sábado, 4 de novembro de 2017

Marujos (Conto), de Virgílio Várzea


Marujos
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O quarto das seis ia começar. Tinha tocado a sineta, e a sonoridade metálica da sua última badalada aérea prolongava-se extraordinariamente, ondulando no convés, sob as velas, e ecoando sobre a infinita amplidão das águas, com uma vaga e espiritualíssima vibração elegíaca, que sutilizava ainda mais os misteriosos eflúvios das ondas e a melancolia eteral das ave-marias. Já o sol desfalecera de todo sepultado no ocaso, e de seus funerais incomparáveis e assombrosamente pomposos de rei do Espaço e do Dia, só ficara a manchar ainda luminosamente o céu e o mar escurecidos, no ponto onde ambos se uniam, como uma gigantesca orla sulferina de semimortas lavas e brilhos, ou antes, um trágico e imensurável debrum de sangue flamante no fundo recuado e perdido do horizonte longínquo.

O capitão assomara então à larga porta da câmara que abria sobre a vasta tolda, e esta ficou para logo alumiada por uma tênue faixa de luz que jorrava do fundo, do farolim, já aceso, oscilando nos balanços, pendurado ao teto branco. Era um forte velho colossal, de uma ombratura de gigante, esse hercúleo lobo marinho, cuja alvíssima barba em colar e cujos pequenos olhos faiscantes, no rosto largo e leonino, de uma austeridade e energia invencíveis, sob o seu boné de feltro ou lona, faziam tremer os tripulantes quando o trovão da sua voz sugestiva e dominante estalava do alto por todos os recantos do navio, ordenando serenamente as manobras — fosse entre as calmas preciosas da Bonança, fosse entre o tumultuar desolador dos vendavais ou ciclones. Apenas lançara um geral e rápido olhar para a proa, tudo fotograficamente fixando de relance, na sua admirável retina iniludível — subiu a grandes e pesadas passadas o tombadilho e, ouvindo em silêncio o piloto que lhe entregava o quarto, foi até à gaiuta e tomando da ardósia encaixilhada encaminhou-se com ela para o farol de bombordo, a cuja luz escarlate pôs-se a ler o rumo e as ocorrências da última singradura andada. O marinheiro do leme olhava-o disfarçada e humildemente, atento agora de corpo e alma até para as nonadas da navegação, porque sabia que com aquele homem o mínimo desvio de guinada poder-lhe-ia valer uma acre ou borrascosa advertência, senão mesmo um pescoção. O piloto, descendo apressado a breve escada do salto, mergulhou logo no beliche onde, vestido como estava, se estirou de um só movimento e se afundou num sono de âncora em águas fundas e plácidas. Bendito o repouso dessa cansada alma de marujo que, apenas o sino voltasse a cantar, à meia-noite, ter-se-ia de erguer prestamente para a estremunhada vigília do quarto da alva, sempre tão áspera e tão álgida, tão custosa de passar!...

Mas a galera corria serenamente com o vento doce do largo, debaixo daquele céu noturnal, radiosamente picado do fogo etéreo dos astros como, à noite, pelas grandes festas católicas, se apresenta, picada do fogo das velas, a nave das catedrais.

Havia dezesseis dias que a terra se perdera de vista, popa fora, por um crepúsculo rosado. Daquele último porto de partida na costa da África austral até ao paralelo de 27º sul, onde nesse instante singravam, a rumo de noroeste — os ventos do quadrante oposto impeliram-nos felizmente com excelente viagem. Durante esses quase três anos de mar, em aventuroso giro ocasional de circunavegação, tocando nos principais pontos litorais dos quatro continentes — América, Eurásia, África, Australásia — sulcando todos os oceanos, em cruzeiros de comércio, nem um só dos dezoito tripulantes do bravo casco veleiro onde tremulava altivamente o pavilhão auriverde, tinha tornado a avistar sequer de longe, nas largas travessias atlânticas, os montes e costas das terras vizinhas da Pátria, quanto mais esta, e os seus arraiais, freguesias e cidades, quase sempre pousados dos seios ocultos de baías e golfos, fora da ampla visão do alto mar. De sorte que a nostalgia e a saudade dos lares, de que essas almas de heróis vinham carregadas e sobrecarregadas, aguçavam-se agora intensamente, irreprimivelmente, com os esplendores e calmas das duas últimas semanas andadas e com a proximidade alentadora e alegre das brasileiras plagas, a surgirem, em mais duas ou três manhãs, ou três tardes, sob o longo gurupés balouçante, à proa singradora da Águia.

E nessa deliciosa e feliz expectativa que lhes dera a voz prognosticadora, e raramente falível, do capitão, em matéria náutica, o qual, ao observar o sol nessa manhã, trovejara a sorrir: “Camaradas, daqui a dois ou três dias estaremos em casa” — nessa deliciosa e feliz expectativa, o coração de cada um começava já de se expandir e cantar, à primeira aura da incomparável ventura almejada, qual é, para o marinheiro, o santo regresso ao lar após longas e trabalhosas viagens. Por isso, todos, nessa noite em que o bom tempo timbrava em trazê-los com amor à terra natal, tanto quanto lhes permitia a folga da faina, ora suave, ocupavam-se em ir dispondo desde logo as suas coisas para o desejadíssimo desembarque, após as últimas labutas e lupas da amarração e ancoragem.

Assim, à proa, no interior do vasto rancho talhado em triângulo, cortado a beliches de alto a baixo contra as amuradas, os velhos marinheiros e moços de convés arrumavam as suas caixas de pinho pintado, à chama de ouro de uma lanterna suspensa a um dos pés de carneiro da escada. E, no meio de um cheiro de umidade salitrosa, alcatrão, lona e mialhar — cheiro agradável e higiênico, fundamente peculiar a todos os recantos de bordo dos navios à vela — palrando incessantemente, numa voz rude e grossa, enrouquecida em geral pelos ventos frios do mar, cada um dobrava a sua roupa, peça a peça, e acomodava com carinho os variados objetos destinados a presentes à família e comprados aqui e além, na viagem, em os portos onde haviam tocado. Entre fazendas em metros e roupas já feitas para os filhos, as esposas, as irmãs, as mães, os sobrinhos, os afilhados e comadres, avultavam as quinquilharias — sabonetes, espelhos, pentes, caixinhas de segredo, fitas, rendas, lenços, brinquedos, e, sobretudo, os grandes e pequenos registros representando a Senhora dos Navegantes, o Cristo, São Sebastião, Santo Antônio, São João. E reviam tudo isso miudamente, com enternecimento e afeto, citando o nome dos entes queridos a quem iam ser dados. Num grupo, aqui, dominava um homem de longas barbas e cabelos anelados já encinzados de neve, que hilarizava os circunstantes fazendo livres ditos marujos a propósito de um polichinelo de molas que se deslocava todo em piruetas macabras sob a guizalhada festiva das suas vestes variegadas de clown; num outro, ali, um marinheiro, pachorrento e artista, com uma doentia minúcia de operário chinês, dava os últimos toques ao casco e aparelho de um delicado e lindíssimo barquinho, que era uma admirável miniatura da Águia e que destinava ao filhinho mais moço, um que deixara ainda a gatinhar quando saíra para aquela viagem; num outro ainda, além, comentavam-se, a altas gargalhadas maliciosas, os berloques e vidrinhos de essência barata para as namoradas... Um belo rapaz, rosado e louro, ainda inteiramente imberbe, só e acocorado junto ao seu beliche, num recanto isolado, desdobrava e dobrava, lenta e cuidadosamente, com as suas mãos calosas e rijas, um corte de mole-mole: era noivo, e aquele seria decerto o vestido que a amada havia de levar, sob o véu transparente e a nevada grinalda de flor de laranjeira, no dia feliz do seu noivado...

Isto se dava no bico de proa onde estava a agente de folga e a de quarto embaixo. Lá acima, no convés, onde o vento lufava varrendo a imensa amplidão enoitada das águas e bojando as velas a um bordo, a cena era totalmente outra na vigília das singraduras, das viradas e das manobras náuticas.

À sombra do mastro grande, a uma das amuradas, à meia nau da galera, o gajeiro grande, um velho quase octogenário, contava aos oito moços da sua companha de gávea alguns fatos extraordinários dos seus longos anos de mar e, entre eles, o de um terrível naufrágio na Guiné, ao tempo do tráfico dos escravos. E dizia, na sua expressão rude e cortada de pragas, mas pinturesca e de uma larga verdade: “Aquilo é que era navegar, raios de Deus! com o perigo por todos os lados: se se escapava das lestadas, trombas e calmas arrenegadas do Golfo, tinha-se logo pela proa, ou pela popa, ou pela alheta, ou por um bordo, os diabos dos corsários, ou então os brigues de guerra ingleses que andavam ali para recambiar a negrada. E agora verás a inferneira das manobras, das viradas, das fugas e bordejos de não mais acabar, com a artilharia a roncar e a despejar fumo e balázios de levar bordas, panos e mastros pelos ares, quando nos não mandavam a todos direitinhos para o fundo do mar, a engordar os tubarões que não largavam a esteira do barco, aos bandões, como manjuba na costa pela quadra estival. Mas se não se podia fugir ou lutar, e se atravessava, e se ferravam velas, à espera que os tais ingleses ou corsários viessem por fim à fala ou encostassem, a coisa era ainda pior, porque os estupores carregavam o navio e companha e, depois de despejarem toda a carga no lugar de onde saíra, abandonavam tudo mais sem recursos em qualquer praia deserta da África. Fora por isso que o velho Sumares, de uma feita, pegado a carregar em Lahô, deixara amarras por mão e não podendo ganhar o mar largo — onde ninguém o vencia — meteu o Espadarte no cabo de Palmas onde a gente escapou por milagre, passando quase um mês a caminhar dia e noite pela praia para a Serra Leoa, todos já quase nus e a comermos mariscos ou raízes de mandioca crua para não cairmos em poder das hordas bárbaras do interior, que papavam gente como os tubarões ou os selvagens...

No entanto, os vigias de proa, a fim de sacudirem o torpor das longas horas vazias, na bela bordada feliz, sem faróis de outros navios a acusar para a popa, cantavam em coro uma das velhas cantigas marujas de outrora:

Que linda manhã de rosas
Levam os Nautas no mar;
Vão alegres, vão cantando
Ao som do seu navegar.

Mas a sineta rompera a badalar as doze. Era meia-noite, e o céu mostrava-se cada vez mais esplendorosamente estrelado. Ia entrar o quarto da alva. Em pouco, o piloto surgiu no tombadilho e retomou o seu posto ao cata-vento, enquanto o capitão, o velho lobo do oceano, por sua vez, agora, recolhia também a descansar.

Nesse último trecho da viagem, o moço piloto — um robusto rapaz de pouco mais de trinta anos — era o único que regressava à Pátria sem os grandes contentamentos que a todos alacrizavam. Entretanto fora ele sem dúvida um dos que mais satisfeitos e cheios de esperança partiram para esses grandes e lucrativos cruzeiros da Águia: e isto porque, estando noivo, ia arredondar um pecúlio de soldadas para, ao seu regresso, casar. Mas ao chegar a Padang, em Sumatra, um dos pontos certos do globo onde devia tocar a galera na sua volta ao Brasil — encontrara uma carta da madrinha participando-lhe a morte da mãe, havia seis meses, na sua vila natal. Era a última das viagens da galera nos mares da Oceania, pois que de Padang iria à Colônia do Cabo e daí — como sucedera — rumaria direito ao Brasil. Essa perda esmagadora, quando já de volta à Pátria, tornara-o estranho e indiferente para todo o resto da viagem, pusera-o de certo modo sombrio e desolara-lhe inominadamente a alma. Tal dor também empanara logo o brilho e alegria do seu próximo noivado, e esse sentimento não o deixava pensar mais noutra coisa que não fosse a santa criatura finada. E no instante mesmo em que entrava para o quarto da alva, era essa intensa ideia funerária o que estava ali apunhalando de infinita desolação e saudade. — Que triste, pela primeira vez (pensava), esse seu regresso à Pátria!...

Assim, apenas o capitão desceu para a câmara e foi rendido o homem do leme, o moço piloto foi encostar-se à balaustrada de popa e, deixando pender sobre as ondas a sua pobre e fatigada cabeça, quedou-se a chorar longamente, em silêncio...

Mas a gloriosa luz da manhã enchia já de róseos clarões triunfais o límpido azul do firmamento e as primeiras gaivotas da pátria surgiam, esvoaçando alegremente em torno aos mastros oscilantes da Águia.

No outro dia, pela tarde, a galera fundeava no porto, após dois anos e oito meses de longas mas rendosas viagens ao longo de todos os continentes e através de todos os mares do Globo.

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