sábado, 4 de novembro de 2017

O chimpanzé marinheiro (Conto), de Virgílio Várzea


O chimpanzé marinheiro
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Na manhã hilariante de sol de um remoto Domingo do ano de 1880, o Vítor Vasques tomava o bonde da Saúde para ir à Gamboa, ao modesto mas carinhoso lar de uma família amiga cujo chefe, velho marujo aposentado, havia sido um dos melhores camaradas de seu pai nas trabalhosas viagens da Índia, quando, mal o veículo recomeçara a marcha, dois rapazes ingleses, robustos e de rosto escarlate, vestidos de branco e com altos capacetes de cortiça, assaltaram os balaústres sentando-se no banco em que ia. Reconheceu-os logo. Eram os filhos do ship-chandler Wilson que ele frequentara tantas vezes, aos domingos, no tempo do Colégio Naval, para, na sua grande paixão pelo mar, então em plena efervescência, fazer o conhecimento dos capitães britânicos e visitar os seus navios. Mas os rapazes, a princípio, nem repararam nele, absorvidos na sua álacre conversação em inglês que o Vítor compreendia, entretanto, por uma outra frase conhecida.

Iam a uma excursão marítima. Isto é o desejo intenso que o agitava de lhes falar, recordando os dias passados em que, uma vez por semana, partiam juntos, em companhia do velho Wilson, para idênticos passeios ou pequenos bordejos pela baía no seu veleiro cutter, o Mull, cuja alegre denominação lembrava ao antigo marinheiro a ilha querida onde nascera, na Escócia — levaram-no a não lhes tirar mais os olhos de cima, para que o vissem. Com efeito, instantes após, ao entrar o bonde a Prainha, os dois rapazes, voltando-se de repente no banco e vendo-o ali, romperam em exclamações de alegria, sacudindo-lhe as mãos fortemente, numa saudação afetiva. E depois de lhe perguntarem com carinho por onde andara que havia quase um ano não lhes aparecia, convidaram-no a acompanhá-los na excursão que iam fazer a bordo de uma galera inglesa, a Spring, que se achava ancorada em frente à praça da Harmonia e que, já de pano envergado, devia partir, dentro em breve, para Dublin.

O Vítor, a princípio, hesitou, entre as alegrias do lar que o esperava à Gamboa e o convite tentador que lhe faziam os rapazes. Venceu, por fim, o último. E os três entraram então, a confabular alegremente sobre coisas da sua vida passada, enquanto o bonde rolava ao trotar dos animais tilintando as campainhas. À esquina da rua do Livramento saltaram, dirigindo-se para a praça da Harmonia. Num marche-marche vigoroso, em pouco chegaram ao cais.

A imensa baía de Guanabara faiscava ao sol, por um retalho grandioso das suas águas, estreitadas aí numa curva de enseada, tendo à esquerda o cabeço alto da Mortona, à direita a vasta mole dos armazéns de madeira, com as suas pontes flutuantes coalhadas de velhas barcaças. Em torno ao pequeno trapiche gradeado, alguns botes do tráfego palpitavam na marreta amarrados às estacas, enquanto outros cruzavam fora, de terra para o mar, e vice-versa, por entre um cantar de remadas. A poucas braças de distância, sobre um pontão cheio de guinchos, uma barca querenava, deitada de banda, as vergas em verticais, mostrando o fundo de ferro todo em chapas escarlates. E para o largo, no ondular calmo das vagas que o nordeste arrepiava, uma infinita multidão de cascos, coroados pelo pinheiral dos mastros, nus das brancas velas saudosas, com os topes finos dos mastaréus suspensos, como entre lianas, na trama negra dos cabos...

Apressados e ruidosos, num alvoroço de jovens matelotes de outras idades partindo pela primeira vez para aventurosas viagens, a mente sonhadora cheia das lendas inefáveis das Sereias misteriosas enchendo de encantos e amores as solidões do alto mar — esquadrinhavam os três as águas em volta, em busca do escaler da Spring, quando um grumete de bordo, muito louro e de grandes olhos garços, surdiu de repente ao pé deles, dizendo a um dos Wilsons que o bote estava já atracado. Desceram então a correr a pequena escada da ponte, que as ondinas babujavam lá embaixo, em carícias espumosas, cobrindo-as de rendas de prata.

Prestamente, num tinir vivo de croques chocando-se ao longo das vigas pelo alto das estacas, o escaler vogador abriu rumo para o largo. E logo a singradura entrou a desenrolar-se, numa velocidade embalante, entre iates, patachos lúgares e barcas pertencentes a todas as Nações do mundo que ali mosqueavam as águas. Em pouco, na linha exterior de franquia, onde carregavam e descarregavam steamers, a Spring se desenhou, no seu alto casco verde escuro, proada às grossas amarras. Levando remos à distância, o bote atracou ao costado. Imediatamente, lá acima, ao portaló da galera, uma figura atlética de marítimo assomou, com um riso de bonomia na larga face escarlate, ornada de curtas suíças.

Os Wilsons, já de pé no paneiro, tirando os seus capacetes de linho, gritaram-lhe num alvoroço:

— Good morning, capitain Evan! Good morning!

E tomando o Victor pela mão levaram-no escada acima.

Feita a apresentação do amigo, que foi acolhido afetuosamente como os dois jovens ingleses, o capitão conduziu-os a todos para o amplo tombadilho do navio, onde se elevava a gaiuta envidraçada, a roda do leme e a bússola, faiscando como se fossem de ouro sob o grande toldo de lona. E, enquanto o Evans falava aos dois irmãos sobre os últimos preparativos da viagem, o Vítor, na sua insaciável curiosidade pelas coisas de bordo, ia observando já, de relance, o vasto convés da Spring. Ao subir a escada de salto, ao lado dos companheiros, uma surpresa deliciosa tomou-o, arrebatou-o de repente.

Uma rapariga alta e rosada, de formas ainda infantis mas exuberantes, toda atacada num fresco vestido de musselina branca, vinha caminhando para eles, com um andar balançado de ave marinha, um sorriso encantador na pequenina boca carminada e os cabelos soltos, esparsos densamente pelos ombros como um estranho manto de ouro. Era miss Clara, a filha do capitão Evans, que, desde o falecimento da mãe, havia três anos, em Dublin, acompanhava o pai nas viagens de longo curso pela América.

Apenas o Vítor fora apresentado à loura e celestial criatura, em cujos olhos transparentes de sable ele lia ainda a vaga amargura daquele longo triênio de orfandade materna, sentaram-se todos num dos bancos da gaiuta: e aí ficaram muito tempo a admirar o panorama arrebatador da baía, que miss Clara afirmava, numa voz ideal, de um timbre doce e melancólico, “era dos mais belos do Globo”.

Mas o jovem brasileiro, na sua preocupação de conhecer o navio, não obstante a atração irresistível da formosa rapariga, apenas esvaziara o cálice de conhaque que o Evans mandara servir, pediu-lhe para percorrer a galera, que lhe parecia um dos mais lindos vasos da marinha mercante inglesa, pelo menos dos que ele tinha conhecido até ali. Risonho e solícito, o velho marujo ergueu-se logo, encaminhando-se para a proa. O Vítor seguiu-o, acompanhado do Charles Wilson, que lhe servia de intérprete, enquanto o irmão, o Paulo, decerto fascinado pela peregrina beleza de miss Clara, ficava sentado ao seu lado, à sombra do toldo de lona, numa palestra afetiva. Depois de visitados minuciosamente todos os compartimentos do convés e da tolda, passaram ao salão da câmara, para onde desciam também, nesse instante, miss Clara e Paulo, ambos tão unidos e enlevados na conversação em que vinham que bem pareciam namorados.

Era à hora do jantar a bordo. A larga mesa retangular já se achava atoalhada, tendo ao centro um alto vaso cheio de flores, de onde se destacavam vivamente palmas de Santa Rita, cujas flores amarelas e vermelhas roçavam de leve os glass rak’s de madeira, onde se alinhavam em profusão cálices de cristal colorido, que faiscavam junto ao teto como um engastado gigantesco de topázios, esmeraldas e rubis.

Percorrida toda a câmara, que o Evans detalhadamente mostrava ao Vítor para bem satisfazer a curiosidade náutica do rapaz, sentaram-se todos à mesa. O despenseiro, um homem pletórico e de cara escanhoada, dando os últimos toques aos talheres e pratos, correu então para o tolda. E o capitão, na sua grande jovialidade, enquanto se não servia a sopa, dizia no Charles (que logo transmitia as suas palavras ao amigo) que daí a instantes o Vítor teria de experimentar uma grande surpresa, que lhe ficaria talvez como a “mais funda impressão” da sua visita ao navio.

Assim prevenido, o rapaz entrou logo a pensar em que consistiria a “surpresa” que lhe preparara o master, quando o despenseiro entrou, com uma terrina na mão, seguido de um estranho negro, de baixa estatura mas atlético, horrivelmente peludo, cujo enorme prognatismo, a boca rasgada e grossa, onde os caninos se mostravam colossais e ameaçadores, lhe davam um aspecto feroz. Vestido de zuarte, e com uma faixa escarlate à cintura, o homem apoiado a uma vara de pinho segura à mão esquerda e coxeando um pouco nas suas pernas em X, a um sinal do despenseiro, depôs sobre a mesa um prato travesso que trazia na outra mão, e imediatamente se foi colocar, a certa distância, por detrás do capitão, que o olhava a sorrir-se, mostrando-o com interesse ao Vítor.

Contemplando, assim de perto e pela primeira vez, aquele esplêndido exemplar de antropoide, o rapaz não se pôde conter e, esquecendo-se de que o Evans não o podia entender, gritou-lhe de repente;

— Oh! capitão! Isto é um dos nossos antepassados! Isto é decerto o chimpanzé ou o gorila do Gabão!

O master explicou então que era com efeito um chimpanzé. Tinha mais ou menos trinta anos. Apanhara-o havia quatorze, numa caçada, nas Montanhas Negras, de uma feita em que, desembarcado, fizera parte de uma missão científica a estudos naquela região. Nessa caçada experimentara uma das maiores emoções de toda a sua vida. A missão era de Edimburgo e compunha-se de uns vinte homens bem armados. Num dia de descanso tinham resolvido dar uma grande batida aos chimpanzés, que infestavam a floresta próxima e que, às vezes, à noite, desciam em bandos à planície onde estavam as tendas. Fora em plena mata, justamente à hora em que esses animais se erguem das suas camas de folhas suspensas aos grandes troncos das árvores. Os caçadores marchavam todos por um atalho que ia dar a uma clareira, quando nela repontou de súbito um bando de chimpanzés. Recebeu-os logo uma descarga cerrada de carabinas, ante a qual todo o bando dispersou, atroando a floresta com o seu conhecido grito gutural ― rrhô! rrhô! rrhô! Mas três ou quatro tinham ficado caídos e, entre eles, um, mal ferido, que tentava escapar-se aos saltos na espessura das ramagens. Fora uma luta para o agarrar, o que só conseguiram pela tarde, terminando assim a caçada. E esse era o chimpanzé que ali viam, o Black, como o denominara por causa da sua cor. Dera-lho o chefe da missão, porque julgara que o animal perecesse do ferimento recebido. Ele Evans conseguira, entretanto, curá-lo, e desde então ali o tinha a seu lado, como um moço de câmara trabalhador, álalo e sem pensamento, é verdade, mas já com um sentimento de piedade e ternura só próprio da humanidade...

Ao ouvir, pelo Charles, as últimas palavras do capitão, o Vítor, que começava já o seu preparo científico moderno, lembrou-se então das admiráveis descobertas da doutrina evolutiva, que o santo e venerando Darwin firmara, um dia, na bíblia da Origem das Espécies, com o seu poderoso, profundo e genial espírito de investigação e generalização, porventura o maior de quantos têm existido.

Mas o jantar terminara — e todos subiram para o tombadilho, onde foi servido o café.

A tarde caía serenamente, para os lados do oeste, em largas barras douradas. E este saudoso amarelo da luz, que já palidamente iluminava a cidade e mar, jorrava todo de um denso foco flamejante e de ouro, que o sol, na linha do horizonte, acendia ainda por trás dos altos píncaros amontoados da Tijuca, do Corcovado e da Gávea.

Então, achegando-se à amurada de terra, o capitão, os rapazes e a moça, num alegre grupo palrador, aí se quedaram algum tempo, a admirar os esplendores do ocaso.

Mas, de repente, o Charles Wilson lembrou que eram horas de deixar o navio. E todos três se despediram de miss Clara que, ao trocar o último shake-hands, para os ver partir, foi colocar-se tristemente aos balaústres de popa. O bom Evans, porém, acompanhou-os até o portaló, onde, dado o abraço de despedida, os rapazes desceram para o escaler, que já tremia lá embaixo na vaga, pronto a reconduzi-los ao cais. E, acomodados às bancadas, os marinheiros largaram.

O Charles e o Paulo Wilson, então, enquanto se armava remos, tirando os capacetes de cortiça, entraram a abanar para o capitão e a filha, que lhes respondiam vivamente agitando os lenços claros. O Vítor Vasques, entretanto, enamorado do belo casco da galera, não cessava de o mirar de alto a baixo, em todas as suas linhas, quando descobriu de repente, debruçado da borda, junto às enxárcias de proa, o vulto do chimpanzé.

O peludo exilado das Montanhas Negras, numa atitude pensativa e nostálgica, alheado de tudo, tinha os olhos pregados à ré, no tombadilho da Spring. Como horas antes na câmara, o coração torturado, quem sabe! por uma paixão quase humana, embevecia-se decerto na contemplação de miss Clara, que, postada ainda aos balaústres, ao lado de Evans, continuava a agitar para as visitantes que partiam o seu lenço de cambraia.

No entanto, o bote avançava na placidez das águas e, em pouco, o grosso casco da galera se sumia no meio dos outros cascos. Mas através da imensa teia de cabos e mastros, sob a cinza do crepúsculo, a alta balaustrada da tolda da Spring branquejava, e o Vítor via ainda vagamente o vulto do chimpanzé, na sua atitude pensativa, voltado para miss Clara, que, debruçada da borda, seguia o bote com o olhar, a cabeleira esparsa ao vento e rutilando como o disco fulvo de um astro.

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