sábado, 16 de dezembro de 2017

A mulher dengosa (Conto), de Sílvio Romero


A mulher dengosa
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez um homem casado com uma mulher muito dengosa, que fingia não querer comer nada diante do marido. O marido foi reparando naquelas afetações da mulher, e quando foi num dia ele lhe disse que ia fazer uma viagem de muitos dias. Saiu, e em vez de partir para longe, escondeu-se por detrás da cozinha, num coxo.

A mulher, quando se viu sozinha, disse para a negra: “Ó negra, faz aí uma tapioca bem grossa, que eu quero almoçar.” A negra fez e a mulher bateu tudo, que nem deixou farelo. Mais tarde ela disse à negra: “Ó negra, me mata aí um capão e me ensopa bem ensopado para eu jantar.” A negra preparou o capão, e a mulher devorou todo ele e nem deixou farelo. Mais tarde a mulher mandou fazer uns beijus muito fininhos para merendar. A negra os aprontou e ela os comeu. Depois já de noite ela disse à negra: “Ó negra, prepara-me aí umas macaxeiras bem enxutas para eu cear.” A negra preparou as macaxeiras e a mulher ceou com café.

Nisto caiu um pé d’água muito forte. A negra estava tirando os pratos da mesa, quando o dono da casa foi entrando pela porta a dentro. A mulher foi vendo o marido e dizendo: “Oh, marido! Com esta chuva tão grossa você veio tão enxuto!?” Ao que ele respondeu: “Se a chuva fosse tão grossa como a tapioca que vós almoçastes, eu viria tão ensopado como o capão que vós jantastes; mas como ela foi fina como os beijus que vós merendastes, eu vim tão enxuto como a macaxeira que vós ceastes.” A mulher teve uma grande vergonha e deixou-se de dengos.

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