quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O molho de lenha (Conto), de Virgílio Várzea


O molho de lenha

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Desde meia tarde que o Manuel Felismino batia o campo atrás do Russilho, um belo animal que trocara havia semanas nas Aranhas, pelo seu Alazão. Em camisa, chapéu de palha à nuca, calças arregaçadas, uma corda de embira no braço, e numa das mãos um punhado de milho verde que agitava para os animais pastando ao longe, percorrera tudo embalde para os lados de baixo — o rio do Brás, a Tiririca, as Piçarras. Tomava para cima, em direitura às Coivaras, quando avistou três cavalos galopando à distância, para a banda dos Morretes, parecendo-lhe um deles o Russilho. Botou-se então a toda disparada, gritando:

— Tome! Tome!... Tome! Tome!...

Da roça do Juca Isidro, porém, avistou já os animais cortando a passo para as picadas e, atravessando o caminho do Salvador, foi atacá-los junto ao Capão do Meio. Corria como um desesperado, quando de repente meteu um estrepe no pé, que o fez estacar num berro de dor. Os cavalos, agora numa desfilada, ganhavam o Campo da Coroa, desaparecendo por entre as grandes macegas de riachão.

O Manuel, todo coxo, sem poder firmar-se sobre o calcanhar ferido, arrastou-se penosamente para um velho tronco de árvore que encontrou. Em seguida, cruzando uma das pernas, com a ponta da faca que trazia à cinta começou a extrair, desjeitosamente, magoando-se, a lasca aguda de pau. Mas, numa pressa e nervoso, vendo que não pegaria mais o cavalo, quando tinha de ir sem falta à cidade pela madrugada, praguejava furioso — e seus dedos grossos e calosos tremiam, retardando a operação.

— Agora, ficava ainda a farinha por vender! refletia. E tão necessitado que estava! Só pelo diabo! Mal andara em se desfazer do Alazão, ao menos não saltava cercas como aquela peste do Russilho, que não parava no pasto. Todas as noites era aquilo, desde que o trocara...

E continuava a esfuracar o calcanhar, dolorosamente, com um manejo pesado e áspero de operador rude, quando lhe arrebatou a atenção uma vaga algazarra erguendo-se dentro do mato. Deteve-se, escutando. De instante a instante, risadas límpidas, frescas, cristalinas, esfuziavam, esparsas, no seio oculto das ramagens: subitamente cessavam, e só se ouvia o ramalhar das folhas às rajadas do vento: logo após voltavam, entrecortadas de gritinhos vivos, alegres como um trinar de pássaros: outra vez emudeciam, e se ouvia então um contínuo e sonoro quebrar de galhos secos...

De cabeça erguida, investigando as sebes espessas, cercando o pequeno descampado, a ver se descortinava alguém, o Manuel murmurou:

— Ah! são as raparigas que andam à lenha, talvez tivessem visto passar os cavalos...

Inclinando de novo o pescoço, apressava-se, às voltas com o pé, já sangrando sob o escarafunchamento brutal da lâmina de aço, brandida rudemente. E súbito, arrancando o estrepe ensopado em sangue, que arrojou para longe, exclamou num alívio, respirando alto:

— Arre! Vai—te, estupor!

Ergueu-se, procurando alguma coisa para envolver a ferida, de onde saía um filete de zarcão, e dando com umas folhas de mamona à beira do mato, entre uns cipós finos como barbante, enrolou cuidadosamente o pé experimentando-o sobre o chão. E, tomando a corda e as folhas de milhos que atirara à grama, internou-se pelas ramarias. Mas as raparigas já estavam longe, porque ele não as encontrou, nem as ouviu mais...

Varejada toda a mata, caiu na planície imensa, do outro lado, onde o campo tem uma amplidão de oceano. O sol, no poente, barrava o céu de lacre. E para cima, o Azul, arqueando-se magnificamente sobre os campos, tinha uma nitidez imaculada. Ao norte e ao sul, as montanhas, recortando-se no horizonte de uma cor esmaecida e saudosa de esmeralda, retinham ainda, sobre as altas encostas, ângulos louros de luz, lembrando uma terra de milho maduro. Embaixo, o gado aglomerava-se, aqui e ali, sob as grandes árvores isoladas ou junto às orlas dos capões, erguendo-se como ilhas, em jatos colossais de folhas no meio da planura verde. Num recanto além, para onde o campo abre, o mar, muito manso, com um clarão baço de espelho. Entre o mar e a planície, os cômoros, em linhas paralelas, como gigantescas coxilhas de giz em pó. Ao longe, na estrada da Cachoeira, um carro chiando monotonamente, carregado de lenha. E cortando o ar, para as bandas da Rua Velha, o som doce e melancólico de uma cantiga.

O rapaz quedou-se, um momento, a contemplar o campo, numa imensa nostalgia, sob o crepúsculo golfando sangue. Distante, nas planícies do Bom Jesus, uma manada de cavalos seguia lentamente para o Campo da Coroa. Então meteu-se de novo a caminho, costeando o mato da Caeira, que percorria toda a frente do campo, do lado da freguesia. Mas, muito preocupado com as raparigas, pois lhe viera de repente à lembrança a Chiquinha Dutra, por quem era louco, e que decerto andava também entre elas, parecia sentir, de vez em quando, como um meigo rumor de risadas. Parava por instantes, mas só ouvia o ciciar queixoso da aragem nas folhas. Depois punha-se de novo a toda, com o seu tome! tome! vibrante. Ao chegar à estrada real, cortando a mata para o interior desde a beira mar estacou de chofre, porquanto a manada tomara outra direção, e ele ouvia, agora, distintamente, para os lados de cima, estalarem as risadas.

Eram as raparigas retirando, com os seus molhos de lenha — as filhas do Manuel Bernardino, a Chiquinha Dutra e as da Luíza Théa. Tinham ouvido a voz dele atravessando o campo, e como estavam sozinhas, temendo a presença de um homem sob as sebes fechadas, saíram logo para a estrada. Mas a Chiquinha ficara ainda lá dentro, num pastinho, a amarrar o seu molho, e elas, inquietas, muito assustadas, com vontade de correr, entraram a chamar:

— Ó Chiquinha! Ó Chiquinha! Apressa-te, rapariga! Olha que aí vem o Manuel Felismino! Corre, mulher, senão ele nos apanha...

E sentiam, avançando sempre para elas, ao longo da estrada, aquele grito contínuo, dolente e saudoso, como um chamamento em vão:

— Tome! tome!... Tome! tome!...

Mas a outra tardava, e as raparigas entreolhavam-se incessantemente, aflitas, os olhos muito abertos, acesos de temor, esquadrinhando a encruzilhada lá embaixo, de onde lhes parecia ia irromper, de súbito, o vulto grosso e possante do rapaz.

A Chiquinha, dentro do mato, conhecera também a voz do Manuel vibrando ao longe, e ficara de repente nervosa, atônita. Espavorida, numa atarantação, não conseguia atar o molho, porque as achas, reunidas à pressa, atabalhoadamente, fugiam, espalhando-se, sob os seus dedos trêmulos. Quando ouviu os chamados das amigas, teve um desatino: sem poder mais amarrar a rebelde lenha, abarcou o feixe inteiro com os braços e, num último esforço, precipitado, deitando-o às costas, largou a correr. Mas, desorientada, cheia de perturbação, em vez de tomar para a estrada, enfiou pelo carreiro da Estiva, e nunca mais encontrou as outras que, sem a ouvirem, e desconfiadas da tardança, já haviam rompido a caminhar a toda...

O Manuel Felismino, não ouvindo mais as risadas, detivera a marcha junto a uma grande figueira, que sombreava a estrada com a sua linda e gigantesca umbela verde de folhas. Aí entrou a considerar para que lado teriam tomado as raparigas, quando se lembrou de repente de ir até a Estiva. Talvez andassem por lá!

Antes de retomar o caminho, porém, para não dar mais passadas em vão, resolveu subir a árvore, de cujo cimo se descortinava tudo para aquelas bandas; e mal galgara os primeiros galhos, planando já acima dos arbustos em torno, o pasto da Roça de Baixo se lhe estendera à vista, muito verde ainda à luz fria e cinzenta da tarde. Então, esticando-se todo para a frente, agarrado à extremidade de um ramo, lançou um olhar para além envolvendo a paisagem inteira na sua grande visão. De repente, viu surgir na fita branca de um estreito carreiro uma saia de chita vermelha, cujo corpete desaparecia sob um molho de lenha. E fixando o vulto por instantes exclamou ruidosamente:

— A Chiquinha! A Chiquinha!

Imediatamente jogou-se tronco abaixo e rompeu a correr naquela direção.

A rapariga, agora, morta de cansaço, as pernas trêmulas, as costas a doerem-lhe, parara esbaforida: sentara-se, ofegante, sobre a lenha que arrojara ao chão, olhando a crescente sombra invadindo os maciços de folhagem e a superfície reluzente de um banhado ao pé, onde parecia ficarem congelados, numa placa polida de estanho, os últimos clarões do poente... Mas a agitação em que estava e os sustos contínuos, com a ameaça aterradora da noite a cair, levaram-na logo a erguer-se. Tentava juntar de novo a lenha, que se esparramara sobre o capim, quando sentiu um rumor mais forte nas folhas. E, com um brilho louco nos olhos, espavorida, desvairada, deitou a fugir, abandonando tudo, rasgando-se e arranhando-se toda pelas sebes do caminho. Corria numa alucinação, como perseguida, os cabelos no ar, aos gritos...

Ao varar a Estiva, o Manuel já não a via mais, encontrando unicamente o molho de lenha, abandonado no chão. Tremia também, agora, ouvindo a repercussão nostálgica daqueles gritos, ecoando pelas matas, abalando, perturbando a doçura melancólica das ave-marias. Receava que fossem ouvidos lá em cima, na freguesia. E timidamente, num temor ingênuo de alma casta e primitiva, arrependido de ter seguido a rapariga — teve subitamente um movimento de fuga com medo de que alguém acudisse. Mas vendo o molho de lenha, ali de rojo sobre as ervas, susteve-se, refletindo. E, enternecido, pensava na falta que aquela lenha não faria na casa da tia Sebastiana, a mãe da Chiquinha, que quase não se podia mover, paralítica das pernas, havia anos, numa viuvez desolada. A filha é que lhe fazia tudo, com a sua robustez de novilha — plantava a roça, acarretava a água e a lenha, desde menina, numa tarefa penosíssima, sempre alegre, entretanto, com o seu lindo rosto rosado e os cativantes olhos magníficos.

— Mas a culpa era dela! exclamava, numa emoção íntima, os olhos rasos d'água. Sempre a fugir dele, a arisca! Nunca se vira uma coisa assim! Havia quase um ano que era aquilo! Ele sempre a afagava, a segui-la, numa ternura de cão; ela sempre a repeli-lo, com um desprezo esmagador! Já no outro dia, na fonte, quando se lhe aproximara, pedindo-lhe que o ouvisse, porque já não podia mais — ela voltara-lhe as costas desdenhosamente, fugindo! Uma noite, no engenho do Marcelino, brincando o Tempo-será, despedira-se só porque ele aparecera! Ah! era horrível! Mas ele ia mostrar-lhe agora o mal que lhe queria...

Então, amarrando a lenha e pegando-a às costas, começou a caminhar. Muito feliz, com aquela carga amada onde ela deixara como o perfume das suas carnes virgens que ele sorvia arrebatado, rompeu a cantar.

Anoitecia. Os furos de alfinete das estrelas começavam a reluzir, cor de prata, no céu negro e macio. Na encosta escura, aqui e além, lumes ardiam, nostalgicamente, entre a verdura. E pelas moitas altas da estrada, o cri-cri fino e metálico dos grilos.

Chegando ao terreiro, o Manuel, sem ser pressentido, atravessou para os fundos, indo depositar a lenha de encontro à parede da cozinha, onde flamejava o braseiro. Por uma fresta, lobrigou a Chiquinha fazendo a ceia, agachada no chão, junto às chamas vermelhas, enquanto a mãe, muito magra e nodosa como uma velha palmeira, cruzada sobre um roto pedaço de esteira, fiava o gravatá rodando destramente o fuso nos dedos. Ali ficou longas horas, a olhar ternamente aquele recanto de lar, doce e humilde, ao qual queria bem pertencer...

No outro dia, pela manhã, a Chiquinha Dutra teve uma grande surpresa, ao deparar com o molho de lenha no terreiro. Calculou logo que tinha sido o Manuel, e, pela vez primeira, ficou pensativa, num enternecimento, num enlevo, invocando o nome dele. Perdia-se num tropel de recordações. Via-o, pela imaginação, aproximar-se dela, terno, sincero e bom, implorando-lhe ansiosamente o seu amor, numa voz meiga o trêmula, acariciadora, como no dia em que lhe apareceu junto às pedras da fonte. Mas já não fugia, fascinada e tonta, presa à luz viva dos seus olhos penetrando-lhe o coração. E concluía, meigamente, numa grande piedade, os olhos cheios de pranto:

— Que devia corresponder-lhe... Sim! corresponder-lhe, entregando-lhe as sua alma! E ser só dele, devotadamente, e para sempre!...

E, intensamente abalada por essas reflexões, na sinceridade e na emoção profundíssima do seu primeiro afeto, entrou em casa soluçando...

Daí por diante, todas as tardes, quando ele passava da rede, ela ia esperá-lo à porteira, sob a fronde das velhas laranjeiras murmurosas, à hora em que o sol cai no acaso, ao reluzir das primeiras estrelas... 

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