domingo, 5 de novembro de 2017

Ninho do curió (Conto), de Humberto de Campos


Ninho do curió
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Rosto em brasa, olhos vivos, cabelos alvoroçados, atravessava o Luizinho a praça do povoado, denunciando no desalinho das roupas, no fogo das faces, no susto das maneiras, a sua última travessura, quando, ao passar pela frente da igreja, foi detido suavemente, brandamente, pela bondade do padre Guilherme.

— Venha cá, ó Luizinho!

O garoto tremeu, desconcertado, e o vigário, homem de uns quarenta anos, insistiu:

— Venha cá!

Luizinho chegou-se, respeitoso, de olhos no chão e chapéu entre os dedos, e o sacerdote indagou:

— Então, por onde andou você, hoje?

— Eu?

— Sim, você.

O pequeno corou, envergonhado, e o padre, excelente pastor, pegou-lhe da mão, puxando-o para dentro da igreja.

— Venha cá; venha se confessar.

Um minuto depois estava o Luizinho, com os olhos muito espantados, ajoelhado no confessionário, a contar ao padre Guilherme o seu grande pecado do dia.

— Eu estive hoje na mata do outro lado do rio, tirando uns ninhos de curió... confessava o garoto.

— Ninho de curió? — estranhou o confessor, franzindo a testa. — Você não sabe, então, que é pecado tirar os ninhos das avezitas, roubando os pobres passarinhos ao conchego de seus pais?

Luizinho mantinha-se cabisbaixo, vermelho de arrependimento e de vergonha, e não respondeu. O vigário insistiu, porém:

— E onde foi que você achou esses ninhos de curió?

— Na ingazeira, junto do morro.

— E havia muitos?

— Havia, sim, senhor.

— Pois, não tire mais, não. É pecado, e pecado mortal!

Na manhã seguinte, após uma noite de apreensões aflitivas, ia o garoto procurar urnas vacas na outra margem do rio, quando viu, ao longe, o vulto de padre Guilherme, que se aproximava, cauteloso, da ingazeira de que lhe falara na véspera. Luizinho escondeu-se, de um salto, em uma das moitas das proximidades, e observou tudo. Padre Guilherme chegou, com o breviário nas mãos e nariz no ar, examinou, sondou, olhou para um lado, olhou para outro, e, como não visse ninguém, descansou o livro na raiz da árvore, endireitou os óculos e subiu. Momentos depois, assinalados pelo piar dos passaritos implumes e pelo voo das aves aninhadas, o servo de Deus descia da ingazeira, sustentando nas mãos os bolsos da batina, repletos de curiós.

Luizinho viu tudo isso, da sua moita, e não disse nada. Padre Guilherme apanhou o seu breviário e foi-se embora para a aldeia. Ele tomou, também, o seu varapau, e lá se pelo mundo ganhar a vida, até que, anos depois, homem feito, voltou, de novo, à terra do seu nascimento.

Forte, moço, querido das moças, ia, uma tarde, o Luiz pela praça da matriz, quando o detiveram pelo braço:

— Olá, Luiz, como vai?

— Oh! o Sr. padre Guilherme! — sorriu o rapagão, feliz.

E travou-se a palestra

— Então, veio à terra para casar, não?

— É verdade, sim, senhor.

O padre deu-lhe parabéns, mas, não satisfeito, insistiu:

— E a noiva?... Afinal, quem é a noiva?

Luiz encarou, firme, o reverendo, e trovejou:

— A noiva? Eu sou tolo, então, para lhe dizer quem é?

E, dando-lhe as costas, indignado:

— Pensa, então, que isto é ninho de curió?...

E afastou-se, resmungando.

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