domingo, 5 de novembro de 2017

O monstro (Conto), de Humberto de Campos


O monstro

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Não é de hoje que eu me bato, na imprensa, e, pessoalmente, perante os empresários cinematográficos, em favor da exibição, nos cinemas, de "films" verdadeiramente instrutivos. Os romances de amor, as "fitas" que acabam em casamentos e beijos, devem ser substituídas, de vez em quando, por verídicos pedaços da natureza, que nos deem, na sua grandeza e na sua inocência, uma sensação da vida real.

Os "films" desse gênero devem ser, entretanto, claros, fáceis, explícitos, não só na imagem, na reprodução viva da paisagem e das coisas que a animam, como nos letreiros explicativos, que devem estar ao alcance de todas as inteligências. Um episódio ocorrido há poucos dias em casa de uma ilustre família brasileira, após a exibição, no Pathé, da "fita" "Santa Cruz", da Comissão Rondon, mostra, de modo irrecusável, a força dessa necessidade.

Mandada vir de Hamburgo para governante de uma casa de família notável, Dona Edda, rubicunda viúva alemã, empregava a sua paciência teutônica, dia e noite, em aprender o maior número de vocábulos portugueses. Soletrando os nomes, e procurando identificá-los pelo conhecimento das coisas que eles representavam, não perdia a pachorrenta senhora um pedaço de jornal ou um dístico de cinema, que não soletrasse e traduzisse, ajustando a palavra à figura. E foi com esse intuito que, anunciado, há duas semanas, o "film" do general Rondon, correu ela ao cinema, conduzindo à mão, para as consultas indispensáveis, o seu pequenino dicionário ilustrado.

Com os óculos na ponta do nariz, acompanhava a neta de Lohengin a excursão pitoresca dos abnegados sertanistas, quando tomou um susto, ao aparecer, na tela, o primeiro jacaré dos lagos de Mato Grosso. Curiosa, esperou o intervalo, abriu o dicionário, consultou, viu que se tratava de anfíbios vorazes, que nasciam pequeninos e tomavam grandes proporções, anotou o caso, decorou o nome, e continuou a ver o "film" até o fim.

À noite, agasalhados os pequenitos da família, estava D. Edda, sozinha, na sala de jantar, quando, ao voltar-se, empalideceu: diante dela, na janela que dava para o Jardim, estava, a espiá-la, batendo a cabecita inquieta, uma pequena lagartixa de muro, uma dessas osgas minúsculas e inocentes, que se alimentam de moscas e habitam, no Brasil, às duas, e às três, os troncos das árvores e as fendas das paredes.

Ao deparar o réptil, que a fitava benignamente, a alemã deu um pulo, folheou, rápido, o dicionário, identificou o animalzito pelo aspecto, e correu, aflita, para o salão.

— Que é, D. Edda? Que foi? — acudiu, a jovem dona da casa.

— Uma "bicho", zenhorra!

E, apontando, com os olhos esbugalhados a lagartixa, que a fitava da janela, sacudindo a cabecita inofensiva:

— Um "crreança" de "jacarré"!...

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