sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O pescador de esponja (Conto), de Virgílio Várzea


O pescador de esponja
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Johanis Zambeta, grego filho do Pireu, embarcadiço desde menino em navios que cruzavam entre a Espanha, a França, a Itália e o Levante até Odessa, no Mar Negro, desembarcara, ainda moço, aos 36 anos, com algumas economias, e fora estabelecer-se em Sfax, na Tunísia, a tentar aí melhor fortuna na, às vezes, enriquecedora pesca da esponja.

Com essas economias que arredondara em vinte e quatro anos de vida marítima, em viagens ininterruptas e que as longas ausências de terra, alternadas somente de semana a semana ou de mês a mês, por ancoragens de dias ou de horas apenas, nos portos de escala ou de partida e chegada, em cruzeiros redondos, os quais obrigam sempre o próprio marinheiro raso a constituir a sua maquia, por não ter em que gastá-la, embora de vez em quando a esbanje, nessas ancoragens, com quinquilharias e mulheres, o único gozo, sonho e ideal dos enclausurados do Mar, — com essas economias, Zambeta, apenas chegado a Sfax, cujas águas formam uma das melhores estações piscatórias de esponja do Mediterrâneo, adquiriu a sua barca de coberta, escafandro e demais aparelhos indispensáveis à indústria que ia encetar e, com uma guarnição experiente e prática dessa indústria, atirou-se à sua empresa com admirável atividade e denodo, na ambição, natural em todo o homem, de fortuna e bem-estar no futuro, mesmo porque sentia então ser mais do que tempo para casar, constituir família, formar definitivamente o seu ninho ou o seu lar.

A barca denominara-a ele a Alegre, por exprimir bem esse nome o estado d’alma em que se achava quando se entregou àquele novo mister.

A primeira vez que saíra para o mar, a pesca se lhe deparara lisonjeira, pois obtivera, numa quinzena apenas, resultados que lhe excederam, e muito, a expectativa. E assim, a sua humilde mas promissora empresa começou a acentuar-se e crescer, até que, ao fim de três anos, parava-se já em certo pé de prosperidade, porque, além de ter resgatado então o capital nela empregado, via-o também acrescido e possuía uma casa que mandara construir num dos bairros marítimos de Sfax, o de Zama, onde costumava ancorar a Alegre e tinha o seu pequeno depósito de esponjas.

Construída a casa e já com haveres regulares para a sua modesta ambição de simples e de marujo, entrara a pensar vivamente num doce coração de mulher para associar estreitamente ao seu, à sua vida, ao seu destino, ao seu futuro e à sua felicidade.

Belo e forte como em geral os da sua raça, moço ainda, com 39 anos apenas, e já com um sofrível pecúlio, encontrara o ideal dos seus afetos na morena e linda Haydeia, de 22 anos de idade, órfã de pai, e filha de uma humilde família sua patrícia, os Iliganis, de Zante, também pescadores de esponja, e que habitavam Sfax havia já quatro lustres. Haydeia era a única moça desse pobre e honrado lar, mas contava três irmãos — um marinheiro de longo curso, o mais velho, quase sempre ausente, ao longe, e dois outros que faziam parte da guarnição da Alegre, e que eram o verdadeiro e mor amparo da família, tendo um destes, a bordo, o posto de mestre ou patrão.

Noivo, Zambeta tratara o seu casamento para o começo do inverno, do suave e tépido inverno das costas do norte de África, quando a faina viva e áspera da pescaria da esponja sofre uma espécie de pausa. Mas, trabalhador infatigável, aproveitara agora, e bem, os últimos dias do outono, em que a pesca andava farta como nunca, naquela quadra do ano, e não parava de atividade, emendando viagem a viagem, quase sem deter-se em terra, embora aí a noiva amada estivesse irresistivelmente a tentá-lo com a delícia dos seus olhos negros de grega e as suas graças inefáveis...

Naquele dia, havia uma semana que ele andava a pescar na altura do cabo Sidi-Mançour, a treze milhas mais ou menos de Sfax. Tivera até a véspera à tarde uma pesca magnífica, a que ele, por essa razão, louco de alegria como estava às proximidades do seu almejadíssimo noivado, chamara, muitas vezes, à vista dos companheiros, e com sorrisos indizíveis a bailarem-lhe venturosamente nos lábios e nos olhos másculos e belos de grego, a “última e altíssima bênção do Céu à sua vida de solteiro”. Por isso, muito cedo, ao romper d’alva, expansivo e muito alegre, se enfiara sem detença no seu esplêndido escafandro e mergulhara logo na água. Desde então, até as 11 horas, não cessara de percorrer cachopos e rochas submersos à cata dos ricos espongiários que enchiam cestos e cestos e eram içados, em seguida, à tolda alta da Alegre, onde já se amontoavam.

Nessa manhã e a tal hora a barca pairava, só com uma vela de proa, ao tom das águas em calma — como sempre sucedia quando o escafandrista em ação — por dentro das ilhas Karkenas, com Karkenah por bombordo, ao sul do Sidi-Mançour e bem fronteira a Sfax, que se estadeava à vista, na transparência do ar, numa curva de enseada, à vasta linha reentrante que forma o golfo de Gambes, na antiga Pequena Sirte.

Que dia fresco e de sol! O mar azul rolava liso, bonançoso e espelhado. Gaivotas pontilhavam alegremente de manchas brancas voadoras toda a linha litoral. Velas cruzavam ao largo, em longínquas singraduras.

Os três marujos tunesinos e os dois futuros cunhados do bom e intrépido Zambeta estavam todos a postos — patrão ao leme e um marinheiro atento à vela, a manobrarem a embarcação consoante aos movimentos do escafandro no fundo; um outro agarrava o cabo que prendia o mergulhador ao navio, cuidadosamente a seguir-lhe a marcha submarina que exigia a pescaria; um outro ainda ocupava-se em mover a manivela da máquina de oxigênio que era a garantia suprema da vida do escafandrista; e o último, finalmente, estava a içar e arriar os cestos ou baldes de esponjas que emergiam ou imergiam no seio fundo das ondas.

Zambeta, justamente àquela hora, ultimava ativamente, alegre e a pensar em Haydeia, a tarefa desse dia, que era o último daquele cruzeiro de pesca, pois contava regressar a Sfax pela tarde — quando de repente, em torno dele, surgiram três monstruosos esqualos.

— Os tubarões, Santo Deus! exclamou intimamente.

E, arrancando de pronto da grande e aguda faca que trazia presa à cinta, colocou-se logo em guarda contra os brutais inimigos, fazendo, pelo cabo-de-guia, enérgico sinal à companha para que o tirasse das águas. E agitava já braços e pernas, forte e furiosamente, apesar das grossas barras de chumbo que lhe pesavam ao peito, às costas e aos sapatos, procurando afugentar os voracíssimos esqualos, que lhe esfuziavam em roda, numa rapidez de raio, acercando-se mais e mais, não obstante os turbilhões rumorosos que lograva abrir nas vagas, de dentro do amplo escafandro, com os seus músculos formidáveis...

Na barca, apenas foi sentido o sinal — e sinal vivo de perigo — o homem do cabo e os demais tripulantes, à exceção do que fazia trabalhar a máquina de oxigênio que não podia abandonar o seu posto, entraram a içar a toda a força o bravo mergulhador. Mas vendo que ele mui tarda, mui lentamente subia, como se estivesse preso a qualquer pedra no fundo, levaram o cabo ao cabrestante — e toca a virar de largo. Ainda assim, estranho caso! o escafandro pesava como jamais sucedera. Examinando bem as águas, a indagar a origem de fato tão singular, puderam então perceber vagamente, com surpresa e com assombro, o que se estava a passar, embora lá muito embaixo, a uma profundidade de cerca de cinco braças. Eram os medonhos tubarões em luta com o escafandro! E logo isso perceberam porque, às vezes, os ferocíssimos esqualos se mostravam, quais relâmpagos, a certa altura das águas. E viravam o cabrestante, viravam presto e de largo...

No fundo das ondas, lá no fundo, bem sob a quilha da barca, o espetáculo era horrível. Johanis Zambeta, já suspenso e sem mais poder firmar-se sobre os penedos submersos, bracejava e esperneava como um louco ou epiléptico, enquanto do mesmo passo brandia com a mão direita, certeira e possantemente, a sua longa e aguda faca, alvejando os tubarões que avançavam e recuavam voltados de ventre para o alto e com as fauces muito abertas, mostrando as filas de dentes cortantes como navalhas, a dar-lhe botes e botes, numa fúria sem igual. Bravamente, destramente, com uma calma invejável, o mergulhador insigne furtava-se, sempre com êxito e estranha felicidade, qual um funâmbulo invencível, a esses botes terríveis, vertiginosos, brutais — até que pôde ferir e deixar mortos nas águas dois dos maiores esqualos, abrindo-lhes os ventres espessos a golpes fundos e certos, constantes e colossais. Mas o último que ficara era o mais feroz de todos e, posto lutasse agora sozinho, não o deixava um instante, acometendo-o de contínuo, tenazmente e com audácia, sem conseguir agarrá-lo, porém, fugindo-lhe à faca como se acaso temesse o fim que certo teria, se porventura a tocasse.

Essa luta gigantesca, inigualável, tremenda, durava havia apenas segundos, mas ao seu herói parecia que já estava a durar horas e não findaria mais: tais são sempre, para o Homem, os momentos de perigo, de aflições e de angústias! No entanto, e na verdade, em vir do fundo à tona d'água, a braços com os monstros marinhos, já vencidos em mor parte, mas dos quais restava um que sustentava o combate com resistência invencível, ao mergulhador parecia que os momentos a correrem se tornavam seculares. Sim, porque a luta era incessante, incomparável, mortal. E — Santo Deus, que desgraça! — fora mesmo à superfície do mar, já contra o costado da lancha e quando salvo se julgava o escafandrista intrépido, que a horrorosa batalha mais renhida se tornara.

O esqualo gigantesco arrostava agora tudo e redobrava os assaltos.

Zambetta, porém, já não se aguentava mais — desfalecia pouco a pouco, na contenção sobre-humana de esforços de ânimo e de músculos em que vinha terrivelmente empenhado com o medonho adversário, não obstante sentir-se então ajudado, no duelo formidável, pela maruja de bordo que, a golpes fundos de croques, procurava libertá-lo das fauces escancaradas da “fera” estranha do Mar. Por fim, ao momento mesmo em que o bravo escafandrista, no último e supremo esforço, alçava-se já, pela borda, para o interior da barca, o tubarão furioso, num bote incrível, certeiro, abocanhou-lhe a perna direita, bem na altura da rótula!

Um grito surdo, abafado, mas de profunda plangência, abalou todo o escafandro, e logo as águas, em volta, cobriram-se sinistramente de vivas manchas de sangue.

Então o monstro vitorioso, com aquele bocado humano atravessado nos dentes, desapareceu subitamente no seio torvo das vagas...

Fundamente emocionados ante tão horrível cena, os tripulantes da barca tinham os olhos rasos d'água e, num atarantamento e a custo, lograram afinal tirar das ondas e depor sobre o convés da embarcação o corpo do infeliz mergulhador, ainda com vida e a escorrer sangue, tristemente mutilado.

À pressa e azafamado, na urgência do momento, o patrão desatarraxou de pronto um dos vidros do capacete do escafandro, aparecendo então o belo rosto de Zambetta totalmente desfigurado, numa lividez de morte. Mas o aventuroso e heroico filho do Pireu, num derradeiro e formidável esforço, pôde murmurar ainda estas tocantes palavras:

— Olha, Krósias, meu amigo! Desejo que leves à Haydeia um último abraço e um beijo... Diga-lhe que pensei nela ao morrer, e que a amei muito e muito... Faze que tudo que é meu seja repartido com ela e com a minha velha mãe, que lá ficou no Pireu...

E, agarrando-lhe fortemente uma das mãos e fixando-o muito, como aos demais da companha, com um olhar de uma expressão indizível, já vítreo e enevoado, disse, por último, em voz fraca e que mal se percebia:

— Agora, camaradas... adeus. Adeus, adeus... para sempre!

E expirou.

Krósias e Longy — os dois irmãos de Haideia — numa convulsão de lágrimas, romperam então a soluçar alto, como o resto da companha.

No entanto, o mar em torno era calmo. O sol, já em pleno zênite, jorrava a prumo, sobre as ondas, a sua luz viva e de ouro. Velas corriam, ao largo, com saudosas brancuras. E as gaivotas, em bandos, voavam além, contra a costa, como flocos de geada...

Acomodado piedosamente o cadáver de Johanis Zambeta sobre a mesa da pequena câmara da lancha, os marinheiros o cobriram com o lindo pavilhão grego, a listras azuis e brancas. E a Alegre, que nunca contraditara tanto o seu nome como naquele momento, de bandeira a meia haste e velas soltas à leve brisa da tarde, entrou a rumar tristemente para o porto de Sfax. Anoitecia, quando entrou no ancoradouro.

Haideia que a avistara ainda ao longe, da soteia da sua casa em Zama, de onde, como de costume, ia sempre ver o noivo, a cada regresso da pesca, a fim de trocar com ele, por meio de acenos de lenços, as primeiras saudações — ficou apreensiva e inquieta, num pressentimento fúnebre, ao notar, com estranheza, que ele não estava presente, desta vez, no tombadilho da barca, ao lado de seus irmãos, bem assim que a bandeira de bordo vinha arvorada em funeral, como jamais sucedera.

Deixou à pressa o terraço, a comunicar à mãe a singular ocorrência. E ambas, já meio aflitas, desceram até a varanda da casa, ansiosas por verem aportar a lancha e saberem o que nela se passara...

Cerrara de todo a noite, quando a lancha finalmente atracou ao cais de Zama.

E mãe e filha viram então, em desmanteladora surpresa e inenarrável dor, o cadáver de Zambeta, carregado por toda a gente de bordo, encaminhar-se, por entre archote acesos, na direção do seu lar. E, aos gritos e em pranto, lançaram-se ao seu encontro.

Depois, foi uma cena dantesca, desoladora e de mágoa...

***

No dia seguinte, pela manhã, acompanhado por toda a maruja de Zama, o enterro do desventurado Zambeta saía do pobre lar Iliganis para o pequeno cemitério dos estrangeiros, que fica a um dos extremos de Sfax. A casa fechara-se toda, como se ninguém mais a habitasse — e só a um recanto oculto da varanda duas figuras se viam, uma apoiada à outra. Eram a velha mãe Iliganis e a pobre filha amada, a quem o Destino cruel lançava em triste viuvez quando estava já a receber sobre a fronte a sua coroa de flores de laranjeira e o seu branco véu de noiva! Haideia, com a face apoiada à mão cujo braço se firmava sobre o friso da varanda, seguindo com o olhar o enterro, soluçava inconsolável, louca e perdidamente, e tinha o lindo rosto de virgem todo inundado de pranto e tão lívido que dir-se-ia, sem dúvida, o de uma antiga e artística estátua de mármore da sua pátria distante...

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