sábado, 25 de novembro de 2017

Os quatro filhos d’Aymon (Conto), de Lima Barreto


Os quatro filhos d’Aymon
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ochefe político do distrito de Anunciação, Felizardo José Senomenho, teve a ventura de obter do seu casal quatro filhos varões: Manoel, José, Otávio e Carlos.

Lido como era nos Doze pares de França, o coronel sonhou logo com os quatros filhos célebres d’Ay mon e desejou para os seus a glória dos paladinos filhos deste.

Infelizmente, o nosso tempo não pede guerreiros esforçados e invencíveis que andem pelo mundo a batalhar em prol de um qualquer Carlos Magno. Pensou bem e viu que os quatro deviam ser encaminhados para a política, porque só na política, atualmente, se obtêm glórias retumbantes e proventos magníficos, mais magníficos do que os despojos de reis mouros com suas mulheres estonteantes.

O primeiro trabalho de Felizardo foi fazer os seus quatro descendentes bacharéis em direito ou coisa que o valha — o que não lhe foi difícil, graças à vivacidade dos pequenos e a importância social do coronel.

Sua mulher viu um a um chegarem em casa formados nisto ou naquilo, em “escadinha”, com a regularidade anual do nascimento deles.

Este fato contentou os dois velhos de tal forma que, nos primeiros anos, os rapazolas nada mais fizeram que divertir-se à grande nas fazendas dos pais e na capital do estado.

Um belo dia, porém, Felizardo chamou o mais velho e disse:

— Maneco, já falei ao Magalão. Sabes quem é? O presidente do estado. Tu vais ser o seu oficial de gabinete e na próxima legislatura serás deputado.

Maneco fez malas, pois estava na fazenda do papai e, em breve, sorria bondosamente aos pedintes, nas antessalas do Palácio das Graças, na capital.

Não tardou que Felizardo viesse a ver o seu notável rebento em lugar de tanta importância. Satisfez-se com os modos, a um tempo doces e majestosos do filho, dentro do seu fraque talhado no Rio, e tratou de encaminhar o José.

Este andava pela capital a publicar versos inócuos em revistas de grandes descortinos. Procurou-o o pai no seu aposento de solteiro e disse-lhe:

— Rapaz, esta vida não te serve. Precisas fazer-te gente.

— Trabalho, papai.

— Em quê?

— Na arte.

— Que é isto? Nada; vais entrar para a redação da Folha Independente.

— Como? Se ela é da oposição e o senhor é do governo?

— Não tem nada. Vais entrar e trabalhar com o senador Mariano. Veste-te. O José queria muito entrar para um grande jornal e seguiu contente.

Felizardo entendeu-se com Mariano e, no dia seguinte, o filho estreava com uma formidável descompostura ao presidente do estado.

O coronel tinha já encaminhado os dois; restava a outra metade. Resolveu-se a esperar. Acontece, semanas depois da colocação do Zeca, que o chefe de polícia, por causa de um assassinato, prende o principal capanga do senador estadual Juventino, amigo íntimo de Magalão.

Juventino não obtém o “abafamento” do processo; zanga-se com Magalão, por essa falta de consideração aos seus amigos e briga. Houve a cisão no partido situacionista, devido a divergências sobre os cardeais princípios da política republicana.

Felizardo, que era sabido, determinou ao terceiro que aderisse a Juventino, sem detença. A coisa foi feita. Estava encaminhado.

Restava o quarto. Como havia de ser? Esperou uns tempos. Veio a dar-se que Brochado, deputado federal, grande amigo de Mariano, rompe com este e funda na capital do estado uma folha, para combater Mariano, Magalão e Justino. Felizardo agarra no último dos filhos e coloca na folha de Brochado.

Estavam, afinal, os quatro encaminhados. Vieram as eleições federais. Manoel, José, Otávio e Carlos foram apresentados candidatos a deputado, respectivamente, por Magalão, Mariano, Juventino e Brochado. Houve acordo no reconhecimento; e os filhos de Felizardo, a um só tempo, sentaram-se na Câmara dos Deputados.

Não chegaram a paladinos; mas foram pais da pátria.

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