quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Corvo (Conto), de Fialho de Almeida


O Corvo
Aos primeiros clarões da manhã, o casco do galeão tinha-se afundado inteiramente.
Para qualquer lado que se olhava, o mar não tinha termo; o céu ia coberto duma bostela de nuvens cor de chumbo, mosqueada de fulvo, que se fora erguendo duma banda, erguendo até descobrir sobre a linha do mar uma fímbria d’alva muito pálida, por onde a luz começou a esclarecer de manso o plaino líquido. E esse plaino amainava e começara a perder os vagalhões…
Sobre as águas se erguia, à maneira de torre, um grande ilhéu bronco e tisnado. Era uma massa de fortins dentada toda em roda, por cima de cuja plataforma outras moles gigantes se aprumavam. E havia pórticos, recantos, pátios, levadiças: a ressaca bramia nos recôncavos da rocha babugenta; por cima as nuvens galopavam, embebendo os goelanos e os corvos marinhos do seu chorume glácido e mortal.
Mas que silêncio! A tormenta da noite esfalfara a seu turno os elementos, e do galeão perdido nada restava mais do que um cadáver d’escravo, flutuante de bruços, pela água — tísicas as pernas, os ombros ressaindo em bola sob o esforço dos deltoides que a agonia paralisara na sua derradeira contratura, e a cabeça tão baixa e metida n’água, entre as espáduas, que esse cadáver dir-se-ia havê-la perdido no cepo, sob a machadada certeira dum carrasco.
Entanto a madrugada tocava de lividezes frias a epiderme corrugosa das águas, à medida que as nuvens se erguiam do oriente, pondo na linha d’água uma grande boca de claridade. Essa boca escancarava para dentro duma noção de deserto e d’infinito, sem uma sombra, sem uma vela, e toda ululante, desse soturno troar que vem do fundo do oceano, como a imprecação de todos os milhões de seres que ele afogou.
Crescia a luz, e as nuvens se iam, lentas e cansadas, para outro hemisfério talvez, descobrindo os mares. E os rochedos do ilhéu, se por um lado desciam na paisagem, do seu prestígio fantástico, nem por isso ficaram menos lúgubres, com as suas grandes arestas medievas, e as suas proporções de sepulcro e pedestal.
De roda, as águas batiam-lhe de través os flancos carcomidos, com uma raiva que parecia insistir na proporção da inutilidade do ataque. E ao largo, por todas as bandas, não se viam senão brilhar palhetas finas na orla das ondas, umas após outras, correndo, e resolvendo-se alfim numa babugem d’espuma efervescente.
Mau grado o aspecto pacífico, aquela imensidade era sinistra: tintas de cólera passavam às vezes, como maus pensamentos, por baixo da epiderme glauca do oceano; via-se então escancarar covas na água, brotar um braço da espádua duma onda; e o eterno marulho abrir um eco, que estrugia metalicamente em cada palheta, e acordava no teclado das ondas o mais desconforme coro de rancor.
Sobre uma crista de rocha estava um corvo, um corvo-marinho, velho e calculado, cujos olhos corriam o mar à busca de sustento, e cujos lentos meneios traíam na extrema prudência, a sagacidade cruel dos pássaros cobardes, a quem a luta repugna, e que se ingurgitam só de podridão. Tinha as patas fincadas no fraguedo, as asas lassas pendendo ao chão, como se estivessem decepadas, e avançara o pescoço como quem fareja, estralejando o bico à guisa da matrácula. Como era enorme, o vulto dele, naquela postura de caça, tinha um selo diabólico e maldito. Era ainda noite, já o corvo tinha lobrigado o cadáver do escravo à tona d’água, e estivera a espreitá-lo dali, do seu reduto, partilhado entre a voluptuosa sensação da carne podre, e o pavor d’avançar sobre uma presa suspeita, que ele não via bem se vivia ou estava morta.
E de cima da rocha o seu olhar espiava dum lado os outros corvos, e doutro lado o flutuar do corpo, cada vez mais dobrado, e que dir-se-ia lutar contra o impulso das ondas, para fugir às voracidades da ave impassível e satânica.
Do seu pouso elevado enfim o corvo veio descendo, em pulos mansos, aos contrafortes mais baixos do rochedo, em cuja babosa escarpa vinham partir-se os cachões da ressaca.
Aqui se detinha um pouco a olhar de lado a presa cobiçada, além se deixava escorregar pelas salsugens marinhas, recuando aos repoupos, com um pavor cobarde, de cada vez que a vaga vinha marrar com o negro à penedia.
Houve um momento em que o refluxo das águas, mais forte, desviou o cadáver do ilhéu, cerca duns metros, tomando-o nas curvas dum remoinho brusco que depois o arrojou furiosamente, para uma distância além da penedia.
E isto assolou o apetite sinistro do pássaro, cujas asas se abriram de repente.
De manso, ao rés d’água, sem um grasnido que aos outros desse alarme do nefando repasto, começou ele a voar, numa espiral frenética de gula, que descia e subia, em voos de seta, e tocava ao de leve a carne do cadáver, fugindo, voltando, até lhe ferrar de raspão a primeira bicada.
Sem receio de rivais, aquele funéreo festim haveria parecido à ave delicioso. Mas era evidente que o ciúme de partilhar o banquete o desesperara, e desta vez o corvo tinha pressa em chegar aos bocados saborosos.
...Aí começa uma luta entre o corvo que pula sobre as espáduas do escravo, a ver se o volta, pra lhe sorver os olhos, como regalo primeiro da orgia perpetrada, e o cadáver que se defende à injúria, ocultando cada vez mais a cabeça sob a água, e deixando os braços oscilar, como duas inúteis e inertes barbatanas.
Por muito tempo esta manobra prossegue, e à medida que avança, a impaciência da ave vai num crescendo de cólera inarrável. Ela abre as asas, ergue-se um instante no ar, para cair depois a todo o peso, sobre um ombro do náufrago, a provocar oscilação que lhe desloque o corpo daquela postura passiva de defesa. Ela lhe rasga as carnes com as cortantes lâminas do bico, que se crava mais fundo, e mais, cada vez mais, na proporção da certeza que tem na impunidade. Mas tudo é inútil. O negro lá continua de bruços sobre as ondas, hirtas as pernas, o cavername do tronco abroquelado em glaciais musculaturas, os ombros sempre unidos, a cabeça debaixo do peito, como em vivo fizera, quando o chicote do amo lhe arava as carnes, delas fazendo suar martírio e sangue. De roda, tudo agora se alarga sob o coral de luz que a manhã canta.
As nuvens foram-se: o sol rebenta final à boca do grande deserto d’água, e pacifica-lhe as fúrias coas refulgências geniais da sua claridade. E nada é mais doce do que esse murmúrio sem fim das grandes águas, horríssono ainda há pouco, agora lírico e profundo, como o põem entoado pelos efebos, na terra helena, depois duma batalha.
Só o corvo prossegue na sua tarefa exaustinada, e imagem do ódio, ei-lo armando em força a cobardia, requintando a vingança, tripudiando sobre a impunidade — como esses vencidos que se desforram da humilhação sofrida, indo aos cemitérios esbofetear os cadáveres dos vencedores.

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