domingo, 26 de novembro de 2017

O jardim dos Caiporas (Conto), de Lima Barreto


O jardim dos Caiporas
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Deveras, seria uma coisa extra que alguém quisesse encontrar na nossa Terra um jardim de felizes — as coisas andam tão ruins! Mas em todo o caso, um amplo jardim de desgraçados, nessa bem fadada Terra, onde não há misérias, nem se deve cogitar uma questão social, é estranho! Eu o achei a 13 de junho, às três e meia horas da tarde.

É uma efeméride, cuja importância não me cansarei de encomiar, e, depois da descoberta do Brasil creio que outra maior não há, digna de ficar na memória do nosso povo.

Jaz... (quase descendo no diminuir comum dos geógrafos e dos pilotos de navio).

Deixemos as coordenadas geográficas em paz.

Atravesso uma ponte. No primeiro banco, à direita, há um indivíduo.

— Boa tarde!

— Boa tarde!

Assim nos cumprimentamos. Como se me convidasse, aconchegou-se melhor no banco, deixando espaço para três da minha pessoa sentadas.

— Gosta das árvores, coronel? Acolhe-se aqui para apreciá-las.

— Qual!

— Por aqui a paisagem toma aspectos mais delicados, já houve um escritor que, por estas paragens, encontrou uma digna de álbum: uma torre esguia a surgir entre grimpas de árvores... E acolá olhamos.

— Poesias, poesias! Ou não cuidamos seriamente em coisas práticas, ou cuidamos em poesia, futilidades. Veja só como estamos: não há indústria, não há governo, não há exército. Veja só essa história de oficiais franceses. No meu tempo quem se lembrasse disso era arcabuzado. Fizemos a guerra da República Oriental, do Paraguai, e não precisamos desses instrutores.

— Mas o Bausso era português, e o velho Mallt.

— Ora, exceções, demais estudaram aqui. Eu que o senhor está vendo, e que me conhece, não me encontra em lugar nenhum, fujo das relações e quando o gosto do ar livre me apoquenta, recolho-me aqui e fico a olhar.

— Sinto é não ter dinheiro para fugir daqui, ir pra bem longe, e se já me reformei foi por isso, deixei o campo livre a esses idiotas que me guerreavam. Viu o senhor só, fulano como saiu e beltrano e sicrano e mais nomes ele citava criticando-os em azedume. É verdade que eles estão generais, marechais, senadores, e eu, eu! e empregando um estilo ameno, compósito, barroco, tentemos atrair a atenção dos leitores fatigados.

Por uma dessas tardes frias de inverno, em que o sol macio cora

voluptuosamente meigos raios através da satisfeita folhagem das montanhas, cobre com um véu translúcido o casario dos vales, entrava eu no jardim, exuberante de sonhos, sonhados durante cinco horas e meia durante as quais estive mergulhado num mar de papelório de quando em quando agitado pela emoção das ordens breves e secas dos múltiplos e infinitésimos estadistas que um qualquer ministério tem.

Caminho vagaroso pela alameda clara. Não há grandes árvores em começo. Um vasto gramado afunda-se e ergue-se além no mesmo nível. É uma vasta bacia verde. Ando. Agora, renques de árvores plantadas ensombram o caminho. Os animais, familiarizados na sua carreira, se atrapalham por entre minhas pernas.

O meu capitão reformado e coronel comissário tinha aos poucos deixado cair um pouco de sua alma, mas percebendo que havia alguma malícia no meu olhar, replicou:

— Não é que eu os inveje, não, muito ao contrário, sei em que terra vivemos.

Acompanhando-o com o olhar, vi-o desaparecer no fundo da alameda. Zagiboso, animando a bengala, o passo traído deixava quieta a sobrecasaca anciã de abas curtas e debrum. Ao fundo do ambiente verde-escuro, o seu rosto bronzeado em cabelos amarelecidos, ao se voltar, olhava com uma expressão azeda, dorida, amarga o jardim de um todo: era como um fauno triste despeitado que enchia com seu gênio a quieta placidez do parque. E como a mitologia grega me falhasse, apelei pra o manitô dos selvagens, era o Caa —...

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