sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Miragem oceânica (Conto), de Virgílio Várzea


Miragem oceânica
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Mar de tormenta, mar que rebenta,
Convulso mar!
Noites inteiras, noites inteiras
Nas praias tristes há lareiras
Com mães e noivas a rezar.
 Guerra Junqueiro.
  
Havia um mês que a fragata la Belle-Poule chegara a Porto Luís, em Santa Maria, depois do ciclone em que se vira envolvida e do qual escapara por milagre, na travessia da ilha de Bourbon ou da Reunião para aquela ilhota da costa leste de Madagascar. O que fora essa tremenda convulsão meteorológica narram-no minuciosa e eloquentemente, na sua simples mas expressiva linguagem técnico-maruja, os Anais da Marinha de Guerra francesa do ano de 1847.

No dia 16 de dezembro do ano anterior, navegavam a rumo de noroeste aquela grande fragata e a linda corveta le Berceau, ambas pertencentes à divisão francesa da Índia, de que era chefe o velho e bravíssimo veterano do mar almirante Desfossé. Esses navios, que eram ainda novos, bem aparelhados, muito seguros e geralmente conhecidos como excelentes veleiros, tinham deixado, com vento do largo (nordeste), na alvorada da véspera, o porto de São Denis, capital da ilha da Reunião, a principal do arquipélago das Mascarenhas, seiscentas milhas a oriente de Madagascar, no coração do Índico, arquipélago descoberto em 1545 por Mascarenhas, que lhe deu o nome que se conservou até hoje, assinalando perpetuamente, nos mares, a glória do egrégio navegador português. Na manhã seguinte à da partida, já toda a ilha se esbatia, popa fora, no azul turquesa do horizonte, tendo-se perdido e afundado, à distância, o Pico da Furna Ardente (Piton de Fournaise), quase ao extremo sul da Ponta da Mesa, bem como o Grande Monte Solitário (Gros-Morne) mais ao norte, porém ainda situado na parte meridional das duas em que se divide a ilha, e que é a mais áspera e inabordável, toda aberta aos ventos tormentosos de leste e por isso chamada de Barlavento (du Vent). Entretanto, na outra parte, na de Sotavento (Sous-le-Vent), o Pico das Neves (Píton des Neiges), bem ao centro da ilha e seu ponto culminante, resplandecia de alvura pelo seu píncaro de três mil e sessenta e nove metros de elevação sobre o nível do Mar: e dir-se-ia, assim tão reduzido e já a sumir-se no cetim do céu cerúleo, um lenço branco que os carinhosos habitantes da ilha erguessem alto, no Espaço, a acenar tristemente os seus adeuses saudosos às duas naves que partiam...

Mas, pela tarde, apenas desaparecera de todo o Pico das Neves, a viagem, que fora até ali risonha e feliz, começara a transtornar-se. O firmamento, claro e límpido como um fino e anilado cristal, enchera-se de nuvens que tomavam cores negras e tristes, adensando-se em bulcões. Pouco a pouco empalidecera, penumbrara-se o sol de ouro vivo, ocultando-se entre cúmulos. O mar até então azul translúcido, liso e sem cristas ou escarcéus bravios, enegrecera melancolicamente, erguendo-se em grandes vagas espumosas. Um sudoeste entrara de soprar, em lufadas rijas. Já o barômetro descera bruscamente, assustadoramente.

As duas quilhas — la Belle— Boule e le Berceau — velejavam ao mesmo rumo, a pequena distância uma da outra, a pouco mais de meia milha. O vento intenseara ainda, inclinando-se ou chamando-se ao sul. Os balanços, a bordo de cada lenho, já iam crescidos, fora do comum. Ao cerrar da noite, o sul atingira enorme violência — e no mar e no céu tudo era sublevação e torvelinho. Um espesso nevoeiro velava o ar, fechando o horizonte; as ondas invadiam, cobriam, alagavam, varriam convés e tombadilho; a chuva despenhava-se diluvialmente; os trovões estouravam em ribombos medonhos, contínuos; fuzis rasgavam as nuvens, em multidão de fitas de fogo sulferinas que fugiam e se apagavam instantaneamente, em clarões sinistros; descargas elétricas sucediam-se ininterruptamente, como nas inimagináveis tempestades dos períodos geológicos remotos e primitivos...

Apesar de acesos os faróis, de bordo da fragata não se avistava mais a corveta, inteiramente oculta no seio da borrasca desfeita. O comandante da Belle-Poule, homem de quase sessenta anos de idade, um dos mais ilustres capitães-de-mar-e-guerra da marinha francesa de então, verdadeiro “lobo do mar”, resoluto e temerário, e que conhecia de menino a maior parte das paragens marítimas do globo, tendo feito como chefe duas viagens notáveis de circunavegação, chegara a declarar à oficialidade, quase toda também de marinheiros experimentados e valorosos, que jamais vira ciclone assim. E de pé sobre o tombadilho, sentia-se impotente e vencido, como toda a marinhagem, pelo temporal, que lhe não permitia, no seu furor nunca visto, a execução da mais pequena manobra: a sua inteligência, perícia, ação e esforços náuticos convergiam unicamente, agora, em equilibrar o governo da fragata, para evitar o naufrágio ou o soçobro iminentes, e manter a postos e firmes os subordinados, desorientados e em total desânimo ante força irresistível do marouço, arrebatando de vez em quando alguns dentre eles, afogando-os no abismo ao largo, ou despedaçando-lhes os crânios contra os mastros e bordas do próprio navio, apesar dos cabos de vaivém lançados de popa à proa a que andavam todos agarrados, aos saltos e boléus horríveis...

À meia-noite o barômetro não tinha mais que descer: estava abaixo dos últimos limites marcados em sua escala! O vento, crescendo progressivamente e correndo da esquerda para a direita, conforme a lei dos ciclones no hemisfério austral, chegara à suprema fúria. E a tempestade parava-se num estranho, invencível cataclismo marinho.

“À meia-noite, — narra o distinto primeiro tenente da armada francesa Félix Julien, que nessa ocasião era um dos oficiais da Belle-Poule — à meia-noite, não obstante os mais enérgicos esforços, a fragata, desamparada, sem governo, sem velas, deitava-se toda sobre o bordo da amura, com a mastreação despedaçada, o convés invadido pelo mar furioso. Assim, em duas horas apenas, atingíamos o centro do ciclone. Uma calma súbita, mas de curta duração, sucedia à primeira crise desta sublevação atmosférica. Os ventos que nos tinham abandonado ao sul, repontaram a oeste e ao norte com a rapidez do raio. Entrávamos, nesse instante, no segundo segmento do círculo do tufão. Batida agora pela esquerda, a fragata inclinava-se de novo, não podendo resistir à enorme pressão que a mantinha deitada a um bordo. Como se vê, os ventos haviam seguido a lei dos ciclones no hemisfério austral. Turbilhonavam da esquerda para a direita, como a espiral das zonas de calma das regiões antárticas...”

No dia seguinte, ao despontar do sol, não havia da formidável procela senão restos de vagalhões desmontados, mas que de hora a hora baixavam, calmavam. A Belle-Poule, embora só em mastros-reais e sem o pau-da-giba, com uma nova andaina de pano envergada e só puxando em gáveas grandes, navegava serenamente em demanda de Porto Luís, em Santa Maria de Madagascar. E a corveta le Berceau?... Essa, coitada, não se sabia dela — ficara perdida na imensa solidão oceânica. Mas nem o comandante da fragata, nem ninguém da sua companha, supunha jamais que ela tivesse naufragado, soçobrado em meio ao temporal; muito pelo contrário, julgavam-na livre de perigo e a salvo, tal qual sucedera ao navio em que estavam. E com bons vigias nos sextos-de-gávea e nos topes dos mastaréus, procuravam descobri-la a todo o instante no vasto arco do horizonte, julgando-a afastada, desgarrada, sem dúvida, mas unicamente por algumas milhas de mar...

Uma semana depois, a Belle-Poule entrava em Porto Luís, ponto marcado para a reunião de todos os navios da divisão naval francesa da Índia, onde se achava a nau capitânia tendo arvorado o pavilhão do almirante. E o comandante, oficiais e marinheiros que vinham triunfantes, se bem que maltratados da luta com o terrível ciclone, experimentaram desagradável surpresa em não encontrar já ali fundeada, como esperavam, a corveta le Berceau, muito menor e mais veleira que a fragata. Mas não ficaram apreensivos, atribuindo a demora dessa embarcação não só a algum desvio do caminho e a quaisquer avarias consideráveis que lhe houvesse feito o tufão, como ainda a alguma arribada inevitável à própria ilha da Reunião ou a qualquer outra das Mascarenhas.

Ao verem entrar a Belle-Poule, o almirante Desfossé e demais pessoal do navio-chefe, que já sabiam da borrasca, não somente pelo barômetro de bordo mas também pelos barcos de pesca das costas de Madagascar, respiraram livremente, embora não vissem entrar conjuntamente com ela a corveta le Berceau, que devia segui-la de perto: e não se admiravam porque semelhante fato é muito comum nas frotas ou esquadras em viagem, quer à vela quer a vapor, pois que, ao menor acidente, os navios desgarram-se e atrasam-se uns dos outros, sobretudo em más condições de vento e mar.

Apenas a Belle-Poule fundeara, o seu comandante, conforme as ordenanças militares, correu a apresentar-se ao almirante, entregando-lhe o relatório escrito de todo o cruzeiro que acabava de fazer, contendo uma parte bastante desenvolvida e completa sobre a tormenta apanhada, e reforçando-o e ampliando-o ainda com uma larga narração verbal a respeito. O chefe Desfossé fez-se transportar imediatamente, em companhia do próprio comandante, para bordo da fragata recém-vinda, verificando então por si mesmo as enormes avarias que apresentava o navio e interrogando ainda, um por um, oficiais e marinheiros sobre o grande ciclone. Enquanto ao desgarre de le Berceau era da opinião do comandante e da marinhagem da Belle-Poule — que a corveta, casco ainda novo e seguro, bem comandado e com boa oficialidade e guarnição como estava, aguentara decerto a tempestade e devia, mais dias menos dias, surgir no porto a são e salvo, lançando o seu retardamento ou demora à conta das más condições de navegabilidade em que sem dúvida ficara sob o furor das vagas e do vento, tanto como à hipótese, muitíssimo natural, de alguma arribada a qualquer ponto próximo da latitude em que se achava, durante ou depois do ciclone...

Esse era, para assim dizer, o pensamento “oficial” de todos na divisão naval francesa; mas no coração e no espírito de cada um nascera desde muito e se acentuava dia a dia, com a delongada ausência da corveta, o pressentimento funerário e cruel de que le Berceau e todas as vidas preciosas que nela se achavam tinham desaparecido para sempre no fundo torvo das ondas.

Tão sinistra perspectiva trazia todos em profunda ansiedade, na pequena cidade de Porto Luís — as guarnições dos navios de guerra franceses e de outras, nações, como os marujos mercantes locais e de toda a parte, e a população indígena em geral. Corria-se, por terra e por água, o litoral em busca de notícias. Indagava-se sofregamente, angustiosamente de todos os tripulantes dos navios que entravam, de pesca, costeiros ou de longo curso, vindos de todos os rumos do Mar, se acaso não tinham visto a corveta le Berceau ou alguma jangada de náufragos. E as respostas dos embarcadiços questionados, bem assim as dos emissários mandados por terra e por água a todas as enseadas, cabos e baías próximas eram sempre, desolada e desesperançadamente, estas: — Que não tinham visto nada! que não sabiam de nada!...

Não obstante tantas pesquisas frustradas — como a Esperança não morre nunca no coração humano senão com o derradeiro lampejo de vida — em a nau capitânia, como nos demais navios da esquadra francesa, os vigias, nos sextos-de-gávea e no tope alto dos mastaréus, esquadrinhavam, o dia inteiro, com o olhar, os recortes da costa e o horizonte ao largo, a ver se porventura surgia de repente, não já a corveta, em cuja existência ninguém mais acreditava, mas algum batel ou batei, com náufragos...

Um mês decorreu em vão...

Mas uma tarde, quando menos se cuidava, a bordo da nau capitânia, um dos vigias gritou alviçareiramente para baixo:

— Um navio desarvorado ao largo, em demanda de terra!...

Houve logo um imenso e justificado alvoroço em todos, no convés e no tombadilho, à popa e à proa da nau, desde o almirante ao último grumete. E um uníssono de funda expansão e júbilo irrompeu vivamente de todas as bocas:

Le Berceau! Le Berceau!

Fez-se imediatamente sinal do navio avistado à Belle-Poule e aos demais barcos da divisão francesa. E a mesma emoção de alegria explodiu subitamente em todos eles...

Não era um sonho, narra ainda o primeiro tenente Félix Julien. No céu límpido e puro o sol resplandecia gloriosamente: uma poeirada de ouro ardente vibrava no horizonte. Todos os olhos marujos de mais forte acuidade, projetados naquela direção, não fizeram mais que confirmar a primeira notícia transmitida pelo gajeiro. Mas logo a emoção devia tornar-se mais pungente: não era já um navio que nos aparecia, porém uma imensa jangada carregada de homens e rebocada por botes sobre os quais flutuavam sinais de perigo e pedidos de socorro. As imagens eram nítidas e fixas, as linhas perfeitamente desenhadas, distintas. A bordo da capitânia, como nos outros navios, almirante, comandantes, oficiais, marinheiros, todos, durante muitas horas, sob um golpe de alucinação febril, puderam seguir com os seus próprios olhos os detalhes desta indescritível cena marítima. O almirante Desfossé, comandante da nossa estação naval da Índia, mandou imediatamente aprestar o primeiro vapor que encontrou no porto e fê-lo sair a toda a força em socorro dos náufragos que o Oceano, dir-se-ia, nos reenviava do fundo de seus abismos...

O dia começava a declinar e a noite, como sucede em geral nos trópicos, tombava quase sem crepúsculo, quando o Arquimedes chegou ao fim da sua missão. Parou em meio dos destroços flutuantes e lançou seus escaleres ao mar. Em torno, nas ondas, continuavam a ver-se massas de homens agitando-se, os braços erguidos para o céu, a implorar socorro. Ouvia-se como o ruído surdo e confuso de um grande número de vozes misturadas ao bater dos remos na água... Ainda alguns segundos, e nós iríamos abraçar irmãos arrancados a uma morte certa:

Illusions des nuits, vous jouiez-vous de nous?

“E os escaleres enterravam-se por entre os espessos ramos de grandes árvores, arrancados pela tempestade às costas vizinhas e arrastadas com toda a folhagem pela contracorrente oceânica que remontava ao norte, junto à ilha de Santa Maria...”.

Não eram náufragos, não, infelizmente mas ramos de árvores flutuantes, produzindo uma triste Miragem Oceânica...

“Assim se esvaiu essa estranha visão, conclui o ilustre marinheiro francês. Assim se dissipou a derradeira esperança que uma miragem enganadora havia, por assim dizer, evocado do fundo azul do Oceano. Assim desapareceram de novo, e para sempre, sob os nossos olhos, a infortunada Berceau e as trezentas vítimas engolidas no seu bojo!...”

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