sábado, 25 de novembro de 2017

Uma opinião de peso (Conto), de Lima Barreto


Uma opinião de peso
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Na sala familiar de sua vasta casa, mais cheia de bugigangas novas e esquisitas do que a Exposição da Arte Retrospectiva, o venerável estadista, senador Faltanho da Consideração, conversava com o seu amigo e discípulo Arantes Borromeu sobre os graves problemas políticos, econômicos e sociais da nossa terra.

Sua filha Brunehilda, sentada a uma cadeira de balanço, ouvia a conversa ou melhor contemplava o bacharel Borromeu, cujo talento fora muito gabado na Academia, mas que adiava a sua estreia na Câmara, por motivos que ele claramente confessava.

— Você, Borromeu, por que não estreia na Câmara? Tem havido tantas questões interessantes... Você deve aproveitar.

Ao amigo que assim lhe falava, Arantes respondia:

— Estou ainda aprendendo.

— Como? Pois se você era o primeiro orador do seu tempo, na faculdade? Como é isso?

— Aquilo era oratória de estudante. Na Câmara, preciso outro estilo... Estou perdendo o ranço de “acadêmico”, por ora!

A Srta. Brunehilda, porém, sabia perfeitamente que são os deputados obscuros os que mantêm duradouramente o mandato e, muitas vezes, sobem, além do que se espera.

De resto, seu pai mandava no estado de...; e, sendo seu marido Borromeu, naturalmente ela seria durante toda a vida mulher de deputado, se não fosse de senador, de ministro e — quem sabe? — de presidente da República.

Os dois políticos continuavam a conversar naquele vasto salão de uma vasta casa; e a moça ao lado permanecia calada.

Borromeu observou:

— Uma das dificuldades para um bom governo nesta terra é não haver um regular serviço de estatística. Não acha vossa excelência?

— É; não há dúvida! Era preciso que os dados fossem fornecidos com mais constância e fossem mais completos e variados... Nos Estados Unidos...

— Não é preciso ir aos Estados Unidos; São Paulo possui um belo serviço; e, se o Cincinato brilha com os seus discursos de verdadeiro ministro do Fomento, ele o deve à perfeição de tal serviço.

— Concordo contigo, Borromeu; mas é preciso ver o campo de ação de um estado e o da União.

— Vossa excelência tem razão. O governo federal, em face de qualquer estado, abrange um mundo.

— Há, entretanto, um serviço de estatística, mantido pela União, que é digno de elogios.

— Qual é?

— É o de estatística comercial. Conhecia?

— A repartição, de nome: mas, publicações dela não vi jamais uma sequer.

— Pois tenho aqui, organizado por ela, um boletim estatístico do comércio do Brasil com a França, durante os nove primeiros meses de 1920.

— Aumentou a nossa exportação? Vossa excelência que leu...

— Ao contrário: diminuiu de 194 milhões de francos, em período idêntico de 1919.

— E a importação?

— Aumentou terrivelmente, principalmente em objetos de luxo. Nos nove primeiros meses do ano anterior havíamos comprado à França sedas no valor de cinco milhões; e, em igual período de 1920, a importação foi de fr. 2 milhões.

— É incrível!

— Pois é verdade, meu caro filho. E joias, então?

— Devia, como já foi lembrado, ser proibida a importação desses artigos. Até aí a filha do senador se havia mantido calada. Mas, quando o Licurgo Arantes aventou a medida de tal proibição, ela o aparteou com veemência:

— Com que nós nos havíamos de vestir? Isso não pode passar!

Arantes não apresentou projeto algum a respeito, e casou meses após, para felicidade dele, dela e do... povo, com a Srta. Brunehilda da Consideração. Houve mirra e prédica.

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