domingo, 26 de novembro de 2017

Os subidas (Conto), de Lima Barreto


Os subidas
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Li numa correspondência do Correio da Manhã que os parentes reinóis do nosso presidente eram conhecidos na sua cidade natal por subidas.

Imediatamente me vieram à lembrança aquelas grandes vontades descritas nos livros de Smiles, lidos na nossa meninice. A lembrança não era descabida, pois aqueles, que pelas dificuldades materiais do início de sua vida e pela grandeza de que se revestem o final delas, merecem ser chamados subidas.

Lembrei-me de George Stephenson, que de operário de mina chegou a ter seu nome eternizado na locomotiva. Vi Watt, mísero fabricante de instrumentos de desenho, ligar seu nome à máquina a vapor.

Recordou-me Franklin, tipógrafo, cujo nome ligado à eletricidade tem a dupla auréola de cientista e patriota.

No caleidoscópio da minha memória passou uma infinidade de nomes:

Johnson, alfaiate, presidente da República americana depois; Lincoln, lenhador, alcançou também esse alto cargo; Diderot, filho de um cuteleiro, foi o presidente do pensar francês durante a segunda metade do século XVIII; D’Alembert, enjeitado, amigo deste último, geômetra e filósofo de primeira grandeza; Evaristo da Veiga, entre nós, alfarrabista, faz o grande fato do 7 de Abril.

A estes juntavam-se os de Shakespeare, Cromwell, Locke e muitos outros; enfim, um rol de nomes célebres na arte, na indústria, na ciência e em outros departamentos da atividade humana.

E, então, pensei comigo:

— Quem sabe se a tal família não tem essa denominação porque houvesse nela um grande número de filhos comparáveis a estes grandes tipos?

Mas eu não rebusco a memória, leio livros, consulto dicionários e nada!

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