sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O alemão doido (Conto), de Virgílio Várzea


O alemão doido
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ele teria os seus cinquenta anos. Era direito e robusto, cara devastada pela miséria, onde se viam os sulcos que os esgares da loucura faziam. Tinha a barba e os cabelos encinzados de neve. Aparecia quase sempre nos sítios em busca de alimento, a implorá-lo pelos pobres casais dos lavradores, com palavras guturais, numa linguagem acre, pedregosa, que ninguém entendia, metendo pânico às crianças. E satisfeito e risonho com algum minguado quinhão que lhe entornavam nas mãos, partia logo, falando e gesticulando com fúria, a gargalhar estrepitosamente, por instantes, na linha acelerada da sua marcha descompassada e batida, desaparecendo, por dias, nas voltas suaves e floridas dos brancos caminhos agrestes.

 Havia já um ano que ele assim vivia, surgindo intermitentemente pelas estradas, lançando sustos às mulheres e rapazes, que fugiam num temor; às vezes manso, outras agitado, conforme o caso da sua nevrose, mas sempre inofensivo, respeitoso, muito amigo das crianças, gostando de as amimar, de correr sobre as cabecinhas louras e infantis, como numa carícia demorada e paterna, a sua mão calosa e rija.

Na existência agitada desse homem havia, talvez, a tenebrosidade de algum mistério, de algum desastre, porque, frequentemente, deram com ele chorando, sentado à porteira dos engenhos, à hora sombria e triste do anoitecer, quando para aí se encaminham as raparigas alegres e palradoras que vão para as farinhadas.

E assim ia vivendo, o pobre Pitter, entre o receio e a condolência pública, recebendo da imaginação popular cores fantásticas, salientando-se como um ser estranho, quase sinistro.

Às vezes, quando a pausa da moléstia dava-lhe a suavidade e a segurança do discernimento, procurava, para descansar, os ranchos de palha baixa e espessa, abeirados dos rios, que oferecem abrigo e tepidez de ninhos aos desgraçados que erram, sem carinhos e recursos, aos ventos gélidos que sopram pelo decurso desolado das longas noites de inverno. Mas, numa dessas ocasiões, foi agarrado de surpresa, altas horas, pela fúria demolidora, irresistível de uma tempestade, plena de fuzis e de trovões, que fizera transbordar o rio numa inundação devastadora, inclemente...

No outro dia, na serenidade límpida de uma tarde de ouro, dois pescadores que desciam o rio foram encontrar o corpo do alemão numa das brechas que a impetuosidade da torrente cavara fundo, nas barrancas: ali mesmo o sepultaram, socando-o a pés, sob uma indiferença de estranhos!

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E, ainda hoje, quem passa pelo lugar, olhando à direita, encontra um montículo de terra, estufado como um ventre cheio, a cobrir os ossos do pobre homem; mas nenhum sinal, nenhuma cruz! Entretanto, a alegria da vegetação, na uberdade do solo, dir-se-ia ter-se encarregado dos ornamentos da cova e a porção de grama alta que sobre esta viceja, num colorido vivo e cantante, lembra, decerto, o bando das esperanças que, outrora, na mocidade, tanto alentaram o coração do desgraçado Pitter, e que voltam agora a pousar-lhe piedosamente ali, para o acompanhar no túmulo, à zoeira melancólica das laranjeiras em flor, à noite, e às suavíssimas canções das florestas ao clarear das manhãs!...

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