domingo, 26 de novembro de 2017

Os pedaços (Conto), de Lima Barreto


Os pedaços
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Das vinte e cinco vidas que o dispensário Castrioto arrancou à morte certa, esta é a nova e a mais banal, talvez por isso seja a mais longamente sentida. Avisei logo em começo, quando me propus a narrar estas vidas prováveis, que elas todas seriam vulgares; contudo, a minha fantasia, nas oito que precederam à presente, carregam, em algumas, mais a tinta crua do real, e em outra pus-lhe um debrum de absurdo. Não voltarei mais a fazer semelhante consideração. Extraordinárias ou vulgares, são vidas prováveis de crianças que a existência nomeou à morte e eu aqui, adivinhando-as, figuro como astrônomo em seu gabinete calculando, com os elementos previamente dados, as órbitas de astros. Não se lhe dá que seu lápis revele a curva que revelar; notáveis ou não, são órbitas e mais nada. São vidas as que conto, prováveis, quando muito; mas são vidas e mais nada.

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