sábado, 25 de novembro de 2017

Nós! Hein? (Conto), de Lima Barreto


Nós! Hein?

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Quando eu fui amanuense da Secretaria de... — contava-me um amigo —, certa vez aconteceu-me um fato bem interessante. Era tido eu como empregado vagabundo, relapso e, como particular, poeta e boêmio, de modo que eles me preteriam em toda a vaga de promoção que se viesse a dar. No começo, exasperei-me; mas, no fim, conformei-me, e fiquei ainda mais relapso e vagabundo. O diretor era o conselheiro Flores Teles, que vinha do tempo do Império: e também era, talvez, o funcionário público mais antigo da República. Não tinha faltas, nem licenças; era pé de boi. Entrava às dez e saía às três. Quando ele fazia anos, havia zumbaias na Secretaria: quando completava 45 anos de serviço — bumba! —, festanças, discursos; quando era aniversário de sua entrada na secretaria, festas; de modo que ele andava no noticiário dos jornais, durante o ano inteiro, e toda a gente pensava cá fora que fosse mesmo uma sumidade. Concorri várias vezes para a sua glória, pois mais de uma vez fiz-lhe discursos por ocasião dos seus variados aniversários; mas isso não impediu que...

— Engrossava? — perguntei eu.

— Talvez — respondeu-me o camarada —, mas não a ele, certamente a meu chefe de seção que era meu amigo: escondia-me as faltas. Um belo dia, o conselheiro que parecia não querer morrer, adoece e morre. Eu tinha deixado de ir à repartição, durante os primeiros dias de sua moléstia, porque sabia que não me seria descontado nada; mas cansando-me de vadiar, certa manhã cismei e fui. Despertei muito tarde e só tive tempo de lavar o rosto, mudar o colarinho e ir para lá. Entrei e, logo que penetrei nas seções, tive a impressão de que havia alguma coisa de anormal. Grupos de empregados cochichavam; outros estavam de luto fechado; o substituto do diretor, quando entrou, veio envolvido numa respeitável sobrecasaca e deu-nos bons-dias com uma cartola imprevista, na sua habitual modéstia. Soube afinal que tinha morrido o conselheiro e todos faziam roda em torno do seu imediato, lembrando providências: carros, coroas, comissão etc. Um lembrou: é preciso escrever alguma coisa no livro do ponto. É verdade, acudiram todos. Quem escreve? Lembraram o Dr. Aldovrando, bacharel tido como pessoa competente da redação de mensagens e outras difíceis peças oficiais; o Dr. Aldovrando, porém, excusou-se, porquanto tinha muito serviço. Lembraram em seguida o Dr. Samuel Ponte, cirurgião-dentista, que acabara o seu curso de medicina. Como o Dr. Aldovrando, o Dr. Samuel excusou-se porque não era dado a essas tolices e futilidades de literatura. Ele só cuidava de ciência e até hoje eu estou à espera dos seus trabalhos a tal respeito. Foi quando alguém se lembrou de mim, cuja disposição para isso era nenhuma. Acedi, sentei-me a uma mesa e redigi o rascunho. Reli, emendei e vi que a coisa não estava má.

— Como era?

— Não posso me recordar aqui, mas tenho a coisa num retalho do Diário do Congresso.

— Aí?

— É verdade. Explico-me. No dia seguinte ao do enterro, o senador P. solicitou da sua câmara a inserção de um voto de pesar, pela morte do conselheiro, fazendo dele, senador, as palavras do substituto de Flores Teles, na Secretaria de...

— Eram as de você, não?

— Eram.

— Engraçado!

— Você vai ouvir o resto.

— Ainda há?

— Há. Quando fui assinar o ponto, no dia seguinte, encontrei-me logo com o substituto de Flores Teles que foi logo gritando para mim: viste T., como nós fizemos figura no Senado. Nós! hein? Demos a letra!

— Que disse você?

— Eu?... Nada.

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