segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Nilguyo (Conto), de Wenceslau de Moraes


Nilguyo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Mukashi, mukasi (nos velhos tempos, nos velhos tempos, como diriam estes bons japoneses, e conforme reza a lenda, interpretada pelo Nihon no Mukashibanashi (Antigas Legendas do Japão)), viveu um homem, um simples, de índole bondosa, de quem se poderia dizer que passara a mocidade em desejos de matrimônio; mas como desejos e realização deles são duas coisas mui diferentes, atingiu o pobre a meia-idade sem ter levado a efeito essa firma... — comercial não é talvez o termo próprio, — em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham entre si, da vida, alegrias e tristezas.
As alegrias dele consistiam principalmente em entregar-se à pesca, pesca à linha durante os longos ócios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais mordentes, ao recolher à noite a casa, derreado, cambaleando de sono e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse à porta, e em saudações o convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que lhe tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois levá-lo ao fogo do braseiro. Em toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos íntimos de alma, — júbilos de pescador à linha e desalentos de solteiro, — são bem justificáveis. Com efeito, para um temperamento vagabundo e impressionável aos enlevos da paisagem, como se dá com todo o japonês, quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol, induzindo-nos sem esforço a longos passeios de boêmio, penedos e praias fora, contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em face dos cenários serenos, todos verde, frescuras, espelhos de águas e murmúrios... e como as horas voam, acocorado o corpo sobre a rocha, a mão ora afeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se em comovente expectativa, ora colhendo o peixe a estrebuchar; e o espírito voando, como as horas, alheio ao ofício, deliciando-se em sonhos, viajando no reino das quimeras... Mas à noite, após um dia inteiro de labuta, é que o corpo se dói e falham os joelhos; e deve então saber tão bem chegar a gente ao lar de esteiras e papel, e vir à entrada ajoelhar-se em cortesias a figura gentil duma esposinha fresca, envolvida em sedas e perfumes, com as mãozitas rosadas em posição submissa, as mãozitas tão hábeis em corarem nas brasas as trutas saborosas...
Ora, um belo dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte, quando... zás! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que alguma coisa fora do comum viera de colher. Por pouco se lhe não vão, linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo; então, com muitas manhas que são próprias da arte, pôs-se a cansar a presa, já alongando o braço e deixando-a debater-se a seu capricho, já aproveitando o repouso para trazê-la à praia; até que enfim, azado o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe aos pés.
O peixe? o peixão!... Era uma Ninguyo, uma sereia; nem mais nem menos; face de mulher, duma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo, alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara formosura, — disse-o eu, e não me engano: — esse contorno doce de oval, de urizanegao, de pevide de melão, tão querido em estética japonesa; os bastos cabelos negros flutuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos de veludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contrações de angústia; chorava certamente pela dor, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de ver-se assim arrebatada do seu meio habitual, expiando um pecado de lambarice, indefesa, nua diante dum estrangeiro!...
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O pescador porém era duma índole bondosa, como ficou notado um pouco atrás; e vai-se agora ver como o provou. Compreende-se, é claro, o seu primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Pudera não! Acalmado, sacou cautelosamente o anzol da bela face em sangue; e tomando nas mãos o estranho ser, pôs-se a cismar maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando, se ele fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil templos do país; e alinhando a sua barraca com as outras, onde se exibem salamandras, crocodilos, crianças sem pés e sem mãos, cães sábios e muitas outras coisas, que abundantíssima chuva de sapecas lhe não cairia em cima, quer dizer, dentro das mangas do kimono!... — “Meus senhores, entrem todos! Quem não tem cabeça, não paga nada! Ora aqui está uma sereia autêntica...” — e já ia estudando o discurso que faria, soberbo, dominador, impondo-se à plebe embasbacada. Ou então, outra ideia: se ele comesse a carne da sereia, cozinhadinha, feita em postas... e sabem todos que a carne da sereia tem virtude de conservar perpétuas a vida e a juventude a quem dela provou... Mas a sua índole bondosa revoltou-se afinal contra a lembrança de reter numa tina, em exposição, ou pior ainda, de levar à degola aquele pobre bicho, que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia em prantos, como se fora uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e com um nobre gesto e decidido esforço, atirou a sereia às vagas, donde viera, e onde mergulhou e desapareceu sem mais cerimônias, após um acenar de rabo, que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento.

O nosso pescador voltou à sua faina. Consta que, naquele dia memorável, o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. À tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos lábios um sorriso, que provinha da boa pesca que fizera, e também da boa ação que praticara.
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Quando pela noite, na cozinha, mangas do kimono arregaçadas até acima dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a sua ceia, ouviu que de fora, e junto à porta, uma falinha mansa lhe ia dizendo: — “Dá licença! dá licença?”... — Corre o homem a abrir a corrediça, ainda com a faca da cozinha, e um carapau na dextra adunca; e à luz frouxa dum luar de quarto minguante, pode distinguir um vulto de mulher em nada extraordinário, porém doce e cortês, que lhe confessou ser uma viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo, e lhe pedia pousada só para aquela noite. — “Entre depressa, menina, acode-lhe o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui tenho.” — Então, dando-lhe entrada, conduzindo-a ao aposento das visitas, fê-la descansar sobre a esteira, e junto do braseiro, foi-lhe servido o chá tradicional. — “Muito obrigada.” — O homem rogou-lhe seguidamente que esperasse pela ceia, uma ceia de peixe por sinal, que ele ia amanhar sem perda de um minuto. — “Permite-me que eu ganhe o direito ao meu quinhão, ajudando-o nessa lida?” — Disse que não redondamente, que nunca consentiria que os seus hóspedes trabalhassem na cozinha. Em réplicas e tréplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a vida toda, além, da banda do oceano (talvez filha de gente embarcadiça? pescadora?) e que ela conhecia as melhores receitas de cozinhar o peixe, no que até muitas vezes, por passatempo, se ocupava; e tanto ela teimou, — sabem todos o que são teimas de mulheres! — que sempre foi levando a sua avante.
O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão deliciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe ficava, era de não lhe ser servida uma ceia igual, todas as noites. A companheira observou então modestamente, a meias falas, que lhe parecia não ir além dos seus poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor a sua frase, acrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar... Compreendida finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ela consentir em ser a esposa do sujeito.
Antes, porém, impôs as suas condições. — “Danna, meu dono, eu tenho, como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho de água salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?” — Ele acenou que sim. — “E jura-me (agora vão ouvir os pudores da pequerrucha...) que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem sequer espreitar-me?” — Ele jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia babando pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal tesouro.
Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos meses. O peixe, o prato querido dos nipônicos, foi sempre excelentemente preparado pela esposa, ativa, inteligente, a rir-se sempre. O pargo, em fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias com arroz, uma delícia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas sobre o lume, sem igual! E até uma certa caldeirada, assim como quem diz à moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume e pelas banhas, que alguém olhava por ele com desvelo...
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Mas o banho? Melhor fora não falarmos nele...
Ai que pândega que era esse tal banho!... Ela passava a manhã inteira preparando-o, afinando o apetite, podia-se dizer; e no banho se quedava horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira, espelhinho em frente, e em torno os cofrezinhos misteriosos, era a interminável tarefa de fazer-se bela, ora branqueando as faces, ora avermelhando os lábios, ora compondo o penteado. O esposo chegara mesmo a esta conclusão não muito lisonjeira: — que a companheira mais queria à água salgada do que a ele; — mas perdoava-lhe, — outros há que bem menos inocentes caprichos vão perdoando... — e nunca a sombra sequer dum arrependimento viera turvar a paz do seu viver.
Uma bela tarde, — tarde de banho por sinal — chegou o homem a casa, e, como se diz em português... cheio de fome. — “Tardará muito para a ceia? resmungava. Irá o banho em meio ou em princípio?” A esposa, é claro, achava-se invisível, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas japonesas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a enfiar os olhos para dentro. O caso é que ele espreitou. Surpresa! Horror!... Não é uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor dizendo — que nadava, em demoradas circunvoluções de regalo ao longo da tina, agitando mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho canções do mar, canções das praias...
Pobre marido! — “Ah! canta-me assim, exclamou ele, canta-me assim, grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com peixes, — lidas com os teus parentes, grande mostrengo!... — Melhor fora, sem dúvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas, feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com apetite os teus guisados, intrujona...”
A porta, abriu-se então e apareceu a esposa. Chorava, caíam-lhe as lágrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma resolução fatal. Falou assim, ajoelhando: — “Danna, meu dono, foi a sua benevolência para mim, um dia, extrema, tirando-me das águas, podendo fazer da minha vida o que quisesse, e salvando-ma. Trouxe-me aqui um dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenizar a sua soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha forma verdadeira, um bicho, um monstro que mete medo a toda a gente, compreendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o coração, mas pouco importa!... Danna, meu dono, adeus. Do céu lhe chovam bênçãos...” — E correu para a praia e desapareceu nas ondas.
Pobre marido!... Por um ato impensado, perdeu para sempre uma companheira carinhosa; e, como das núpcias com a sereia lhe resultava o dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martírio...
A fábula, segundo observa, e com critério, o autor japonês que consultei a tal respeito, oferece duas lições de alta moral. Uma é esta: a mulher que pretenda conservar um bom marido, deve cativá-lo pela barriga, isto é, pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado que o estômago é o órgão mais sensível, e porventura o mais grato, do homem, o rei da criação. A outra lição é a seguinte: o marido que deseje manter a harmonia do seu lar, nunca interfira na toilette íntima da consorte; porque, isto de damas, — com sua licença, — todas lá têm o seu rabo, ou escama, ou barbatana, coisa enfim que melhor é não seja conhecida, em proveito dos dois, e em conformidade com o código inédito do amor, capitulo Ilusões, artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus senhores.

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