domingo, 26 de novembro de 2017

O velho códice (Conto), de Lima Barreto


O velho códice
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O que os leitores vão ler é a história de um desses amores sombrios, trágicos, quase medievais, cheirando ainda a barbacã e a castelo ameiado; e de que, por uma singular recapitulação histórica, na idade moderna, a América do Sul foi teatro ou que deu fim. Não é desses nossos amores de hoje, convencionais e pautados; é o desprender de um forte impulso d’alma irresistível e imenso.

Um velho códice manuscrito em italiano dos meados do século XVIII conta-o; e, pelo apuro de sua forma e pela luz que traz a um enigma da história da nossa pátria, merecia que o transladássemos poupando-o o mais possível da irreverência de lhe dar uma forma moderna que o desvigore sobremodo.

Consoante conselhos de altas autoridades filológicas e literárias, ao português de Gusmão e Pitta, com certeza coevos do autor dele, devíamos ir buscar o equivalente de sua fogosa linguagem italiana; entretanto, não nos sobrando erudição para empresa de tal monta, abandonamos o propósito.

Guardando no tom geral da versão o falar moderno — embora imperfeito para exprimir paixões de dois séculos atrás —, aqui e ali, procuramos numa frase, num boleio, ou numa exclamação daquelas eras, tingir de leve a narração de um matiz arcaico.

O original é absolutamente anônimo.

Nenhum sinal, indício, escudo heráldico ou mote denuncia o autor.

Não obstante, uma emenda, traços imperceptíveis fazem-nos crer que a mão que o traçou é de jesuíta.

Um “nós” riscado e precedendo “os jesuítas” entre vírgulas, e a maneira familiar de que o códice fala das coisas da ordem, levaram-nos a uma tal suposição.
Os leitores julguem.

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