quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Voltareis, ó Cristo? (Conto), de Joaquim Norberto de Sousa


Voltareis, ó Cristo?

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Os outros passageiros, gente alegre e agitada pelo trabalho íntimo de uma digestão rija, conversavam bestialmente a respeito do meu amado e honrado amigo José Cardoso Vieira de Castro.

Sem intervir nas suas disputações, escutava-os o padre atento e melancólico.

E, compadecido até às lágrimas do formidável infortúnio que entretinha, entre chascos e insultos, aquela vilanagem, eu encarava no taciturno clérigo, e dizia entre mim: "Que pensará este ancião do desgraçado rapaz! Por que ampara ele a cara à mão convulsa, e despede um gemido de aparente compaixão? Quem será que lha inspira? Ela que morreu, ou ele que tem diante de si um arrancar da vida com agonias, cujo prazo está nos segredos da morte?" Apeamos em Moreira. Segui por debaixo das ramarias seculares que aformosentam a majestosa avenida da quinta dos Vieiras de Castro, na qual o meu amigo residira dois anos com a sua esposa. Eu ia olhando para as árvores que ele amava, e pensando que via despegar-se-lhes a folhagem que enverdecera quando no seio daquele incomparável mártir do seu pundonor caíram os gelos de um Inverno sem fim.

Observei que o padre me seguia a passo lento, e com o lance vago de olhos, aquele ver através de lágrimas, o pensar triste que os infelizes adivinham.

Esperei-o.

Ele abeirou-se de mim e cortejou-me, tratando-me pelo meu nome.

Perguntou-me se naquela casa morara algum tempo o sobrinho do seu condiscípulo e amigo, o ministro de estado Antônio Manuel Lopes Vieira de Castro.

Respondi: "Aqui viveu os mais encantados dias da sua vida".

E, volvidos alguns segundos, prossegui animado pelo aspeto contemplativo do sacerdote: "Esta grande casa avulta-se-me como o túmulo da felicidade dele. Quando daqui saíram as duas almas, Vieira de Castro já não era feliz. Ele tinha a inteligência tão alta como o coração, e devia sentir-se ferido do profético terror de ver cair do pedestal do anjo a mulher que vestira da luz esplêndida do seu amor e de toda a poesia da sua juventude. Vieira de Castro, nos meses que viveu aqui, danificou a sua hombridade de homem. Como vivia absorvido em apaixonada contemplação, e do céu e da soledade se lhe aumentavam os enlevos da vida íntima, o amor sopesou-lhe todas as faculdades, robustecendo-lhe a da soberba de ser amado de quem todas as mais paixões lhe pisava aos pés. A querida da sua alma não o viu descer de tão alto, até ajoelhar-se diante dela.

Os homens daquela têmpera, quando se arrependem de ter ajoelhado, erguem-se num ímpeto de dignidade, e quebram o ídolo.

O padre fitou-me com olhar de inteligência e comiseração. Detivemo-nos silenciosos e encostados à gradaria do portal; depois voltamos para a estação onde nos esperava a Diligência.

Neste intervalo, o ancião encarou-me com tristeza e disse: "Encontrei uma vez um homem de quem ouvi palavras terríveis e absurdas contra a sociedade. Eu não podia compreender que lampejasse luz de razão naquele homem... Réprobo diante de Deus creio eu que ele haja sido: mas integérrimo juiz dos costumes do seu tempo... isso foi ele, desgraçadamente... Quinze anos depois, as calamidades de Vieira de Castro Um dos meus companheiros de jornada para Vila do Conde era sacerdote idoso, de muito agradável rosto e maviosa tristeza no olhar contemplativo dilucidaram-me a escureza enigmática do homem, que me tinha parecido um peito de ferro a desbordar de crueldade...

E, momentos depois, disse: Como V. está em Vila do Conde, disponha de duas horas inúteis, e vá à Póvoa, onde tomo banhos, se quiser ouvir uma história em que aparece esclarecido o absurdo pela infernal que lhe derramou a catástrofe desse grande coração. Não falaremos dele senão a sós. Eu creio que no seio de Vieira de Castro as angústias são tantas, que já lá não podem entrar os insultos desta sociedade... que escarnece o marido tolerante, e roça a esponja do fel pelos lábios do homem que aceita o degredo — as mil dores do morrer para a Pátria e Família — com a condição de lhe não duvidarem da honra.

Fui.

E o padre falou assim:

Há quinze anos que eu pastoreava uma vigararia em Trás-os-Montes.

Num dia de dezembro de 1855 saí da minha residência com destino a ir consoar nos dias festivos do Natal com um Abade, meu companheiro da Universidade, o qual residia oito léguas distante. Como os caminhos eram péssimos e mal sabidos do meu criado, perdemo-los na cerração do nevoeiro, e chegamos tarde a um córrego, cujo pontilhão a enchente havia alagado. O único vau possível estava légua e meia afastado.

Era ao fim do dia: seriam quatro horas e meia; mas a noite fechara-se súbita, quando as nuvens se conglobaram ao poente, e uma neblina pardacenta rolou dos fraguedos das empinadas serras.

Retrocedemos assustados.

O meu criado tinha visto de passagem, por entre as brumas, alvejar uma casa grande com aspeto senhorial de torres e ameias.

Distava-nos dali obra de meia légua.

Ganhamos a custo a lomba da serra, onde chegamos com noite fechada. Daqui enxergamos luzes trementes ao través de vidraças, e ouvimos o latir de cães.

Apeei, e desci amparado no braço do criado, cujo coração palpitava de medo, não já de ladrões nem de feras; senão de fantasmas e lobisomens, que, no crer e dizer dele, eram vulgares por aqueles despenhos e selvas de castanheiros.

Consoante a minha filosofia me foi acudindo inspirativa, combati as crenças do meu pobre Manuel, cujo excelente espírito foi cedendo passo a passo à razão onipotente, por modo que afinal incomodava-o mais a perspectiva do frio e fome que o pavor dos fantasmas e lobisomens. Eu, neste receio, não lhe levava vantagem em fortaleza de espírito. Figurava-se-me calamidade superior às minhas forças o ter de pernoitar sobre um chão alagado, e sob o pavilhão do céu tão inclemente.

Nesta conjuntura, ouvimos o ladrar dos cães à nossa esquerda.

A primeira vereda que topamos, na direção do consolativo sinal de povoado, nos encaminhamos por barrocas lamacentas até entestarmos com um Largo portão de quinta. Manuel aldravou com quanta força lhe dera o contentamento, e esperamos, não sem receio de que os molossos da quinta remetessem contra nós de sobre os estrepes que vedavam o alto muro.

Do parapeito do mirante surgiu um vulto a perguntar-nos o que queríamos.

Respondi que era um padre, perdido no caminho de Mirandela, e pedia ao dono daquela casa a caridade de me agasalhar e ao meu criado por aquela noite.

Passado largo espaço, voltou o interrogador, que nos abriu o portão depois de haver acorrentado os cães, e nos meteu à cara uma lanterna de furta-fogo, deixando ver debaixo de cada braço uma pistola de alcance.

Aquietado pela confiança que lhe incutiu a minha cara pacífica, e a tão pacífica quanto estúpida do meu Manuel, o criado caminhou serenamente diante de nós.

Perguntei-lhe como se chamava o dono da casa. Disse-me o nome do fidalgo, e acrescentou que a fidalga estava a morrer ética.

— Nesse caso — tornei eu — queira dizer ao senhor Barão que eu não quero causar-lhe o menor constrangimento na situação triste em que está. Basta que sua excelência nos mande recolher, que nós sairemos cedo sem perturbar o seu sossego.

Entrei para um salão cujas alfaias eram quatro escabelos de pau com grandes Congela-se-me o coração de terror quando este relance pavoroso da minha vida me lembra. Já lá vão quinze anos. Ainda agora há noites em que a prisão me sobressalta, e sempre o meu espírito se estremece com o mesmo confrangimento armas pintadas no alteroso espaldar.

Daí a pouco, fui levado a outra sala mobiliada à antiga, com cadeiras de couro marchetadas de pregaria amarela, à mistura com uns tremós doirados e artesoados do reinado de D. João V, segundo me quis parecer. Das paredes pendiam nove retratos de homens, em que predominavam clérigos mitrados, e dos dois que vestiam farda agaloada com hábito de Cristo um dizia o letreiro que tinha sido capitão-mor.

Nesta contemplação me interrompeu o fidalgo.

Era homem de alta e direita estatura: figurava quarenta anos; tinha barbas grisalhas e grandes; ampla testa, e olhos rasgados e negros, impressivos, penetrantes, assustadores. De mim confesso que o fitava a medo, não sei porquê.

Interrogou-me gravemente sobre o ponto de onde vinha e para onde ia. Respondi como cumpria dilatando difusamente as respostas e circunstanciando-as para deste modo captar a benevolência do fidalgo que parecia escutar-me distraído.

Daí a pouco disse dentro uma voz que estava a ceia na mesa.
O senhor ergueu-se, levantou um reposteiro, e obrigou-me a precedê-lo na entrada com gentil ademane de cortesão.

A mesa era espaçosa demais para quarenta talheres; mas tinha só dois.

Sentei-me na cadeira que me foi indicada, e comi com a sem-cerimônia muito conhecida dos descorteses e dos famintos.

Durante a ceia substancial, ocorreu-me perguntar-lhe pelo estado da sua esposa; todavia, conteve-me a inoportunidade da ocasião, e o receio de me demasiar em inquirir de senhora quê eu não conhecia, não me sendo semelhante pergunta autorizada pelo silêncio do Barão.

Finda a ceia, segui-o ao longo de um corredor, e entrei no quarto que ele me indicou, dizendo:

— Não se deite já que eu preciso talvez do senhor para um ato próprio da sua profissão.

E desandou.

Fiquei a pensar, e sugeriu-se-me logo o pensamento de que eu seria chamado a ouvir de confissão a senhora enferma.

Esperei duas horas, durante as quais rezei as minhas rezas.

Voltou o taciturno fidalgo, e disse laconicamente:

— Há aqui uma mulher doente que se quer confessar.

— Estou pronto a ouvi-la — respondi espantado da secura daquelas palavras tão desamoráveis com respeito a uma esposa doente.

— Siga o criado que o está esperando no corredor — disse ele.

Saí ao corredor. O criado que me estava esperando era o mais mal-encarado homem que ainda vi na minha vida. Afuzilavam-se-lhe os olhos como brasas. A testa, único espaço iluminado daquela cara barbaçuda, sulcavam-na não sei se cicatrizes se ulcerações da modela. A corpulência era agigantada, e o carregar do sobrolho batia no coração de um homem como o súbito coriscar dos olhos de um tigre que rebenta de entre os carrascais de um deserto. Os pintores cristãos nunca souberam bosquejar Lúcifer, porque semelhante homem jamais deu nos olhos de artista, que desejasse fazer bem conhecida a plástica do Diabo com feitio de gente.

Segui-o com calafrios, superiores à minha razão que me aconselhava tranquilidade.

Hoje, volvidos quinze anos, conto isto com certo sorriso de fácil coragem; mas, nos primeiros tempos, aquele vulto andava terrivelmente associado ao quadro negro que vou tentar descrever.

***

— Levante o fecho, e entre.

A primeira vista o que pude estremar das trevas, era um clarão azulado, como de lamparina baça, cuja claridade se esvaecia logo absorvida pela escura algidez da alcova.

Avizinhei-me a passos trêmulos da lâmpada, e distingui um leito, e na almofada do leito um vulto. Fixei o que me parecia ser um rosto de criança, e pude entrever um rosto de mulher, com os olhos cravados em mim, olhos que vasquejavam os derradeiros clarões, olhos como devem de ser os dos espectros que surgem subitâneos nas trevas aos perversos que negam Deus e temem os espectros.

— Aproxime-se, senhor. A moribunda sou eu — disse ela com voz rouca, mas serena.

— Deus permitirá que vossa excelência esteja menos doente do que pensa — balbuciei com uma espécie de terror secreto, pressentimento de alma que já se doía antecipadamente da mágoa que se lhe ia refletir do singular e imenso suplício daquela mulher.

— Fale baixo que nos escutam — volveu ela ciciando as palavras, e esbugalhando os olhos para a porta.

— Escutar-nos! — repliquei com assombro. — É impossível! Eu fui aqui enviado para ouvi-la de confissão, minha senhora — Bem sei; mas isso não importa... Quero que me ouça; mas muito baixinho... Vou contar-lhe a minha vida como a Deus; mas não me confesso como a um padre... É a um homem que há de ter pena de mim, depois de me ouvir; e me há de fazer um serviço que lhe pede uma agonizante, que crê em Deus; mas não pode crer na religião feita por homens que têm semelhança do algoz que me mata.

Isto dizia ela de afogadilho e febril, mas com abafações e ânsias aumentadas pelo medo de ser escutada.

— Mas não é em confissão que a senhora me quer revelar as culpas que lhe pesam na consciência?! — perguntei.

— Não, senhor; eu não creio na confissão. Do mal que fiz estou perdoada; tenho sofrido todas as torturas deste mundo; se as há no outro, nenhuma pode assustar-me.

O meu dever seria combater a incredulidade desta senhora com os sólidos argumentos de que dispõe a teologia contra mais poderosos adversários; abstive-me, porém, de exacerbar o ânimo aflito da enferma por me parecer extemporânea a discussão e recear que o tempo escasseasse ao triunfo, nem sempre pronto, dos bons princípios. Não obstante, repliquei, no intento de encaminhá-la à piedade:

— Se vossa excelência não quer confessar-se, diga-me que serviço posso fazer-lhe em benefício da sua alma...

— Vá ver se alguém nos escuta... — insistiu ela, apontando para a porta com a mão descarnada.

Fui com repugnância, afigurando-se-me que a minha posição no grêmio desta família sinistra ia assumindo certa gravidade e um ar de mistério mais ou menos arriscado. Abri cautelosamente a porta, olhei ao longo do corredor, e nada vi; salvo lá ao cabo um lampião a tremer balouçado pelas esfuziadas de vento que assobiava no teto.

Fechei a porta, asseverando à enferma que ninguém nos escutava. Ela então sentou-se com violento ímpeto no leito, aconchegou do pescoço, que transpirava, a colcha da cama, bebeu alguns tragos de água, e balbuciou com ansiosas suspensões:

— Casaram-me há seis anos com este homem que me mata. Eu amava outro homem, que não teve coração nem honra que me salvasse de tamanho verdugo. O meu pai. O medonho guia mostrou-me a porta de um quarto, e resmoneou: sacrificou-me, pensando que me felicitava. O homem que eu amava deixou-me sacrificar, porque não tinha peito que suportasse o peso de uma mulher pobre. Vim de Lisboa, onde o dono desta casa era deputado. Vim; e, ao cabo de alguns meses, o meu marido arrependera-se de se ter enganado, pensando que uma mulher simplesmente formosa, mas sem amor, poderia encher-lhe as ambições, e dar-lhe o contentamento que ela não tinha. Saciou-se, enojou-se, aborreceu-me. Não me deu rivais, porque só quem ama se sente ultrajada pelas infidelidades. Eu não conheci rivais: conheci apenas mulheres que nesta casa valiam e mandavam mais do que eu.

Voltou à câmara o meu marido. Aqui fiquei, não obstante lhe pedir com muitas lágrimas que me deixasse ir ver o meu pai, e os meus dois irmãos que tinham vindo da África, onde tinham estado alguns anos negociando. O meu marido demorou-se ano e meio em Lisboa. Neste longo intervalo chorei muito, e só deixei de chorar, quando... quando me vinguei. Compreende-me?

— Quando se vingou? como se vingou vossa excelência?! — perguntei.

— Vinguei-me... mas foi a paixão que me deu torças... Houve um homem que teve por mim um grande amor e um grande dó. Amei-o. Lutei. Pedi a Deus que me ajudasse, que me fortalecesse. Pedi à alma da minha honrada mãe que me amparasse... pedi ao meu marido que me deixasse ir para si ou para a companhia do meu pai... Nem Deus, nem a minha mãe, nem o meu marido me valeram... — Sucumbi... A minha culpa foi cega. Confiei — me de uma criada que tinha chorado comigo. Fui atraiçoada. O meu marido teve denúncia da minha queda, e apareceu aqui inesperadamente. Nada me disse. Tratou-me com a mesma frieza, com o mesmo desprezo. Não estranhei. O homem que eu amava, era ainda parente dele e estudava em Coimbra. Tinha o coração cheio de ânsias e desejos da morte. Compreendeu este infeliz que o meu marido desconfiava. Quis fugir comigo para Espanha, e eu resisti, mais por amor dele que do meu crédito. O meu cúmplice não podia com o encargo, e iria viver ou morrer miseravelmente em pais estranho.

Passados dias, deixei de ter notícias dele. Imaginei-o já em Coimbra, posto que não fosse tempo de aulas. Correram três meses. Nova nenhuma. A criada que me falava dele, recebido o prêmio da traição, tinha fingido que a sua família a chamava. Só então ouvi dizer a outra criada que o parente do meu marido desaparecera sem dizer a ninguém o seu destino; e que a família dele vivia consternada com tal sucesso, enviando a toda a parte indagações inúteis.

Seis meses depois que o meu marido voltara de Lisboa, soube eu que se estava preparando este quarto pela sua ordem. Vim ver as obras, e perguntei-lhe para que era o armário estreito que se estava fazendo nesta parede e para que eram as grades na janela.

Meu marido respondeu: "Sabê-lo-á brevemente".

Concluídas as obras, vi que a minha cama era para aqui mudada, com tudo que me pertencia.

Uma noite, o meu marido conduziu-me a este quarto. Fechou-se por dentro e disse-me:

"A senhora entra aqui de onde nunca mais sairá; e para não estar sozinha, aqui lhe deixo uma adorável companhia com quem pode conversar à sua vontade". E dizendo isto, abriu aquele armário, e apontou para um esqueleto, dizendo: "Aqui tem o seu amante. Abrace-se nele até ficar reduzida ao estado em que lho ofereço para que o possa gozar com toda a liberdade".

Eu caí por terra sem sentidos — prosseguiu ela, limpando as lágrimas, e aspirando com força. — Quando voltei à vida, pensei que saía de um sonho. Ouvi dar meia-noite.

Era tudo escuridão neste quarto. Apalpei à volta de mim. Não conheci onde estava.

Continuei apalpando. Pousei as mãos numa coisa fria e áspera que estremeceu. Recuei horrorizada... Eram ossos... eram as costelas do esqueleto. Então acordei... então me fugiu outra vez a razão com um grito do peito dilacerado. Caí outra vez para diante com a face de encontro aos ossos frios, horrivelmente frios...

E ela estralejava com os dentes convulsos, e apertava a roupa no pescoço. Após longo espaço, prosseguiu:

— Ao romper do dia, abri uma janela com o propósito de me suicidar. Dei com a face nas grades. Lancei-me à porta que estava fechada por fora, e gritei por socorro.

Abriu-se. Vi um criado com um aspeto ameaçador, impondo-me silêncio. Este criado era um criminoso que o meu marido acolhera para o salvar da justiça que o perseguia. Era esse mesmo que o trouxe aqui há pouco. É o único ente vivo que eu vejo há dois anos duas vezes por dia, quando me traz alimentos. Foi ele quem matou e espedaçou aquele infeliz...

E, dizendo, apontava para o armário do esqueleto. Continuou:

— Eu quis suicidar-me pela fome. Não pude. Quando as agonias da morte começavam, eu lançava-me vertiginosamente sobre a comida, e devorava-a sem a consciência do que fazia. De outra vez consegui com um garfo romper uma veia; mas o sangue estancou; senti ânsias mortais; envelheci; desfigurei-me, segundo o que sinto, se palpo o meu rosto; que eu há dois anos me não vi num espelho... Não consegui morrer.

Voltei-me para Deus com rogos, com desesperadas súplicas. Orei muito, chorei muito, e obtive um grande benefício. Cal num desalento, numa sonolência de moribunda que durou não sei se dias se anos. Depois, quis levantar-me deste leito, e já não pude.

Comecei a pedir a Deus a morte, e a senti-la avizinhar-se pela mão da divina caridade.

Há de haver três horas que entrou aqui o confidente do meu carrasco perguntando-me se me queria confessar. Fiquei espantada da religião destes algozes, e respondi que sim; mas o que eu queria, senhor padre — disse ela estendendo para mim impetuosamente os braços — era pedir-lhe que depois da minha morte, faça saber aos meus irmãos este miserável fim que eu tive, para que eles me vinguem...

Acabava a infeliz de proferir estas palavras em voz mais desafogada, quando a porta que eu havia fechado por dentro se abriu impelida por um valente encontro.

***

Faiscavam-lhe áscuas de rancor os olhos injetados. Crispavam-se-lhe os beiços retraídos.

A cólera engasgava-o a ponto de tartamudear estas vozes ejaculadas a trancos:

— Os seus irmãos que venham cá e eu lhes contarei a vida da sua honrada irmã!

E ela cobriu os olhos com as mãos, e resvalou para dentro da roupa, como se desejasse cair na sepultura.

Eu caminhei placidamente para aquele homem terrível, abeirei-me dele que me fitava com sobranceria, ajoelhei e disse-lhe com a voz tremente de lágrimas:

— Perdoe-lhe. Deixe-a morrer em paz. Deixe-a experimentar os benefícios da sua compaixão para implorar confiadamente os da misericórdia divina. Encarou-me de um modo indefinível. Saiu do quarto, e, já fora, murmurou secamente:

— O senhor padre recolha-se ao seu quarto.

Relanceei um derradeiro olhar para o leito; não a vi; mas ouvia o soluçar alto e cavernoso do peito que se esfacelava.

Mal entrei no quarto onde havia de pernoitar, rebentaram-me as lágrimas copiosas. Levantei a Deus o espírito repassado de terror e compaixão, pedindo-lhe que despenasse a penitente, ou radiasse luz de comiseração em tão carniceiras entranhas.

Neste lance entrou ele, assentou a mão direita sobre o meu ombro, e disse:

— Aquela mulher vociferou uma infâmia digna da sua desonra, se quis desculpar o seu crime com as infidelidades de que me acusa. A mulher que se vinga do marido, prostituindo-se, cavou a sepultura, e espera que a sociedade ou o marido a sepultem. Eu não a matei. Encarreguei o esqueleto do homem, que a desonrou, da missão da ir matando lentamente Olhe que eu amei aquela mulher. Não a seduzi, não a iludi, não a fascinei, nem a disputei a outro. Pedi-a ao seu pai. Ele consultou-a; ou fingiu que a consultava. Como quer que fosse, esta mulher veio risonha para os meus braços; chamou-se com orgulho a Baronesa de ***; mentiu-me cem vezes acusando-me de ingrato ao seu coração que me estremecia. Afinal, esta mulher crê ainda imperfeita a sua vingança, e na hora extrema invoca os irmãos para que a vinguem. De quê? de que hão de vingá-la os irmãos? De eu lhe haver matado o amante? Que me responde a sua cristã filosofia?

— Que o terror que vossa excelência me incute não me deixa atinar com palavras que o comovam... — balbuciei.

— Mas responda, senhor!

— Respondo ajoelhando novamente a suplicar-lhe o perdão da culpada.

— Não posso — bradou ele. — Há dois anos que não saí de dia desta casa, receando que todos saibam da minha desonra. Não posso perdoar-lhe sem que a Providência me desoprima do vexame do meu opróbrio!

— Seria generosidade havê-la matado... — interrompi.

— Bem sei — redarguiu ele — bem sei. Ela sofria cinco minutos de castigo, e eu ficava sofrendo uma vida inteira de vergonha. Eram suplícios incomparáveis! Além de que, se eu a houvesse esmagado debaixo do peso da minha afrontosa desgraça, o mundo santificá-la-ia, lavando-lhe com hipócritas lágrimas os ferretes da cara para que se atendesse somente às manchas de sangue nas minhas mãos de assassino... Compreende isto, padre? Conhece bem a sociedade em que toda a infâmia é uma Convenção, e toda a honra de marido que se desafronta há de lutar depois com a desonra irritada dos maridos.

***

Era o marido. Esporeados pelo zelo devassíssimo das esposas? Conhece o Mundo como Cristo o encontrou há 1855 anos? Sabe o que veio fazer Jesus Cristo à Terra?

— Morrer pela redenção dos que o mataram, senhor.

— Não o percebo! — exclamou ele com um formidável brado, e saiu do quarto...

Eu não pude adormecer. Parecia-me ouvir um gemido longo confundido com o sibilo do nordeste no entravamento da casa. Rezei muito por ela.

Ao alvorejar da manhã, vi um criado que perpassava no corredor. Perguntei-lhe a que horas se erguia o fidalgo. Respondeu-me que se havia deitado um quarto de hora antes. Pedi-lhe que mandasse o meu criado sair do seu quarto, e fizesse ao dono da casa os meus cumprimentos com os mais ardentes protestos de eterna gratidão.

Despedi-me assombrado daquela casa, onde se respirava um acre nauseativo de cadáveres. Ardia-me o peito e a cabeça por tal sorte que eu não sentia a chuva glacial daquela manhã de 24 de dezembro de 1855.

Fecho a minha história com a pedra que cobriu o cadáver da Baronesa de ***. No dia 27 de dezembro me disseram uns pastores convizinhos que a fidalga morrera à hora em que as famílias honradas e felizes se juntavam para receberem as bênçãos dos seus anciãos, e comemorarem com santos júbilos o nascimento do divino Redentor.

Agora dir-lhe-ei qual era o paradoxo, que tal se me figurou há quinze anos.

Aquele cruelíssimo homem tinha-me dito: Se eu a houvesse esmagado debaixo do peso da minha afrontosa desgraça, o mundo santificá-la-ia lavando-lhe com hipócritas lágrimas os ferretes da cara, para que se atendesse somente às manchas de sangue nas minhas mãos de assassino.

Ora eu entendi a profunda verdade desta cláusula depois que Vieira de Castro, ao cair agonizante sobre a terra onde tem de vasquejar largos anos, matou a esposa, porque a cingia apaixonadamente nos braços da sua alma. Morreu-lhe o coração. Ela não teria morrido, se o infeliz a pudesse arrancar de lá antes de cair.

***

— Meu Deus, enviai segunda vez à Terra o vosso divino Filho! Esta negridão gentílica é pior que a de há dois mil anos. Naquele tempo esperava-se; nas entranhas sociais estremecia o pressentimento de um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altíssima Providência! Nada! Mas... voltareis, ó Cristo?

E prosseguiu, corridos instantes:

— Que haverá já agora nesta vida que possa levantar a alma do seu amigo?

— O esteio da dignidade.

Conheci-o quando os horizontes da vida se lhe prefiguravam e realizavam em risonhas prosperidades. O destino, como forçado pelo talento, ajoelhava-lhe. Não o admirei então, senão porque felicidade e gênio pareciam dar-se as mãos e concertar-se no plano do exalçarem onde raro em Portugal subiram grande espírito e grande coração.

Hoje cerram-se contra ele injúrias e trevas.

A luz do seu honrado infortúnio é um reverberar sinistro de uma estrela funesta, cuja claridade lhe banhará a sepultura por esse viver das gerações além. A posteridade dos seus irmãos irá aí retemperar sentimentos de pundonor; e os descendentes dos meus filhos pensarão que me veem absorto entre eles em frente das cinzas de Vieira de Castro.

Vai-se-lhe a vida diluída em lágrimas de sangue. Vai. Mas a página que deixa dirá que a onda da corrupção quando chegou até ele, desfez-se-lhe aos pés. Se a onda lhe revolveu e abriu a terra da sepultura, aqui ou em África, não importa.

Prouvera a Deus que ele não chorasse a felicidade que lhe mataram! Sobre quem mandará Deus que caiam as lágrimas que Vieira de Castro há de chorar pela sua mãe e irmãos? No dia em que ele sair para África, as almas compassivas irão às igrejas pedir ao Altíssimo que ilumine o seio do degradado com um raio de misericordioso alento Deixá-lo ir.

Deixá-lo esconder-se dos olhos desta aviltante piedade que deixou do apedrejar quando o viu perdido.

***

Loura criança que eu vi, há vinte anos, iluminada pelas últimas alegrias da fugitiva infância, prouvera a Deus que o sepulcro do teu pai se te abrisse então.

Os embriões das tuas alegrias da juventude esmagou-os a pedra que desceu sobre o seio onde se perderam os tesouros que tinham de completar a felicidade da tua alma.

O teu coração, aos dezoito anos, abafava em si as amarguras da soledade, retraia-se em devorantes desejos do amor de família, a paixão santa, única e profunda que eu te conheci.

Quem imaginou que tu choraste amaríssimas lágrimas naquela tua casa triste que demora solitária entre duas serras?

No mais verde dos anos, abalizaste os teus anelos juvenis entre umas árvores que os teus avós plantaram; e ali, sozinho, esperaste que a Providência te deixasse reflorir uma primavera na alma.

O teu formidável espírito reagiu contra a mais crua sorte que ainda fadou uns vinte anos relegados desse gozar comum que permite a cada homem sentir o alvorejar dos afetos e as musicas do céu que embalam a alma para sonhar venturas.

Tu não as sonhaste quando o coração desbordava de seiva para renascer das suas mesmas cinzas, se a perfídia o cancerou com a sua peçonha.

Um dia, já tarde, amaste pela primeira vez, quando te deu de rosto e te cegou a luz funesta que desce do céu com os anjos despenhados.

Quando baixaste a face até ao chão onde ajoelhavas em adoração de criança que beija os lábios da sua mãe, em adoração de pai que aconchega no seio as mãos da sua filha, sentiste que a desonra te cravava as garras, e te desentranhava do peito a alma, e ta expunha em pelourinho infame aos insultos dos que passavam.

Tu não podias ajustar às faces a máscara que te ofereciam as mãos infames da tolerância.

Ao teu rosto não podiam sair as lágrimas fáceis das almas vulgares porque era sangue, era a vida toda que te tinham arrancado.

E tu premeditaste!... Oh! não premeditaste nada, infeliz!

Quem contará as horas, os períodos de infernal duração que passaram na tua vida?

Curvaste-te sobre o teu abismo; e ali quedaste empedrado até que resvalaste nas fauces da voragem.

No teu baque levaste contigo um cadáver que te abrira o golfão com as mãos ainda quentes dos teus beijos.

Não premeditaste nada, infeliz.

Cada minuto que ia passando estalava-te uma fibra da alma, queimava-te uma partícula do cérebro, escaldava-te em veneno dilacerante cada lágrima que te refluía dos olhos.

Não era somente a honra perdida que te excruciava; era a mulher idolatrada que ainda vivia e já te pesava morta no coração.

Ao passo que a mão de ferro da desgraça te batia no seio, tu ias acordando ao estrondo horrível. Cada instante era o precursor de novas trevas que se iam condensando, era o bago da areia que ia caindo, era uma esperança derruindo depôs outra, era o ir-se toda a alma espedaçada até esvaziar-se o peito de lágrimas, e encher-se de rancor inexorável, espicaçado pela desonra e ingratidão.

Oh! tu não premeditaste nada, infeliz!

Os que delinquiram premeditando, não dizem à justiça humana: “Aqui estou! condena-me!”

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