domingo, 26 de novembro de 2017

A vida fluminense (Conto), de Lima Barreto


A vida fluminense
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Do meu amigo e antigo colega G. Silva, residente atualmente no Pará, recebi há dias uma carta, apresentando-me um seu amigo. Era um jovem e inteligente uapé, filho de cacique, neto de cacique, portanto príncipe do melhor sangue, que desejava conhecer as nossas lindas coisas, e Silva, que me sabia semijornalista e totalmente aliteratado, na carta, instava comigo que lhas mostrasse.

Não se espantem os leitores; Arucati (assim é o seu nome) é uapé, mas uapé que andou na portentosa montanha-russa de Belém, cidade onde aprendeu a trazer um traje sofrivelmente completo.

Logo ao recebê-lo, lembrei-me do jovem Huron, do Ingênuo de Voltaire e, se não fosse a perfeita autenticidade desta narração, com certeza não me atreveria a publicá-la, temendo que me acusassem de plagiário.

O jovem príncipe, S. I. R. Arucati, tinha uma imensa sofreguidão de ver; queria ir a todos os lugares, a toda a parte, apalpar, tudo tocar, inebriar-se; e eu, a quem o meu jeito e minha condição não permitem ir a toda a parte, tive de apresentá-lo a amigos que o satisfizessem.

Entretanto, fiz amizade com o príncipe uapé, e muitas vezes acompanhei-o em passeios, festas, conferências e teatros.

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