sábado, 25 de novembro de 2017

O poderoso Dr. Matamorros (Conto), de Lima Barreto


O poderoso Dr. Matamorros
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Naquela noite, cheguei ao meu palacete, bem tarde. Lembro-me perfeitamente. Minha mulher tinha vindo a dormir no automóvel Packard, da repartição,

que eu dirigia. O espetáculo acabava muito depois de meia-noite; fomos ainda tomar chocolate e atravessamos a “Cidade Nova”, o Mangue, quando já havia passado muito de uma hora. Olhei com tristeza as casas do Mangue, as da “Cidade Nova” nas ruas transversais; as do morro da Favela, eu apenas entrevia. Pensei de mim para mim: por que não se acabava com “aquilo”? Seria necessário aquele repoussoir, para afirmar a beleza dos bairros chamados chics?

Apesar de engenheiro, eu não tinha atividade ou especialidade técnica ou profissional qualquer; era “doutor”. Porém, como me havia casado bem e os meus parentes fossem influentes, na política, eu pleiteara e arranjara ser diretor-geral das Águas Medicinais do Brasil, de que nada entendia.

Tinha um gordo ordenado, ajuda de custo para viajar de automóvel oficial (marca imposta pelo ministro) da minha casa, na Tijuca, para a sede da minha repartição, em uns cubículos da rua 1o de Março, 2o andar.

No meu cargo não havia nada que ver com saneamento de cidades, nem com coisas correlatas; mesmo, verdadeiramente, com águas virtuosas, tinha pouco ou quase nada; mas, naquele momento, deu-me em pensar nas dores dos outros.

O meu serviço era mandar compilar relatórios sobre Carlsbad, Tíflis, Ems e outras estações afamadas de águas medicinais de todo o mundo; e, postos no vernáculo, assiná-los e mandá-los ao ministro.

Mesmo assim, tinha por meu maior desejo deixar o cargo, para criar galinhas; mas, via-me obrigado a tentear nele, até poder ocupar um de mando efetivo, onde viesse a sentir a alegria de governar, de algum modo, a vida de outros muitos. Era atiçado nisso por minha mulher que sempre me dizia:

— Encerrabodes, você é um trouxa, um molenga!

Porque, minha mulher, apesar de figurar no Gota das seções elegantes e mundanas dos jornais e revistas, gostava de falar em calão. Ela tinha sido torcedora de football.

Quando lhe ouvia tais palavras, acudia humilde:

— Por quê, minha filha?

— Você não arranja um cargo de destaque! Não há meio!

— Não tenho elementos, Nepomucena.

— Qual! O Chico Neves é filho de um “bombeiro” e já foi governador do Juruá.

— Se o Albino tivesse vindo presidente... Então, sim! 

— Estás mesmo à espera dele... Hum!... Se eu não tratar...

Esses diálogos eram constantes entre nós; mas nunca passavam daí.

Ela mesmo, quando cismava, é que dava os passos para a minha ascensão; eu, a bem dizer, não fazia nada, nunca!

Dormindo como ela estava no automóvel, mergulhado na misteriosa grandeza de uma noite negra e estrelada, muito só no seio do seu silêncio grandioso, pus-me a pensar na sorte daqueles que residiam naquelas casas pobres. Certamente, imaginei, pagavam aluguéis exorbitantes! Aquilo era uma injustiça e o fundamento da sociedade (tinha lido não sei onde) é a justiça. Se eu estivesse no lugar do Matamorros, já tinha dado um remédio a um tal estado de coisas!

Afinal, o meu Packard quase presidencial parou em frente ao meu palacete, na Tijuca. Despertei Maria Nepomucena, a minha mulher, e, em breve, dormíamos na santa paz do Senhor.

Sonhei que era autoridade; que era o Matamorros; que a Constituição, as leis, os regulamentos, os avisos, as portarias, os acórdãos, as decisões, os decretos, as ordenações, as cartas régias, os alvarás, as decretais papalinas, as lupercais, as saturnais e mais institutos de Justiniano e de sua virtuosa mulher Teodora — todo esse acervo de disposições legais presentes e passadas me dava poder para fazer o que prometesse, tanto mais quando se tratasse do benefício geral.

Foi com a macia carícia desse sonho no meu pensamento que despertei. Também não me havia passado na mente a impressão das casas pobres, a vencer exorbitantes aluguéis.

Tomei uma simples xícara de café, adiei o banho morno para mais tarde e pus-me a ler os jornais.

No primeiro que peguei, topei com este artigo: “Casas populares e o governo civil”. Li-o e encontrei este trecho:

Iam as coisas nesse pé e todos estavam exuberantemente esperançados, quando o Dr. Matamorros, o nosso ilustre governador civil, esquecido do seu anterior pronunciamento favorável e público, fulminou o projeto dos vereadores, sobre casas populares, com seu veto.

O interessado corre ao gabinete do governador, sem compreender a sua atitude. Este nega que o houvesse feito, mas lhe é mostrado o jornal oficial. Movimenta-se o gabinete, buscam-se os autógrafos. O caso não pôde ficar suficientemente esclarecido. O governador ou alguém por ele vetara o projeto, o que certamente não foi a primeira vez, nem será a última.

Diabo! — exclamei eu. — Que governador de cidade é este que não sabe o que assina? Livra! E falam dos jurados!

Continuei a leitura:

Mas o Sr. Matamorros prometeu que, no dia seguinte, retificaria seu ato sancionando o projeto!

Ao invés, porém, comunicou ao interessado que lhe era impossível cumprir a promessa da véspera.

Minha mulher, por aí, entrou no aposento em que estava, e eu, o Dr. Encerrabodes, descansando o jornal, disse-lhe com ar zombeteiro:

— Queres ver um fiasco que fez o Matamorros?

— Qual foi? — indagou ela.

— Prometeu aprovar uma coisa, mas não só não a aprovou como deixou que alguém a reprovasse por ele. Fresca autoridade!

— Mas mesmo assim é governador...

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