sábado, 4 de novembro de 2017

No meu sítio Natal (Conto), de Virgílio Várzea


No meu sítio Natal

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A minha vida, há anos, expandiu-se alegre e feliz. Era o dia da festa do Espírito Santo no lugar onde nasci. Domingo assim, como esse, delicioso e inefável, jamais eu o passara na província, e dele me ficou, no espírito, uma lembrança indelével.

Fora à luz fria e lívida de uma aurora de começos de inverno que eu tornei a avistar, emocionado, depois de três lustros de ausência, a esmeraldina e majestosa planura dos campos de Canavieiras, saindo, fresca e pitorescamente salpicada de líquidos diamantes de orvalho, da espessura esfumatura alvadia da bruma alvoral e do arrepio gélido do rio, que a atravessa de norte a sul em rútilas sinuosidades infindas, espelhando o céu azul.

E, galgando, à pressa, a rústica ponte de madeira que une as duas margens do Ratones em toda a largura da velha estrada real que aí deixa os empinados pedregosos e barrentos das colinas de Morretes para ampliar o seu pavimento coleante das verdes planícies risonhas do Bom Jesus da Várzea, — eu caminhava a passo estugado e seguro para a casa da tia Josefina, uma santa de bondade e virtudes, e que era a esposa amantíssima e muito amada de um irmão de minha Mãe.

Embalado pela cadência da marcha e confortado já por uma forte circulação que desfazia agora o entorpecimento e gelidez da longa inação em que passara toda a noite, subindo o rio, mal acomodado e numa só posição no fundo estreito e úmido da pequena canoa, pascendo os olhos longamente sobre a imensa e possante Natureza e sobre cada humilde e frágil habitação — eu recordava, saudoso, os meus irrequietos dias de infância, consumidos ali, a estrafegar em correrias ingênuas, desenfreadas e loucas, ou em assalto às frondes de árvores e aos ninhos por aqueles campos e montes. Já lá se iam quinze anos, mas não mudara o aspecto das coisas!

A casa que fora outrora de meus pais, cercada de laranjeiras e cafeeiros tufados com o engenho da farinha ao pé, branca e risonha na loura luz da manhã, dessa gloriosa manhã de junho, cortada do bom cheiro agreste e saudável das ameixeiras, com as suas folhas de verde escuro e os seus frutos dourados e redondos, fazendo lembrar uma grande vestimenta verde, e semeada de guizos, de algum gigantesco arlequim que se houvesse imobilizado numa atitude firme e aprumada de soldado — bulhava e ria pelas suas janelas abertas, penetrada de calor e de luz, numa ampla satisfação de animal tolhido e friorento que saboreia, estirado, a morna carícia do sol.

Os outros lares, na maior parte compostos de casinhas vermelhas, mal acabadas, de paredes feitas de um barro cuja fragilidade se mostra em risquinhos tremidos de miríades de rachas onde se veem, bem fundos, os sulcos das mãos que serviram de improvisada colher de pedreiro na sua construção — dir-se-iam espiar, escondidos, como pessoas acanhadas que não querem ser vistas, o largo e acidentado caminho do sítio, dentre grossas e altas touceiras de bananeiras cujas folhas, largas e tenras, o vento tesoura em franja.

Grupos sonoros e coloridos de mulheres e crianças, excursionavam a pé até a freguesia, linguarejando e rindo forte, à monótona cadência dos tamancos que batem nos calcanhares. E famílias mais abastadas, vindas de longe, apinhadas sobre o estrado dos carros, enfeitados e cobertos com colchas vermelhas de chita, que juntas possantes de nédios bois luzidios arrastavam lentamente pela estrada, sob a ramagem dos espinheiros floridos — passavam, amolentadas pelo tédio, amarrotadas, ensonadas e bocejantes, na lentidão e no chiado fastidioso e nostálgico dos veículos.

Rapazes, entre vinte e trinta anos, de rosto quieto pelas largas soalheiras apanhadas nas roças e nas praias, exibiam-se ante as belas raparigas palreiras, socadas de ombros e de grossas cinturas carnudas, fazendo saltar e atormentando a relhaços, num entusiasmo prosa de matuto, os seus ossudos e magros cavalos enlameados que enchiam de galopes e rangidos de arreios novos todo o percurso da estrada.

No adro do templo, de onde se avista às vezes, muito longe, a branca alegria de uma vela latina palpitar sobre o mar que faísca ao sol — alinhavam-se festivamente, na direção da porta principal aberta ao lado esquerdo da pequena torre caiada, cuja agulha negra e de ferro demandava risonhamente o Azul, dois renques de esbeltas palmeiras, cheias de festões de flores, mas desviçadas já pela luz e os ventos, e que desciam ladeira abaixo até uma grande barraca de lona onde se leiloavam frutas e massas a grandes berros roucos.

Em meio à multidão, acumulada em redor na vasta praça quadrada erguida ao fundo em outeiro e onde domina plenamente o alto cruzeiro negro abrindo os braços no céu — a bandeira escarlate do Divino, com a haste elevada em triunfo, entre as mãos possantes e grossas de um roceiro de opa, balouçara solenemente à brisa fresca dos campos, coroada pela Pomba Espiritual que, de asas puras abertas, alvejava no tope altaneiro, abatendo-se ou pousando, de momento a momento, sobre aquele mar de cabeças, para receber os beijos devotas das crianças e velhos, dos rapazes e moças, por entre o seu glorioso, pendão de fitas multicores. Em torno rufava alegre o tambor, enquanto, o coro rouco dos foliões esforçados lançava ao ar, com fervor, as notas arrastadas e trôpegas de um antiga melopeia cristã.

Às ave-marias, às chamas rubras e saudosas das fogueiras de grandes toros, espancando a treva e o frio no adro com os seus largos e ardentes clarões triunfantes, novena rezada engroladamente pela voz grossa e de basso de um padre gordo e preguiçoso, de cogote curto e em rosca, o rosto rosado e fresco como o de um querubim de painel conventual.

E mais tarde, pelas 8 horas, as voltas e viravoltas na praça, em redor da vasta barraca de lona, iluminada por coloridos lampiões de papel, de elementar e tosca fatura roceira, à frouxa luz dos quais os namorados audazes beliscam furtivamente o braço roliço das cachopas amadas, que não gritam nem se queixam às mães por estarem ainda gozando as saborosas amêndoas e broas que a gente compra em tumulto, por entre os fortes apertões do povo, logrando as pretas doceiras do adro...

Depois, a desoras, começa a enorme debandada ou êxodo das gentes recolhendo aos seus lares, próximos ou distantes, ao longo de caminhos e atalhos que meandrosamente se estendem, por entre pautas de murmurosas ramagens, pelas planícies e morros. Os moradores daí da freguesia, da Rua Velha e de Morretes somem-se logo em suas habitações caindo, após a ceia costumada, no seu pesado sono aldeão que termina, sempre, intranstornavelmente, quando na misteriosa e melancólica solidão da Natureza em penumbra começam a desenhar-se luminosamente, a leste, as primeiras barras do dia, ou quando, no céu ainda de um azul ferrete mui denso, se destaca, como uma aérea e gigantesca sempre-viva de ouro, soberana em esplender, entre os demais astros, a gloriosa Estrela da Manhã.

Mas os que vieram da Várzea, do Rapa, dos Ingleses, do Rio Vermelho e das Aranhas, esses se espalham agora pela estrada real e pelos atalhos e trilhas, avançando para as casas nas suas prodigiosas marchas a pé, nos seus matungos trotadores ou nos seus morosos e rechinantes carros de bois. Em algazarra incessante e festiva, em risadas ou em cantigas sonoras e símplices — às vezes em ambas as coisas ao mesmo tempo — esses álacres bandos de romeiros são recebidos, em frente de cada habitação, pelo latir desesperado e raivoso dos possantes molossos guardadores de gado ou dos zeladores cães de vigia, que, entretanto, não ousam sair ao caminho, entrincheirados como estão entre as sebes dos terreiros fechados pelas porteiras. A essa hora, a lua que surgiu cedo descamba já para oeste ou então, se surgiu tarde, galga serena para o zênite, abrindo sobre a Terra a sua imensa, transparente e luminosa umbrela fina de linho. De instante a instante, um silêncio mais alto cresce e pesa sobre os campos. As risadas e a doce e saudosa toada dos cantares matutos vão, pouco a pouco, recuando para além. E no adro da freguesia onde a igreja se ergue, cheia de mistério e silêncio na solene e apavorante atmosfera mística que sempre e por toda a parte envolve os templos pela calada da noite — as grandes fogueiras de toros expiram lentamente, sobre um denso montão de cinzas que o sopro gélido do vento revolve de quando em quando, revivendo ainda nos tições carbonosos vagas brasas vermelhas que, apagando-se e acendendo-se iluminam agora fugidiamente o cruzeiro, como grandes reticências de sangue...

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