quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Os suspensórios (Conto), de Humberto de Campos


Os suspensórios

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Um advogado ilustre, pessoa da minha estima, contava-me, há dias, um caso curioso que o impressionara profundamente. Procurado por uma senhora, que desejava divorciar-se, fizera ele a petição competente, com todo o segredo, e foi levá-la ao juiz. E regozijava-se com a surpresa que ia causar ao péssimo esposo da sua cliente, quando abriu a boca estupefato: no cartório havia, já, uma petição do marido, que apelava para o mesmo recurso judiciário apoiado nas mesmas razões em que se apoiava a mulher. E, como conversa puxa conversa, contou-me o ilustre causídico uma história interessante, que ele havia lido, poucos dias antes, em certa revista estrangeira.

Homem de gênio desigual, o Sr. Fabiano preparava-se para sair, quando, de repente, começou a perder a paciência. Faltava-lhe o suspensório, que devia estar preso à calça vestida na véspera, e era com indignação que ele berrava, com as mãos segurando o cós:

— Não o viste, Maria?

A criada respondia-lhe negativamente e ele trovejava para a mulher:

— Não o viste, Marcela?

De repente, coordenando as ideias, ajustando o "puzzle" das lembranças recentes, calou-se, acalmando completamente a tempestade. E ia fazer o possível para que ninguém falasse mais em tal coisa, quando a mulher chegou à porta do quarto, avisando:

— Fabiano, aí tem uma pessoa que quer falar contigo, com urgência.

— Quem é?

— O Sr. Otaviano, da farmácia.

Um minuto depois, mostrando nas olheiras escuras as infinitas torturas de uma noite de insônia, entrava no quarto, usando da intimidade que ligava as duas famílias, o Sr. Otaviano, farmacêutico de renome. Estava soturno, grave, circunspecto, e, sentindo-se a sós com o amigo, explicou, misterioso, o motivo daquela visita matinal:

— Você sabe — começou, — que eu tinha absoluta confiança em minha mulher. Em minha casa não entrava, jamais, outro homem. Entretanto, ao penetrar, ontem, no nosso quarto de dormir, encontrei isto debaixo da cama. Veja!

E, dizendo isso, arrancou do bolso do sobretudo, que não tirara, um par de suspensórios azul, com fivelas de prata, que exibiu, confiante, aos olhos espantados do amigo.

A essas vozes, porém, a porta escancara-se e, de um pulo, aparece no meio do quarto uma figura de mulher. Era D. Marcela que, tendo visto e ouvido tudo pela fechadura, bradava, branca de cólera:

— Mas, que é isso, afinal? Esse suspensório é o teu, que estas procurando há meia hora!

E cerrando os punhos, no rumo do esposo:

— Indigno! Canalha! Miserável! Não fico nesta casa mais, nem um minuto! Cachorro!...

E prorrompendo em soluços:

— Bandido! Infame! Desgraçado!...

Atarantado com o que acabava de ouvir, o Sr. Otaviano recuara até à parede, boquiaberto. Pálido, tonto, desorientado, o Sr. Fabiano fizera outro tanto, em sentido contrário. E ia a comédia por essa altura, com a moça a arrancar furiosamente os cabelos no meio do quarto, quando apareceu à porta a criada, trazendo alguma coisa nas mãos.

— Patrão, achei os seus suspensórios.

A patroa parou de chorar, estacando, de olhos escancarados, pálida, de cera. E a criada continuou:

— Estavam na secretária da senhora, ao lado do canapé.

Recobrando ânimo, o Sr. Fabiano encaminhou-se, rápido, para a rapariga, e vendo que os suspensórios eram cinzentos, e não azuis, como os seus, trovejou, furibundo:

— De quem são estes suspensórios, senhora?

Mas não obteve resposta. D. Marcela, apavorada havia saído pela porta dos fundos.

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