11/27/2017

O cavalo branco de Nanko (Conto), de Wenceslau de Moraes


O cavalo branco de Nanko
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Isto aconteceu há cerca de mil anos, em terras japonesas: um cavalo, que o grande artista Kanaoka desenhara num biombo do templo de Ninnadji, perto de Kioto, era uma tão bela criação, cheia de verdade e palpitante de vida, que todas as noites se escapava do papel para ir galopar pelos campos em roda, culturas fora, devastando a esmo as sementeiras; e o caso dava-se, claramente, com magno espanto e raiva dos campônios, que o perseguiam à pedrada. Estes campônios, impressionados pelas formas incomparáveis do animal, persuadiram-se por fim de que ele não podia ser outro senão o cavalo de Kanaoka; e a persuasão converteu-se um dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as patas do travesso, úmidas ainda da lama fresca dos caminhos. Sem mais cerimônias, arremeteram contra a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.
Ainda outro cavalo de Kanaoka, que era mestre no gênero, cavalo desenhado numa parede interior do palácio imperial, tinha o vezo de ir devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a brincadeira quando alguém se lembrou de retocar a obra, amarrando o patife à parede com um pedaço de corda pintada para o efeito.
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Ora bem. De muitas maravilhas é sem dúvida capaz a mão inspirada dum artista!... Esses dois cavalos de Kanaoka, nascidos duma gota de tinta e de algumas curvas humorísticas de pincel, mas em todo o caso ungidos do sopro sublime do exímio mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se da tela, e aí iam eles!... Felizes boêmios eram e felizes tempos eram. Arte criadora, arte radiosa das épocas passadas, por que não vais tu regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas deste mundo?...
Nestes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não cessando de divagar no mesmo assunto de cavalos, confesso francamente a quem me ler, que nada me mortifica tanto como o espetáculo dos cavalos sagrados dos templos xintoístas. Ora aqui estão umas cavalgaduras bem autênticas, bem vivas, bem reais, de carne e osso; e que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional — mas não são, — por certo muito invejariam as simples criações no papel da mão de Kanaoka. Neste país japonês, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem num banho perene de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda a condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas linhas melancólicas que escrevo.
Se pretendo ser de certo modo compreendido nas divagações que vão seguir-se — e é óbvio que pretendo, — convém que me detenha um pouco, falando de templos xintoístas em geral. O xintoísmo, da palavra shinto (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarcal, das épocas remotas no Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buda que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O xintoísmo é a adoração pelo Sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da criação, pelas divindades protetoras, pelos gênios, pelos nobres, pelos heróis e pelos sábios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma dessas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco de pedra ou de madeira avizinhando do lugar, e como que indicando o caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanso dos pássaros; e assim ficamos já com uma noção primeira e delicadíssima na essência, aprendendo que no campo sagrado tudo é paz, tudo é remanso, pois que até aos pardais, cansados dos voos doidos que fizeram à aventura, se oferece um poleiro protetor onde descansem. Ao torii sucedem-se o amplo portal e o vasto espaço murado; e lá dentro, símbolos, alfaias duma religião toda de amor, são a paisagem graciosa, os jardins verdes, os bosques frescos, as rochas musgosas, os lagos quietos; aqui é a cisterna destinada às abluções preliminares dos crentes; ali são as monumentais lanternas de granito, esverdeadas pelos anos; além o nicho escarlate votado a Inari, raposa, Deus do arroz, não sei que mais, em todo o caso coisa muito santa; depois as construções ligeiras, de madeira nua, dispersas, e onde em dias festivos as donzelas do culto dançam ao som de estranhos ritornelos, ou silenciosos oficiantes abençoam as multidões, agitando sobre as cabeças reverentes um penacho de papel branco, emblema de pureza.
Nos templos mais faustuosos, não faltará outro acessório: o nicho garrido, a pequenina estrebaria, onde o cavalo sagrado mastiga eternamente a insípida palha do seu ofício. O deus, ou gênio do templo, tem o seu cavalo de estado; é justo. É geralmente um cavalito albino, de pelo branco e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa ideia de candura a tal enfermidade. O deus serve-se dele como entende; alguém, a quem pergunto informações do cargo, diz-me que é o Ó tsukae mono... assim como quem diz: o nobre moço de recados. Admitamos pois que faz em regra os recados do deus, o que é já muito, e um alto mister, e por isso é sagrado e tem honras de santo; e em lances difíceis, mais distintos serão ainda os seus serviços. Ardeu há meses um dos mais famosos templos do Japão, em Yamada; não sei que coisas do culto foram depois encontradas ao abrigo e longe do sinistro; — foi o cavalo que as transportou para lá. — É voz do povo que em Osaka, em dois templos de shinto, desapareceram os cavalos quando rebentou a última guerra com a China; — está-se mesmo a perceber que as almas desses deuses montaram nos ginetes para irem aos campos do inimigo, abençoar as tropas de Nippon. — Tais casos, porém, são raros, são raríssimos, nesta época positivista, tão escassa de milagres; e os cavalos brancos sagrados vivem e morrem amarrados à manjedoura, passeando uma só vez em cada ano, no dia da festa do templo, incorporados então triunfalmente à procissão, que percorre as ruas da cidade. É o encerro absoluto, é a constante imobilidade tediosa, sem mesmo as furtivas escapadelas dos cavalos pintados de Kanaoka. A palha abunda-lhes; acercam-se deles as crianças e as mulheres, que os adoram, e compram à velha, que por ali está cerca do estábulo, montinhos de feijões cozidos, que oferecem sobre as palmas das mãos rosadas, aos focinhos nostálgicos dos rocins.
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Eu conheço uns poucos desses brutos, mas tenho mais íntimas relações com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, célebre, dedicado à memória de Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.
No amplo santuário do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atrativa e frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japonesa passa, perpassa aqui; quem já folheou os álbuns de desenho de Hokusai, e neles se interessou, deve depois votar horas inteiras a esta história viva e flagrante do povo de Nippon; e assim completar, quanto possível, a noção que haja formado deste povo, um dos mais interessantes, e o mais simpático talvez, do mundo inteiro.
A gente aflui de toda a parte, daqui, dali, d'além... Junto ao portal, condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legiões de cabecinhas; a pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo a risos, vai-se entrando, ao som dum contínuo ruído de socos e sandálias, que se arrastam pelo lajedo ressonante. Na escuridão da noite, o recinto define-se a princípio como um negrume vago, complicado de sombras de arvoredo, cheio de gente e de miríades de luzinhas bruxuleantes. Depois os olhos habituam-se. Vai por aí fora, direitinha ao templo, a grande rua principal, bordada de árvores várias, lajeada; pelos lados espraia-se o labirinto das passagens, por entre os alinhamentos das barracas, das tendas, das quitandas, armadas de improviso, estiradas pelo chão; e é, à luz frouxa das lâmpadas, a exposição fantástica das cores, chispando em disparates como num campo imenso de caleidoscópio, correspondendo às mil indústrias que se estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, charões, porcelanas, cachimbos, ferramentas, utensílios domésticos, bolos, brinquedos, flores, plantas, tudo: a indústria inteira do Japão, se condensa, coalha em museu. Além algumas chayas vendem refrescos; as criadinhas convidam a turba a que se acerque. Mais longe, são os teatros populares, um cobre por entrada: — cães sábios, atletas, abortos, serpentes, panoramas; — ou a sala do hanashi, da palestra, onde um patusco entretém os fregueses, contando-lhes histórias. Num espaço mais livre, um sujeito com um grafofone, um dentista, um inventor de remédios milagrosos, discursam, explicam, profetizam.
O formigueiro humano ondula, alastra-se, sem desígnio, à aventura. As sociedades ocidentais nada nos oferecem de parecido. Isto, aqui, é a multidão, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como no-la apresentam todas as grandes tribos do Oriente; é o cardume de gente, retida na praça pública como o sargaço em mares tranquilos; aqui, quadro requintadamente gentil e sorridente, inconfundível, mas que ainda nos recorda as aglomerações da plebe nos templos de Cantão ou nos bazares de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em espírito vinte séculos, quase nos desdobra aspetos vividos, embora fugidios, da Jerusalém bíblica, nos seus magotes de homens vestidos de túnicas rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando os braços nus em gestos calmos e solenes.
Querer inventariar os tipos, fora insânia, — é a massa inteira popular despreocupada, risonha, gozando de viver. — Passam famílias, — o pai, a mãe, um filho preso ao seio e os outros pela mão; — ranchos de soldados e ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moços, alguns indo a caminho do bairro dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; mendigos; vadios; larápios; estrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que compraram, ou mordem em bolos ou em frutos. Aquela musumé fresca, vestida apenas do seu kimono de Verão, azul e branco, já vai de volta; e leva dependurada das mãozitas uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes pirilampos. Uma velha rejubila com o vaso de belos lírios que mercou. É aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se revela bem o mimo desta gente em jardinagem, — delicados arbustos, havendo merecido longos desvelos de cultura, seleção graciosa de florescências; — e é de ver-se o afã na escolha, o brilho dos olhitos cobiçosos, dos grupos em roda da exposição dos pinheirinhos, das cerejeiras, dos bambus, dos crisântemos, dos lírios, da wisteria. — O espírito simples, o desejo fácil de contentar, a puerilidade quase infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da mão industriosa, ressalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de cobre na bolsinha — e todos as terão, — pode comprar um objeto de arte; compra-o sem dúvida, e no júbilo da face transparece a alegria plena duma alma satisfeita. Dessa manifesta inocência de sentimentos, dessa psicologia alheia de complicações e de tormentos, deve em rigor depreender-se uma superioridade de raça, uma animalidade esplêndida e exuberante, muito distanciando-se da vibratilidade mórbida das raças exaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se adivinha na esbelteza dos vultos que vão passando, na flexibilidade harmônica das curvas, no jogo patético da mímica, na confiança serena com que o pé dominador pousa no chão. Feliz povo! Feliz povo de ontem, de hoje, e possivelmente de amanhã... Não é outra a conclusão sincera do nosso exame passageiro.
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No entretanto, a um canto, no estábulo garrido, boceja o cavalo branco sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha simpatia, procuro-o sempre, e passo quase horas inteiras, a vê-lo, a namorá-lo. Quantos anos terá de sacerdócio? Dez anos? Quinze anos?... Não lhe despertam zanga nem prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o olho azul mortiço, parece nada querer, nada sentir, nada sofrer e nada desejar. É quase de papelão, à força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, à luz, às cores, às músicas distantes, é insensível. Ao belo verde do arvoredo é insensível; pelos modos, não se recorda já das paisagens por onde espinoteou... O seu olho azul-celeste, vítreo, provavelmente míope, relanceia com a mesma apática frieza, as mil cenas do acaso; à gente que o encara, — ralé da praça pública, garotos, cavalheiros, acaso um general, acaso um conde, acaso um inglês de nobres pergaminhos, — vota a mesma indiferença irreverente que às moscas importunas que pousam, por enxames, sem que o comovam, na mucosa descorada da sua pobre focinheira. Só uma vez, presumo, o vi enternecido: relinchava uma égua algures, longe sem dúvida; levemente se lhe agitaram as orelhas, como se uma vaga reminiscência, penso eu, pelo bestunto lhe correra; e pareceu-me então ver o seu olho azul-celeste arrasar-se de lágrimas, pareceu-me... Às vezes, avança de bom grado a língua, a ir lamber as mãos das raparigas; por capricho talvez, e por hábito, porque são aquelas mãos que costumam oferecer-lhe, como óbolo piedoso, os feijões cozidos comprados à velhita que por ali anda, próximo do estábulo...
Eis todo o seu romance.
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E mais nada. Disse tudo. Se alguém, por mais curioso, quiser ainda arrancar-me o segredo desta minha estranha simpatia pelos cavalos sagrados dos templos de shinto, — tanto mais estranha simpatia, quanto é certo que não me acusa a consciência de jamais ter pertencido a qualquer sociedade protetora de animais, — aqui lhe ofereço, a esse alguém, a seguinte estupenda confidência. No Japão, se não erra o meu juízo, só os cavalos dos templos são tristes. Eles, e eu. Há entre nós misteriosas analogias; não gracejo. Após longos estudos da própria carcaça, acabo de concluir — imaginem o quê!... — que também sou albino. Não pela anomalia congênita da falta de pigmento corante da pele, dos cabelos e dos olhos, concordo; albino psíquico porém — não sei se me faço perceber... — albino na alma dolente, na vibratilidade exangue, na apatia da vida, após os mil baldões da sorte, e desfeita no ar a última bola de sabão das minhas ilusões. Do meu pouso, que comparo sem grande esforço ao estábulo de Nanko, assisto ao contorno das cenas e ao perpassar da turba; mas alheado de tudo, e esquecido até das saudades da paisagem serena onde vivi os meus primeiros anos. Alvoroços de afetos? amores? fazem favor de me dizer para onde fugiram essas quimeras aladas da minha pobre juventude?... Quando muito, como o cavalo de Nanko, mas ainda mais desinteressado do que ele, porque me sinto naturalmente excluído do quinhãozito de feijões que pode seduzi-lo, quando muito, se diviso essas musumés, com as suas mãozitas muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras: aqui, neste meio onde me vejo, são-me elas o emblema dos carinhos do sexo delicado; e incutem no meu espírito uma noção de paz possível, — aqui, algures, não sei onde, — no lar da família, quando abençoado pelos fados...

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