domingo, 26 de novembro de 2017

O diplomata dos símios (Conto), de Lima Barreto


O diplomata dos símios
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A quem atentamente observa a vida humana e a compara com a dos outros animais que vivem nas proximidades, uma coisa surpreende. É a sociabilidade, essa espécie de convergência de cada indivíduo para a vida de um ente semelhante que não se vê. E por depois de vê-los assim, agitados e egoístas, mesmo sabidamente inimigos dos outros mas tendendo para o total deles, põe-se a inquirir — por que tal coisa não se dá também entre os elefantes, as galinhas, entre os cabritos, entre os macacos?

Se o animal homem tem qualidades superiores a esses, tem também excepcionais defeitos, superioridades que saltam aos olhos do menos sagaz. A inteligência, longe de um dado do indivíduo, é uma experiência da sociabilidade, é mesmo a aquisição posterior e que se aferiu lentamente com a vida social. Todas as razões dos seres humanos nasceram com um mesmo grau de inteligência, e em um útil encadeamento de vários indivíduos fizeram-nos grandiosos, e se a inteligência apareceu mais cedo nesse ou naquele foi porque os laços racionáveis não se frutificaram mais nesse que naquele. Condições muitas trabalharam para isso.

A inteligência não é nem foi, é um meio e um meio de fora. Os dados climáticos nos quais a espécie humana apareceu foram-se, e a célula humana teve artificialmente que obtê-los.

O traumatismo que operou a sociabilidade humana, num dado momento começou a influir sobre os macacos de uma ilha esquecida da Malásia.

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