11/11/2017

O festa da inteligência (Conto), de Humberto de Campos


O festa da inteligência

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Por especial deferência do Sr. ministro das Relações Exteriores, foi-me permitido, anteontem, nos "Diários", tomar parte, como diplomata, nas homenagens prestadas pela intelectualidade brasileira a Sua Majestade o Rei da Bélgica. Relegado para as filas destinadas aos jovens funcionários do Itamarati, não foi sem custo que consegui aproximar-me do local distribuído aos homens de ciências e de letras, cujos paramentos, tirados às sete cores do arco-íris, davam à solenidade um tom de magnificência, de luxo, de riqueza, verdadeiramente excepcional. Ao lado dos fardões acadêmicos, faiscantes de ouro, berravam o vermelho dos capelos, o verde das murças, o negro das becas, assinalando, no tumulto das cores, os catedráticos das Faculdades de Medicina e de Direito, os membros do Instituto Histórico, os doutores da Ordem dos Advogados. E como se não bastasse o aspecto magnificente das vestimentas, cintilavam por toda a parte as medalhas, os crachás, as condecorações de todos os países do mundo, como se tivesse caído sobre aquela assembleia de sábios uma luminosa chuva de pedrarias.

A atual sociedade brasileira, educada nos costumes igualitários da República, não pode ver, entretanto, a sério, essas manifestações suntuosas da vaidade humana. Deslumbrados com o que viam, os espíritos divagavam, tontos, sem compreender a legítima expressão daquele espetáculo. Dessa verdade lamentável, tive eu vários documentos, que me causaram a mim verdadeira indignação. A minha primeira desilusão foi à entrada do Sr. Barão de Ramiz Galvão, o velho e glorioso fidalgo do Império. Trajando uma casaca irrepreensível, o eminente educador trazia ao peito, do ombro à cintura, e de ambos os lados, todas as suas condecorações. Eram a da Rosa, do Brasil; a de Santiago, de Espanha; a da Ordem de Cristo, de Portugal; a da Legião de Honra, da França; a do Elefante Azul, da Pérsia; a de Estanislau, da Polônia; a da Ordem do Latrão, do Vaticano; e tudo isso no meio de passadeiras, bentinhos, cordões, amuletos, fitas, distintivos, medalhas e penduricalhos, obtidos em sessenta anos de discursos e magistério. À chegada do venerando professor, houve um deslumbramento; e o primeiro comentário, de uma senhora colocada nas proximidades do corpo diplomático, foi, logo, este:

— Meu Deus! Parece... porta de casa de brinquedos!

A entrada do desembargador Ataulfo de Paiva, da Academia de Letras, causou o mesmo pasmo, o mesmo espanto, a mesma admiração. Ornamentado com as suas dezenove condecorações, postas em destaque pela sua faixa vermelha de Cavaleiro de São Maurício e pela originalidade do seu cordão da Ordem do Dragão, da China, o ilustre magistrado estava deslumbrante. Sem perder a calma, o primeiro a registrar, com espírito, a sua situação, foi ele próprio.

— De onde vem, desembargador? — indagou, com graça, à entrada do salão, a Sra. Santos Lobo.

E ele, sorrindo:

— Da festa da Penha, excelentíssima!

Dentro, no recinto dos homens eminentes, destacavam-se, também, pela singularidade, os distintivos de Carlos Malheiro Dias. Antigo fidalgo da Casa Real Portuguesa o brilhante escritor vestia uma capa em vermelho e preto, semeada de comendas azuis, de crachás amarelos, de medalhas reluzentes, a emergirem de um oceano de fitas simbólicas, pertencentes a vinte ordens diversas. Ao vê-lo indagou uma senhora:

— Que capa é aquela do Dr. Malheiro Pias?

E a outra explicou:

— É uma capa... da "Revista da Semana", menina!

A impressão geral daquele público republicano, foi interpretada, porém, entre tantos episódios, por uma frase, ouvida por mim no termo da festa. Comprimindo-se com arte, apertando-se com elegância, empurrando-se com delicadeza, a multidão procurava a porta de saída, quando encontrei à minha frente um grupo de moças, no meio do qual ia um cavalheiro idoso, afogado até o pescoço na sua enorme beca de professor de Direito. Oprimido de um lado, empurrado de outro, o educador defendia-se aflitamente, quando uma das filhas lembrou, compadecida:

— Porque papai não tira... o dominó?


E o Carnaval caiu na rua.

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