali pelas dez horas sempre, com a pressa das normalistas assombrando a calma da vida, tinha que assentar naquele capacho pinicando, tinha que engolir aquele feijão-com-arroz num fastio impossível...

— Minha Nossa Senhora, esse menino não come! Ói só com que cara ele olha pra comida! Pra que que tu suja a cara de terra desse jeito, hein, seu porcalhão!

Paulino assustava, e o instinto fazia ele engolir em seco esperando a colherada nunca vinda. Porém desta vez a velha tivera uma iluminação no mecanismo:

— Será que!... Você anda comendo terra, não! Deixe ver!

Puxou Paulino pra porta da cozinha, e com aquelas duas mãos enormes, queimando de quentes:

— Abra a boca, menino!

E arregaçava os beiços dele. Terra nos dentinhos, na gengiva.

— Abra a boca, já falei!

E o dedo escancarava a boquinha terrenta, língua aparecendo até a raiz, todinha da cor do barro. A sova que Paulino levou nem se conta! Principiou com o tapa na boca aberta, que até deu um som engraçado, bóo! e não posso falar como acabou de tanta mistura de cocre beliscão palmadas. E palavreado, que afinal pra criancinha é tabefe também.

Então é que principiou o maior martírio de Paulino. Dentro da casa, nenhuma queria que ele ficasse, tinha mesmo que morar no quintal. Antes do pão porém, já vinha uma sova de ameaças, tão dura, palavra-de-honra: Paulino descia a escadinha completamente abobado, sentindo o mundo bater nele. E agora?...

Pão acabou e a terra estava ali toda oferecida chamando. Mas aquelas três beliscadoras não queriam que ele comesse a terra gostosa... Oh tentação pro pobre santantoninho! queria comer e não podia. Podia, mas depois lá vinha de hora em hora o dedão da velha furando a boquinha dele... Como?... Não como?... Fugia da tentação, subia a escadinha, ficava no alto sentado, botando os olhos na parede pra não ver. E a terra sempre chamando ali mesmo, boa, inteirinha dele, cinco degraus fáceis em baixo...

Felizmente não sofreu muito não. Três dias depois, não sei se brincou na porta com os meninos de frente, apareceu tossindo. Tosse aumentou, foi aumentando, e afinal Paulino escutou a velha falar, fula de contrariedade, que era tosse-de-cachorro. Se haviam de levar o menino no médico, em vez, vamos dar pra ele o xarope que dona Emília ensinou. Nem xarope de dona Emília, nem os cinco mil-réis ficados no boticário mais chué do bairro sararam o coitadinho. Tinha mesmo de esperar a doença, de tanto não encontrando mais sonoridade pra tossir, ir-se embora sozinha.

O coitado nem bem sentia a garganta arranhando, já botava as mãozinhas na cabeça, inquieto muito! engolindo apressado pra ver se passava. Ia procurando parede pra encostar, vinha o acesso. Babando, olho babando, nariz babando, boca aberta não sabendo fechar mais, babando numa conta. O coitadinho sentava no lugar onde estava, fosse onde fosse porque senão caía mesmo. Cadeira girava, mesa girava, cheiro de cozinha girava. Paulino enjoado atordoado, quebrado no corpo todo.

— Coitado. Olhe, vá tossir lá fora, você está sujando todo o chão, vá!

Ele arranjava jeito de criar força no medo, ia. Vinha outro acesso, e Paulino deitava, boca beijando a terra mas agora sem nenhuma vontade de comer nada. Um tempo estirado passava. Paulino sempre na mesma posição. Corpo nem doía mais, de tanto abatimento, cabeça não pensando mais, de tanto choque aguentado. Ficava ali, e a umidade da terra ia piorar a tosse e havia de matar Paulino. Mas afinal aparecia uma forcinha, e vontade de levantar. Vai levantando. Vontade de entrar. Mas podia sujar a casa e vinha o beliscão no peitinho dele. E não valia de nada mesmo, porque mandavam ele pra fora outra vez...

Era de-tarde, e os operários passavam naquela porção de bondes... enfim divertia um bocado pelo menos os olhos ramelosos. Paulino foi sentar no portão da frente. A noite caía agitando vida. Um ventinho poento de abril vinha botar a mão na cara da gente, delicado. O sol se agarrando na crista longe da várzea, manchava de vermelho e verde o espaço fatigado. Os grupos de operários passando ficavam quase negros contra a luz. Tudo estava muito claro e preto, incompreensível. Os monstros corriam escuros, com moços dependurados nos estribos, badalando uma polvadeira vermelha na calçada. Gente, mais monstros e os cavalões nas bonitas carroças.

Nesse momento a Teresinha passou. Vinha nuns trinques, só vendo! sapato amarelado e meia roseando uma perna linda mostrada até o joelho. Por cima um vestido azul claro mais lindo que o céu de abril. Por cima a cara da mamãe, que beleza! com aquele cabelo escuro fazendo um birote luzido, e os bandós azulando de napolitano o moreno afogueado pelas cores de Paris.

Paulino se levantou sem saber, com uma burundanga inexplicável de instintos festivos no corpo, “Mamma!” que ele gritou. Teresinha virou chamada, era o figliuolo. Não sei o que despencou na consciência dela, correu ajoelhando a sedinha na calçada, e num transporte, machucando bem delicioso até, apertou Paulino contra os peitos cheios. E Teresinha chorou porque afinal das contas ela também era muito infeliz. Fernandez dera o fora nela, e a indecisa tinha moçado duma vez. Vendo Paulino sujo, aniquiladinho, sentiu toda a infelicidade própria, e meia que desacostumou de repente da vida enfeitada que andava levando, chorou.

Só depois é que sofreu pelo filho, horroroso de magro e mais frágil que a virtude. Decerto estava sofrendo com a mulatona da avó... Um segundo matutou levar Paulino consigo. Porém, escondendo de si mesma o pensamento, era incontestável que Paulino havia de ser um trambolho pau nas pândegas. Então olhou a roupinha dele. De fazenda boa não era, mas enfim sempre servia.

Agarrou nesse disfarce que apagava a consciência, “meu filho está bem tratado”, pra não pensar mais nele nunca mais. Deu um beijo na boquinha molhada de gosma ainda, procurou engolir a lágrima, “figliuolo”, não foi possível, apertou muito, beijou muito. Foi-se embora arranjando o vestido.

Paulino de-pezinho, sem um gesto, sem um movimento, viu afinal lá longe o vestido azul desaparecer. Virou o rostinho. Havia um pedaço de papel de embrulho, todo engordurado, rolando engraçado no chão. Dar três passos pra pegá-lo... Nem valia a pena. Sentou de novo no degrau. As cores da tarde iam cinzando mansas. Paulino encostou a bochecha na palminha da mão e meio enxergando, meio escutando, numa indiferença exausta, ficou assim. Até a gosma escorria da boca aberta na mão dele. Depois pingava na camisolinha. Que era escura pra não sujar.