segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O Ano Novo (Conto), de Wenceslau de Moraes


O Ano Novo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Temos festa hoje, aqui. Acaba o ano velho, começa o ano novo. Mas não vão imaginar que seja do ano novo de que rezam os nossos calendários, a comemoração; tal comemoração, aqui, no fim do mundo, no seio desta colônia nostálgica, passa insípida, quase sem alvoroços íntimos de família, limitada à troca banal — troca sem cedilha e com cedilha — de algumas dúzias de bilhetes de visita, com as competentes boas-festas escritas, da pragmática. Trata-se do ano lunar que finda, do ano lunar que principia, o ano chinês enfim, a ampulheta que marca para o povo amarelo as suas horas de existência; vamos entrar no ano XXII do reinado de sua majestade imperial celestial, Kuang-Su.
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Temos festa hoje, aqui. A alma chinesa manifesta-se, evidencia-se, domina, hoje; ofusca, pela grande maioria dos rabichos, o pálido reflexo da civilização do Ocidente que logrou chegar a este Macau, a este exíguo penedo asiático, onde Portugal implantou a sua bandeira.
Meia-noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de além dos bazares, o ruído da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações fundeadas no porto o clamor ovante das bátegas, vibradas pelas mãos rudes das companhas. Que irá lá por esses bazares, a estas horas, santo Deus!... Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas sugestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não há chapéu de coco de amanuense ou quepe de militar, direi mesmo chapelinho de pelúcia com laçarotes de cetim e seu competente pássaro empalhado, de menina, que não vá correr as vielas, perder-se na onda, confundir-se com os rabichos, gozar com eles. Mas está tanto frio, e as bagas de água zurzem-me tão desapiedadamente os vidros das janelas... E, pior do que isto, é o frio da alma, é a apatia enervante do meu espírito, é o sorriso amargo que me enruga os lábios, provocado por esse mesmo júbilo do enxame, que aqui me retêm e me impedem de também ir galhofar.
Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a daqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel, acendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas efêmeras, ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao público; frutos, flores, doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em prodigiosas teorias, em coloridos quase estonteantes; e é comprar, e comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanso, o único na China em que o camponês, o artífice, o vendilhão, todos, cruzam os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado, uma caixa de fósforos, qualquer ínfimo objeto nos mercados. As espeluncas de jogo, em galas desusadas, oferecem-se, tentam a onda; e até pelas ruas o tabuleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se apanha para a festa um acréscimo de pecúlio não esperado! O china adora o jogo — era preciso que ele adorasse alguma coisa! — mas hoje todos jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influência sugestiva das grandes maiorias; a mão mais circunspeta de funcionário, a mão mais mimosa de dama (de nhônha, em dialeto vulgar desta colônia) avançam sem pejo, arriscam à sorte vária umas pratinhas...
Quando bate meia-noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram papéis místicos, e se acenderam pivetes odoríficos; quando em plena rua um brado de aleluia os ecos acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvaziadas; e vai surgir um grande dia votado inteiro ao descanso, votado à glorificação dos deuses, cuja magnânima assistência se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que vão esperar-se!....
Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humanidade, ó pobre família minha, ainda mais nos teus regozijos e nas tuas esperanças, do que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este bando chinês com quem me encontro agora, que explosão de bênçãos lhe estimula a sentimentalidade? que altos benefícios comemora? O bando abençoa a sua eterna existência de miséria, a miséria passada, a presente e a que fatalmente vai seguir-se-lhe. Abençoa a labuta sem tréguas, em busca do punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar imundo, sem sombra de conforto; ora exercida pelos campos, nas várzeas, nas colinas, no amanho da terra, sob a opressão constante dos raios do Sol que escalda, ou dos frios que paralisam; ora exercida nos barcos, que se cruzam na podridão dos estuários, ou pairam sobre a onda adormecida durante as calmas tórpidas, ou se desfazem no escarcéu, quando os tufões rugem em fúria. O bando abençoa a fatalidade da sua condição social, o problema espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser, que em todas as depravações, em todas as iniquidades imagináveis, parece ir buscar as leis únicas por que se rege. O bando abençoa ainda as calamidades tremendas, que nestes últimos tempos, como uma maldição divina, têm pairado sobre a imensa pátria: — nas províncias do sul, nos seus centros mais populosos, é a peste, a peste negra, roubando em cada lar um ou dois filhos, ou o pai, ou a mãe, ou mesmo todos juntos, e vestindo de luto, de tristes roupas alvas, os parentes, e ameaçando estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma árvore de peçonha, donde emanará a cada instante o veneno subtil, destruidor das turbas; e, para cúmulo de infortúnio e de descrédito, um vizinho, um povo irmão, o povo japonês, invade, vence e desbarata a China, morde e come pedaços do seu torrão sagrado, envergonha-a, oferece-a ao escárnio do mundo na misérrima condição da sua plebe e na opulenta infâmia dos seus nobres, desprestigiada enfim, indefesa à cobiça das gentes, aos homens louros da Europa, que não tardarão em vir espezinhá-la. — Embora! esqueçam-se hoje as misérias, vista-se o povo em gala, chovam bênçãos sobre o ano que começa. E amanhã, decorridas algumas horas de folgança, recomecem, prossigam, — pouco importa! — os turvos dias de amargura, a fatalidade da existência no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna, a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, a venda das filhas a quem mais der, os horrores da prostituição, as vergastadas nas criadinhas, as extorsões dos mandarins, as torturas nos cárceres, a morte lenta nos patíbulos, a obra de destruição das epidemias e do ópio, as humilhações perante o vencedor, as exigências do Ocidente, as arrogâncias dos homens louros...
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Para o ano novo, tudo se prepara com antecedência, em prodigiosa azáfama; é para todos uma ocupação incessante e desusada, durante as últimas semanas do ano que vai findar. Lavam-se os covis, lavam-se as podres mobílias. É o pó dum ano que se sacode, é a lama dum ano que se deita fora, é o piolho e é a pulga dum ano que se afogam na onda das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a ideia de limpeza preocupou os espíritos durante um só instante. Tudo é providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda típica destas povoações chinesas, tão frequentemente visitadas por todas as pragas — cólera, peste, lepra, — embebidas no lodo dos canais, no ambiente das emanações dos estrumes pachorrentamente acogulados e dos despejos que apodrecem pelas ruas, custa a crer como a gentalha pulula, e como os consórcios frutificam em ninhadas de garotos; e parece à gente que um sopro qualquer destruidor, de calamidade imensa, irá em breve prostrar esses enxames, sem que deixe de pé um só vivente nos albergues. Puro engano: as povoações eternizam-se. No parecer de alguns investigadores, que tais exotismos interessam, se os miasmas pútridos convidam as epidemias a entrar e a vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam, estes mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores de amoníaco, de exalações corrosivas de fermentos, se encarregam de ferir também mortalmente os vírus mórbidos, poupando o resto do povo. Chegamos ao facecioso paradoxo de ser na China a imundície o purificador por excelência, um como que elixir de longa vida, indispensável a todas as famílias, feito da mais estupenda alquimia de dejetos.
Conceda-se pois, por exceção, a este bom povo celestial, o capricho de lavar uma vez cada ano o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de colar pelas paredes, pelas portas, pelas janelas, papéis de bela cor escarlate, com negras inscrições cabalísticas, que são votos de ventura e de riqueza, que são preces aos deuses. E chega a ocasião de se adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos gentis com água e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do complicado rito das usanças, algumas práticas enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gota de água do improvisado cativeiro; o povo compra-as, e vai lançá-las em seguida nas ribeiras, gozando na ação do resgate, por certo grata aos deuses, e que redundará em benefícios...

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