domingo, 26 de novembro de 2017

A vingança (Conto), de Lima Barreto


A vingança
(História de Carnaval)

 Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Por ser sábado véspera de Carnaval, a roupa a lavar, fora retirada mais cedo das cordas estendidas pelo pátio da estalagem em fora...

D. Francelina, moradora à casinha 7, muito ocupada em arrumar as camisas e punhos dos seus fregueses, de costas para a porta da rua, não vira que seu filho Zeca entrara-lhe pela casa adentro sobraçando um embrulho guizalhante e um outro, com rasgões no papel, por onde saíam recurvados chifres e uma formidável língua vermelha, adivinhando-se por aí uma horrível máscara de diabo.

D. Francelina continuava a arrumar a roupa quarada na cesta e a cantarolar uma modinha nova. Zeca começou a desembrulhar os apetrechos carnavalescos. Sobre a humilde mesa de pinho, agora estende-se uma rubra vestimenta de ganga rala e uma máscara apavorante de olhos esbugalhados, língua retorcida e chifres amedrontadores, tão amedrontadora era ela assim que se o próprio diabo a visse correria.

D. Francelina, ao seu doguzio, volta-se e dá com a travessura.

— Zeca que é isso?

Uma suspeita dolorosa lhe vem:

— Onde você arrumou isso? — pergunta severa.

— Não... Mamãe...

— Você roubou, Zeca... Oh! meu filho! Pobre, sim, mas ladrão não! Onde você arrumou isso, Zeca?

— Foi seu Chico, mamãe — respondeu a criança em voz de choro.

— Que Chico?

— Seu Chico... Aquele que gosta de dona Noêmia do no 14, mamãe!

— Mas por que ele te deu isso?

— Eu quem pedi...

— Ele te deu todo o diabinho?

— Deu-me só a mascara, a roupa comprei-a eu.

— Com que dinheiro?

— Desde junho do ano passado que eu ajunto, mamãe.

Zeca está agora mais sossegado e a mãe passada a suspeita de furto aprecia a aventura com a máxima indiferença.

— Mas para quê? Para essas porcarias de Carnaval; antes você tivesse comprado umas camisas. Dinheiro só se deve gastar em coisas necessárias, não nessas bobagens. Você precisava?

— Sim... Eu não lhe contei. O ano passado eu passei na casa de um doutor lá das bandas do largo de segunda-feira. Eu ia só, sabe, mamãe. Levava a marmita a dona Filomena... A senhora não se lembra quando estive empregado na pensão?

— Lembro-me.

— Pois bem; foi nesse tempo. Eu levava a marmita, os meninos do doutor estavam na porta e quando passei se puseram a gritar: “Seu mouco, macaco”. Eu tive uma raiva, mamãe, que a senhora não imagina.

— O que você fez?

— Nada... Que havia de fazer? Continuei meu caminho e jurei me vingar.

— !?!

— Por isso juntei dinheiro, arranjei a máscara...

— E o que você vai fazer agora?

— Passar por lá, pela casa do doutor.

— Para quê?

— Para meter medo nos meninos.

— Tolo — fez dona Francelina continuando muito resignadamente a arrumar a roupa de várias famílias conceituadas.

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