quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Mistério da Árvore (Conto), de Raul Brandão


O Mistério da Árvore
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Esgalhada e seca, enorme, os seus frutos eram cadáveres ou corvos. Ninguém se lembrava que ela tivesse dado folhas nem flor, a árvore enorme que havia séculos servia de forca: ninguém se deitava à sua sombra e parece que nem o sol lhe dava, estarrecida e hirta, a árvore enorme que havia séculos servia de forca.
Em frente ficava o palácio real, construído dum bloco de pedra negra, que o mar bravo batia, e só o rei se pusera a amá-la, pois que ela era igual à sua alma, nua e trágica, a árvore triste que havia séculos servia de forca...
Que doença estranha, vagarosa mas tenaz, matava o rei?... Só amava os crepúsculos, agonias de luz, o passado, e a multidão silenciosa vinha vê-lo, ao findar da tarde, de cabeça a escaldar encostada aos vidros das janelas, sem desejos, o olhar perdido em quimeras, imaginários países, onde tudo são agonias, águas quietas, espectros de árvores esgalhadas. Tudo o que era moço e vivo fugira do palácio, porque o rei aborrecia e mandava punir a mocidade e o amor. Só o mar ainda o prendia ou a árvore negra, desde séculos seca e estarrecida, a árvore maldita que no seu reino servia de forca...
Pusera-se a odiar os felizes e os amorosos, na raiva de não ser moço e forte. Às noites, no silêncio tumular do seu palácio, nos corredores, onde os seus passos ecoavam, tinha desesperos, torturas de não poder amar as lindas mulheres de carnes de camélia, frias e lácteas. Erguia os braços numa súplica, sozinho, porque não queria ver ninguém, babujava, caía no ódio à mocidade e ao amor. Fizera-se assim invejoso e mau e por vezes já mandara matar criaturas, que se amavam...
Sucedeu que veio a primavera e todas as árvores, ao seu hálito, estremeceram e se cobriram de floração. Havia pequenas borboletas que nasciam do sol, pedaços de luz materializada, e dois amorosos, vindos de países lendários, perderam-se também, naquela terra praguenta, erma e bravia... Ela era grácil, envolta na poalha dos seus cabelos, com risos infantis. O mendigo, apenas vestido, era feliz e esbelto, preso no seu olhar. E assim vieram enlaçados, com a primavera, cobrindo todo o país árido, que calcavam, de vida e de amor. As macieiras dos quintais deitavam galhos fora dos muros e pequenas flores esvoaçavam pela sua nudez: os poentes no mar tinham cor, púrpuras e ouro em brasa...
Só o rei no palácio trágico vivia braço a braço com a dor. A vida, a luz, as árvores lembravam-lhe a sua miséria e enojavam-no. Queria que todo o país fosse negro e viúvo; e o amor que ele sentia correr na terra, a morte até, que tudo transformava e enchia de vida, lhe parecia uma abominação. Deitava-se no chão e a terra era uma noiva, os montes, seios duros, as árvores, cabelos ao vento. Sentia-a palpitar amorosa e, num desespero, fugia, para não pensar, sozinho no seu palácio construído de pedra negra e cuspido pelo mar raivoso...
Ficava então horas de olhos fitos na árvore. Como o rei ela era seca e hirta, negra, e os seus frutos cadáveres ou corvos, a árvore trágica que havia séculos servia de forca. Tudo à volta se transformava, amava, se cobria de floração: só ela ficava estarrecida diante da vida e do amor.
Um dia o rei soube que dois mendigos felizes tinham entrado no seu país e mandou-os logo prender. Havia já noites que ele os sentira em tudo: nos espinheiros em flor, nos sapos dos caminhos, que pareciam extáticos, nas coisas que queriam falar e estremeciam, na noite que trazia até ao palácio murmúrios, no vento que atirava para o castelo construído num só bloco de pedra negra, galhos de árvores luminosos, cheinhos, dir-se-ia, de geada. Punha-se de ouvido à terra, e a terra, a noite, o mar tinham vozes confusas, que ele entendia e o enfureciam.
Quando vieram ao palácio, trazidos por soldados, com eles entrou um bafo procriador, luz, sol: cheiravam a árvores, à erva e à lama dos caminhos, húmus, que traziam pegada nos seus pés feridos. A vida rompera por aquele túmulo dentro e, pois que iam morrer, dir-se-ia que a morte, em lugar da foice simbólica, trazia nas mãos um galho de árvore onde batia o sol.
Raivoso, o rei não lhes perguntou nada. Olhou-os odiento durante minutos e depois fez um gesto aos carrascos, que logo se apoderaram deles e os arrastaram. Os mendigos sorriam, alheados, lindos, cobertos de erva, de terra: cheiravam a árvores, a sol e à primavera. Enlaçados, olhavam-se e parecia que eles eram, um a vida, outro o amor.
Noite negra e o rei subiu sozinho ao terraço. Restos de nuvens, restos de mantos enlameados, arrastavam-se pelo céu. A árvore estarrecida e hirta, onde os dois mendigos haviam sido enforcados, mal se via na escuridão; mas de lá vinha um frêmito, a sua agonia talvez, e uma claridade, os seus vestidos decerto... Toda a terra lhe parecia uma podridão a fermentar: ouvia murmúrios, gritos de amor. Se as árvores falassem, se as árvores e as coisas dissessem tudo o que sabem!...
Encostado à muralha passou a noite absorto. As nuvens galopavam, o grasnido dos corvos na árvore afligia-o: só ele diante da vida ficava seco e inerte... Por que não iria ser macieira, mendigo, húmus? transformar a sua dor em felicidade? ser humilde e beber o sol, ir alegre na aluvião da vida? Oh como ele odiava a mocidade, o amor, lábios que se beijam, a emoção!... Só a árvore esgalhada e seca o prendia ainda, a árvore sinistra que no seu reino servia de forca.
Ficou até de manhã, d’olhos postos nela, sua igual, triste e estarrecida, sem amor e sem vida, negra como as ideias que ele tecia, da secura da sua alma, a árvore enorme que no seu reino servia de forca... Começaram os cerros a ter tintas violetas, as árvores a azular-se, e a forca, em que ele agora se absorvia, a erguer-se dentre a névoa, a árvore que havia séculos, não tinha seiva, esgalhada e negra...
Súbito ficou petrificado, de olhar fito na árvore, que aquecida com o imortal amor dos mendigos, tinha um galho, aquele em que os dois pendiam enforcados, cheinho de flor. Toda de negro, hirta e má como uma praga, deitara um galho que enternecia, tão coberto de flor, ideal noivado, a árvore enorme que havia séculos servia de forca. Nos seus galhos tinham sido enforcados tantos desgraçados, as suas raízes para sempre secas pelas lágrimas dos que choravam: tolhida pela dor dos justiçados, não bebia água, nem sugava húmus. Vira passar reinados, homens, primaveras, sem se comover, negra e arrepelada como uma mão a amaldiçoar a terra e o castelo. Assistira a transformações do solo, a cataclismos, a tempestades e a guerras, a ambições e a sofrimentos, e sempre morta, petrificada, negra como uma cova — e naquela noite, aquecida com o amor de dois mendigos, a árvore deitara um galho, um único, mas cheio de flor, adorável, como se nele se concentrasse toda a paixão, a primavera e o noivado da terra — a árvore maldita que desde séculos servia de forca...

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