domingo, 10 de dezembro de 2017

A Marcelina (Conto), de Artur Azevedo


A Marcelina
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I
Naquele tempo (não há necessidade de precisar a época) era o doutor Pires de Aguiar o melhor freguês da alfaiataria Raunier e uma das figuras obrigatórias da Rua do Ouvidor. Como advogado diziam-no de uma competência um pouco duvidosa, o que aliás não obstava que ele ganhasse muito dinheiro, — mas como janota — força é confessá-lo — não havia rapaz tão elegante no Rio de Janeiro.

Rapaz? Rapaz, sim: o doutor Pires de Aguiar pertencia a essa privilegiada classe de solteirões que se conservam rapazes durante trinta anos.

Quando lhe perguntavam a idade, respondia invariavelmente: — Orço pelos quarenta, — e durante muito tempo não deu outra resposta. Os seus contemporâneos de Academia atribuíam-lhe cinquenta, bem puxados. As senhoras, essas não lhe davam mais que trinta e cinco.

Ele tinha um fraco pelas mulheres de teatro. Consistia o seu grande luxo em ser publicamente o amante oficial de alguma atriz. Não fazia questão de espírito nem de beleza; o indispensável é que ela ocupasse lugar saliente no palco, e fosse aplaudida e festejada pelo público. Não era o amor, era a vaidade que o conduzia à nauseabunda Cythera dos bastidores.

Essas ligações depressa se desfaziam; duravam enquanto durava o brilho da estrela; desde que esta começava a ofuscar-se, ele achava um pretexto para afastar-se dela e procurar imediatamente outra. Como era inteligente e generoso — muito mais generoso que inteligente, — nunca ficava mal com o astro caído.

Algumas vezes o rompimento era provocado por elas — pelas de mais espírito, — que facilmente se enfaravam de um indivíduo tão preocupado com a própria pessoa, e tão vaidosa e suas roupas.


II
No tempo em que se passou ação deste ligeiro conto, a nova conquista do doutor Pires de Aguiar era uma atriz portuguesa, a Clorinda, que viera de Lisboa apregoada pelas cem trombetas da réclame, e cuja estreia, num dos nossos teatrinhos de opereta, o público esperava ansiosamente.

Uma hora antes de começar o espetáculo de estreia, entrou o advogado triunfantemente na caixa do teatro, levando pelo braço a sua nova amiga, elegantemente envolvida numa soberba capa de pelúcia. Ia fazer-lhe entrega do camarim, cujo arranjo confiara liberalmente ao bom gosto e à perícia dos mais hábeis tapeceiros e estofadores.

Ela ficou encantadíssima, e agradeceu com beijos quentes e sonoros a dedicada solicitude do amante.

Que belo tapete felpudo! que bonitos quadros! que papel bem escolhido! que delicioso divã! que magnífico espelho de três faces, onde o seu vulto airoso se refletia três vezes por inteiro! e que profusão de perfumarias! e que preciosos serviço de toilette...

Nada faltava também sobre a mesinha da maquillage, intensamente iluminada por dois bicos de gás.

O doutor Pires de Aguiar tinha longa prática desses arranjos; não podia esquecer-se de nenhum dos ingredientes necessários ao camarim de uma atriz que se respeita; o arsenal estava completo.

Dali a nada ouviu-se um — Dá licença? — e o diretor de cena entrou no camarim acompanhado por uma mulher já idosa, muito pálida, de aspecto doentio, pobremente trajada. — Dona Clorinda, aqui tem a sua costureira.

A estrela não conteve um gesto de despeito. O diretor de cena compreendeu-o, e saiu imediatamente, para não entrar em explicações.
— É doente? perguntou Clorinda à costureira.

— Não, senhora. Tive uma doença grave, mas agora estou boa. Sai há dois dias da Santa Casa. Clorinda trocou um olhar com o advogado, e este disse-lhe, refestelando-se no divã:

— Ma chère, il faut se contenter de cette hábilleuse; nous ne sommes pas en Europe.

Ele impingiu esta frase em francês, para que não a entendesse a costureira, mas a verdade é que Clorinda também não percebeu, o que aliás não a impediu de responder: — Oui.

Despojada da mantilha e da bela capa de pelúcia, Clorinda sentou-se entre os dois bicos de gás, e começou a pintar-se, dizendo: — Vamos a isto!

E dirigindo-se à costureira:

— Sente-se. Por que está de pé?

A pobre mulher sentou-se a medo, como receosa de macular a palhinha dourada da cadeira com o seu miserável vestido de chita.

— Sabe que me disseram bonitas coisas a seu respeito? perguntou a atriz ao advogado, olhando-o pelo espelho.

— Deveras?

— Ao que me parece, você tem sido um gajo!

O doutor Pires de Aguiar teve um sorriso inexprimível. Aquele gajo entrou-lhe pela vaidade a dentro com uma grancruz.

— Com que então, a sua especialidade são as atrizes?

— Sou doido pelo teatro.

— E há quanto tempo dura essa doidice?

— Há muito tempo. Estou velho, bem vê. Orço pelos quarenta.

— Ninguém lhe dará mais de trinta e cinco.

— São os seus olhos.

— Qual foi a sua primeira paixão no teatro?

— Ah! isso...

—...isso é pré histórico, perde-se na noite dos tempos.

— Como se chamava esta colega?

— Chamava-se Marcelina.

— Que fim levou?

— Sei lá! provavelmente morreu. Nunca mais ouvi falar dela. Há mulheres que desaparecem como os passarinhos que não foram mortos a tiro nem engaiolados: ninguém lhes vê o cadáver.

— Gostou dela?

— Foi talvez a paixão mais séria da minha vida.

— Nunca mais a procurou?

— Para quê?

— Tinha talento?

— Talento? Não. Tinha habilidade.

— Tinha habilidade e era muito boa rapariga.

— Brasileira?

— Sim, Representava ingênuas em dramalhões de capa e espada, ali, no São Pedro de Alcântara. Um dia — eu já a tinha deixado — um dia patearam-na por motivos que nada tinham que ver com a arte dramática; ela desgostou-se; andou mourejando pelas províncias, e afinal desapareceu. Requiescat in pace!

Entrou o cabeleireiro. Enquanto Clorinda lhe confiou a cabeça, o doutor Pires de Aguiar divagou longamente sobre os méritos de Marcelina; depois falou de outras atrizes, desfiando o interminável rosário das suas mancebias.

Clorinda, a costureira e o cabeleireiro ouviam sem dizer palavra.                   

Terminado o serviço do cabeleireiro, que logo se retirou, Clorinda ergueu-se:

— Agora, meu doutor, há de me dar licença, sim? Vou vestir-me.

— Até logo, disse o advogado. O seu penteado ficou esplêndido! Vou aplaudi-la. Bonne chance!

Deu-lhe um beijo — na testa para não desmanchar a pintura, — e saiu do camarim, cuja porta a costureira discretamente fechou.


III
Minutos depois, Clorinda estava completamente nua.

— A senhora é muito bem feita de corpo, disse-lhe, num tom adulatório, a costureira, enfiando-lhe pela cabeça a camisa de seda.

— Acha? perguntou desdenhosamente a atriz.

— Ah! eu também já fui bem feita de corpo, mas... não tive juízo: fiei-me demais nos homens. Se quer aceitar um conselho, filha, preste mais atenção à sua arte do que a todos esses... gajos, que fazem das mulheres um objeto de luxo e nada mais. Só assim a senhora evitará o hospital e a miséria.

— Ora esta! exclamou Clorinda. Quem é você, mulher, para me falar assim?

— Eu sou.... a Marcelina.

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