sábado, 25 de novembro de 2017

Um bom diretor (Conto), de Lima Barreto


Um bom diretor
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Estranhou o prefeito, ao ler a folha oficial, naquela manhã, que o seu diretor de Instrução Pública tivesse designado um inspetor escolar para reger uma escola elementar em Campo Grande.

Estranhou e não era possível que tal não se desse, mas quis atribuir o fato a injunções políticas.

Em Campo Grande, no castelo feudal do Caroba, cercado de cemitérios povoados, reside o poderoso senador Rapadura, prócer do P. R. C. e dono da cidade e arredores.

Ele mesmo, prefeito, tinha que lhe obedecer as ordens; e, certamente, o seu diretor da Instrução Pública designou um inspetor escolar para reger uma escola de A-B-C em obediência a pedidos do poderoso perturbador da paz dos campos-santos.

Mas, por que seria que Rapadura queria em Campo Grande um sábio inspetor escolar?

Vaidade de habitante do lugarejo, que o desejava ver assim honrado e exaltado?

Não era possível. O profanador dos túmulos, o desinquietador do sono dos defuntos, não tinha nenhum amor pelo lugar que habitava. Não pedira para ele nenhum melhoramento, e isto há vinte anos. Como é, então, que tinha tido esse assomo de vaidade? Era inexplicável. Ah... Era isto. O senador era conhecido pelas suas poucas letras e tinha mesmo dificuldades em ler os jornais, de modo que, ao crescer-lhe a idade, teve o capricho de aperfeiçoar a sua instrução primária.

Há trelas na velhice que bem parecem de menino. Os extremos tocam-se. Sendo assim, não era decente que um senador, um legislador, fosse recapitular o quanto diz a aritmética de Trajano, sob os olhos de uma moça. O discípulo exigia um professor mais respeitável e graduado. Estava explicado o ato do seu diretor.

O prefeito almoçou, tomou o automóvel que o esperava no portão e partiu célere para o palácio da prefeitura.

Quando chegou a seu gabinete, que a muito custo pôde alcançar, o seu mesureiro secretário adiantou-se e antes de mais nada foi dizendo:

— Doutor, o novo diretor da instrução quer provocar uma revolução.

— Como?

— Com a tal nomeação de um inspetor escolar para professor elementar em Campo Grande.

— Revolução?

— Sim. Vossa excelência não viu como as moças estão aí nos corredores amotinadas? Elas se dizem lesadas e os outros inspetores estão magoados e as atiçam contra vossa excelência.

O prefeito pensou e disse:

— Vá chamar-me o doutor Café.

O secretário foi em pessoa e em breve o diretor voltava, tendo atravessado as antessalas entre alas de professoras, adjuntas, estagiárias, normalistas, quase debaixo de vaia.

O prefeito perguntou-lhe logo com o sobrecenho carregado:

— Doutor Café, como é que o senhor nomeia para uma escola elementar um inspetor escolar?

— Que tem isso?

— E o regulamento?

— Vossa Excelência sabe perfeitamente que sou médico, entendo de patologia e algumas outras coisas mais...

— O Abel Parente já me havia dito.

—... de instrução pública do município, pois, nada entendo.

— Como?

Disse isto a vossa excelência no meu discurso de posse, não se lembra? Veio até nos jornais. Disse bem claro: “não entendo de instrução pública no Distrito Federal”.

— É verdade. Continuei.

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