sábado, 4 de novembro de 2017

Triste carta (Conto), de Virgílio Várzea


Triste carta

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A luz de ouro da tarde entrara já a esmaiar no alto, pela porta do rancho, quando o Lucas, depois de arrumada a roupa que estivera a cosicar, pegou de um pequeno maço de cartas e desdobrou uma, cujo papel já muito amarrotado e encardido indicava bem as vezes inumeráveis que andara a rolar nas suas mãos rijas e calosas de marujo. Recebera-a havia um ano, em um dos portos de escala em que tocara o patacho. Era de sua mãe e ocupava-se quase exclusivamente de coisas que faziam o encanto da sua vida e a maior preocupação da sua alma.

Dentre as raras missivas que tinha recebido naquela viagem, era essa, sem dúvida, a que mais adorava, porque em suas linhas tortuosas e trêmulas sua mãe lhe falava mais longamente da Laura, uma trigueira rapariga do campo que por uma linda noite de maio, na festa da Cruz lhe cativara o coração com os seus negros olhos fascinantes. E como era essa a última carta que lhe chegara de casa, lia-a constantemente, nos vagares de bordo: e para isso enclausurava-se no rancho, mesmo nos dias festivos em que os companheiros baixavam à terra, a folgar.

Desde que deixara o Recife onde o navio tomara um frete para Havana, que não recebera mais notícia da terra natal, não obstante ter escrito à sua mãe, comunicando-lhe tudo isso, na antevéspera da viagem. Demorara três meses nas Antilhas e sempre a mesma ausência de notícias, lá, como naquele porto da Pátria, onde se achava agora fundeado o Patacho.

Começaram então a surgir-lhe no espírito desconfianças, dúvidas, pressentimentos e apreensões de toda a ordem sobre o que teria sucedido à sua mãe e à Laura, sobretudo a esta, — desconfianças e apreensões que só naquelas leituras suaves deixavam de excruciar-lhe tão intensamente o coração como quando, com o pensamento desocupado e ocioso, se entregava de todo às tristíssimas conjeturas dessa, para si e para todos que nela acaso se veem, bem penosa situação.

E assim, naquele dia — um belo domingo de sol — deixara partir para a Alegria e as mulheres os seus camaradas, enquanto ele, sozinho e soturno, no isolamento da sua alma amantíssima e saudosa, prazia-se em contemplar e beijar, no fundo do seu beliche, aquela carta adorada.

Virava e revirava o papel cujas dobras, em certos pontos, entravam já a rasgar-se, soletrando devagar as palavras, na ternura embaladora do seu profundo afeto. Lia-o, relia-o sucessivamente, mal a última frase escoava, e só interrompia a leitura quando o sentido ingênuo e simples da narração se lhe baralhava no espírito, subitamente misturado e fundido às imagens recordativas das coisas passadas, turbilhonando-lhe na alma assim tumultuosamente evocadas.

Suspirava então, por momentos, respirando forte — e pousava risonhamente, como agradecido ao Destino ou a Deus, os seus grandes olhos negros em uma nesga azulada do céu da tarde, que se mostrava resplandecendo serenamente lá em cima, muito alto e de um cetim delicioso, por entre os mastros e cabos. Depois, volvia outra vez à obsessão inebriante daquela leitura cara...

Mas a luz afrouxava pouco e pouco, e a sombra crescente ia enoitando nostalgicamente os recantos afastados do pequeno ângulo de proa, onde já se sumiam na treva as três ordens de beliches, que corriam aí, às amuradas, como um velho mostrador de tasca.

O Lucas, com um último suspiro melancólico, dobrou a carta, enrolando-a, com as outras, no pequeno maço, que tornou a atar com um fio de vela; e ia recolocá-lo no escaninho da caixa, quando um outro embrulhinho querido saltou-lhe à vista, em uma recordação inefável.

Apanhou-o logo, carinhosamente. E como a claridade ausentava-se, fugindo pela abertura do rancho, veio postar-se aos primeiros degraus da estreita escada de pinho que levava ao convés. Aí, sob a luz vesperal abrindo já pelo céu o seu pálio de lilás, beijou três vezes o pacotinho precioso e entrou a desatá-lo. Eram as pétalas murchas de umas flores que lhe dera a Laura, ao trocarem o adeus de despedida, numa manhã de partida em que as famílias da sua freguesia natal, na faina das pescarias de junho, coalhavam alegremente as praias. Dessa manhã radiosa ficara-lhe perenemente na alma o deslumbramento de uma grande felicidade.

Nesse dia, mal chegara a bordo, correra a colocar à cabeceira do beliche essa lembrança adorada. E só uma semana depois, no mar alto, quando as flores se fanaram de todo, em meio aos vaivéns e emanações salitrosas das vagas, é que ele, amorosamente e com os olhos marejados de lágrimas, as foi guardar na pequenina carteira de lona, onde trazia piedosamente, como uma efígie sagrada, um retrato de sua mãe. Sempre que tocava nessas pétalas secas, já quase despedaçadas de tanto lhe rolarem nas mãos e de tanto serem beijadas, sentia como um êxtase de ternura algemá-lo aquele recanto da proa, onde erguera o seu sacrário.

E por isso ali se detinha agora a rever docemente as relíquias do seu amor, ajoelhado diante da larga caixa de pinho, em cuja tampa erguida e dentro de um florão rude de arte, uma galera corria sobre uma esteira de espuma, com as gáveas enfunadas.

Estava ainda embevecido na contemplação dessas lembranças amadas, quando uma voz ecoou lá em cima, para os lados da popa.

— Ó de bordo! Alô! que bote vai à garra...

O grito passou, sobre a porta do rancho, as últimas sílabas despedaçadas na rajada do vento.

O Lucas atirou logo a carteira para o escaninho, fechou a caixa de pancada e galgou a escada. No convés, para não dar uma volta muito grande, saltou o molinete em direção ao portaló. Aí, com as mãos num brandal e em pontas de pés, porque a borda era alta, procurava descobrir o bote, quando outro grito estalou, rente à escada, meio aflito e choroso:

— Ó da proa! Olha uma bossa depressa!... Uma bossa pela popa senão vamos água abaixo...

O Lucas, reconhecendo aquela voz, correu então para o alto, e, agarrando o chicote de um cabo que ali estava de rojo, jogou-o à água gritando:

— Aguentem, rapazes, que lá vai o virador!...

O virador sibilou por momentos, indo cair sobre o mar, em inúmeras duchas sinuosas, como um réptil monstruoso: e o escaler apareceu, descaindo na corrente, junto ao espelho da popa.

Era o bote de bordo, que fora pôr em terra o piloto, e que, já de volta, ao atracar ao patacho, ficara preso da vazante, por esse tempo de uma tal velocidade, naquele porto, que levava muitas vezes barra fora as pequenas embarcações. Depois só quem conhecia o local podia atracar com segurança. Mas os remadores do bote eram “marinheiros de primeira viagem”, o Luís e o Leão ― dois rapazes de treze anos, inexperientes e que não conheciam o mar senão nas suas costas do sul, onde, de menino, cruzavam constantemente as ondas em pequenas canoas e lanchas.

Os dois, ao fazerem a atracação, em vez de encostarem à proa do patacho, deixaram o escaler cair demasiado à ré, e de tal modo que, entregues ao poder da correnteza, apesar de apertarem as remadas, não lograram alcançar o costado, metidos no recôncavo do leme, onde as águas remansavam. Anoitecia, porém, e eles, cansados já e sem forças, receando o turbilhão que fatalmente os arrastaria barra fora, entraram a gritar pelo Lucas, que estava ao momento no rancho.

Ao verem o cabo, os dois pequenos apegaram-se rijamente a ele e, dada uma volta com o chicote ao arganéu de proa, alaram o bote para vante. Quando chegaram à altura do costado onde se arqueavam os turcos, o Lucas, safando as talhas para içar o escaler, disse-lhes gracejando:

— Ó seus lorpas, para outra vez mais sentido! Olhem que isto aqui não é tresmalhão!...

E, volveu para o salto, a rir-se muito com os seus dentes brancos.

Içado o bote, enquanto o Luís dava volta às talhas, o Leão tirou dentre os embrulhos que trouxera de terra um estreito envelope azulado e foi levá-lo ao Lucas, que, de pé sobre a borda, começava a ferrar o toldo. Como o Leão lhe estendesse a carta, largou por instante o trabalho e, o rosto radiante de júbilo, abrindo o sobrescrito, que reconheceu ser de sua mãe, entrou a soletrar nervosamente, para si, em silêncio as primeiras palavras.

Mas os rapazes, ao outro bordo, abafavam já o toldo, que bojava na retranca com o seu ruge-ruge de lona.

O Lucas então meteu a carta no bolso, para a ler depois, com vagar, no recanto remansoso do rancho.

E apressava o serviço, lidando destramente com o pano, numa disposição que lhe acendia no peito toda a alegria dos seus vinte e três anos...

Daí a pouco, dada a última vista de olhos ao convés e à câmara, desceu a escada de proa, solfejando à meia voz a primeira quadra do Adeus do Marujo, fitando alegremente as estrelas que vinham já entretecendo no Azul um crivo escuro flamante.

Embaixo, mandou que os rapazes se arrumassem e abrindo o pequeno depósito de objetos de bordo que ficava contra a antepara de ré, tirou dele o farol do rancho. Mal o acendeu, colocou-o num travessão ao centro, dirigindo-se para o beliche, a cantar ainda vagamente uma estrofe da canção:

“Ala braços! caça a escota
Aproveita a viração!
Acompanha-me, Saudade,
Já que vou sem coração!”

E inclinando-se, arrastou a caixa até ao pé de carneiro, onde ardia o farolim: tirou a carta do bolso e, arrojando para longe o cigarro, recomeçou a leitura que deixara apenas encetada.

De repente estacou, levantando a cabeça — a face lívida, os olhos desvairados. Fixou a luz por instantes, as pupilas duras, os cílios sem movimento. Parecia acometido de uma loucura súbita, com a carta fechada nas mãos. Tremia todo, numa ânsia. E lágrimas silenciosas fluíam-lhe das pálpebras, tristemente...

Ficou assim muito tempo. Depois sacudiu os ombros vagamente, como na aceitação resignada de uma grande dor, de um golpe sobre-humano. No entanto, talvez ainda incerto da verdade, baixou de novo a cabeça e tornou a ler a carta. A soletração saía-lhe agora numa gaguejada e soluçada convulsão... Mas não pôde prosseguir e, erguendo-se de um salto, como um leão ferido, o papel amarrotado entre os dedos, atirou-se para a tolda gritando:

— Jesus! Jesus! Que aflição!...

Era a carta que lhe trouxera a notícia esmagadora do casamento da Laura com um capitão de navio, havia quatro meses. Sua mãe lhe narrava aí, com essa lógica genial e lacônica que as mulheres têm, sempre, quando inspiradas pelo sentimento, a história mortificadora daquela traição.

O Lucas, a princípio atordoado, mal pudera acreditar na veracidade daquelas linhas trêmulas; mas, lendo-as e relendo-as ainda, compreendeu por fim toda a sua desgraça. E, alma ingênua e primitiva, como um louco e sem poder conter-se sob os destroços do seu amor, repentinamente desfeito, saltou para a tolda, levado numa rajada de desalento e de angústia.

A treva já havia cerrado de todo. A brisa fresca da noite como que o acalmou por instantes. Encaminhou-se então para um recanto do castelo e, debruçado da borda, numa saudade inexprimível da Amada, agora perdida para sempre, rompeu a chorar outra vez, diante do imenso Oceano e sob a grandiosa abóbada do Firmamento, àquela hora, e como nunca, resplandecente de estrelas! 

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