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12/19/2017

O Negro Pachola (Conto), de Sílvio Romero


O Negro Pachola
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia uma senhora de engenho casada e sem filhos. Adoecendo o marido e morrendo, ficou em lugar dele um preto africano, chamado Pai José. Assim que Pai José ouviu dizer que ia governar o engenho, ficou muito orgulhoso.

Logo que foi distribuir o serviço com os outros negros, passou ordem a eles que de ora em diante não o tratassem mais por Pai José, e sim por Sinhô Moço Cazuza.

Os negros obedeceram e quando o viam, diziam: “Abença Sinhô Moço Cazuza.” O negro, muito concho, respondia: “Bênção de Deus”.

Não ficou só aí o orgulho do negro. Quando chegou em casa, disse para a senhora: “Meu sinhá, quando Sinhô Moço Cazuza chegava em casa cansado, meu sinhá não mandava botar logo banho para ele? Pois eu também quer.” A senhora, coitada, não teve outro remédio senão mandar botar banho para o Pai Zosé.

Não satisfeito ainda, disse o negro: “Meu sinhá, não mandava mulatinha esfregar costa de meu sinhô? Pois eu também quer”. A senhora mandou a mulatinha esfregar as costas de Pai Zosé. Este ainda continuou: “E meu sinhá não dava camisa grosmada pra meu sinhô vestir? Pai Zosé também quer”. A pobre moça foi buscar uma camisa engomada, deu para José vestir, e, vendo que devia acabar com as pacholices daquele negro, falou com os dois criados, muniu-se de bons chicotes e mandou-os esconderem-se no quarto. Esperou que o negro pedisse mais alguma coisa e não tardou que este dissesse: “Meu sinhá, quando meu sinhô acabava de tomar banho e de vestir camisa grosmada, ia para o quarto pra meu sinhá catar piolho nele. Pai Zozé também quer”.

A moça não teve dúvida. Mandou-o entrar para o quarto e deu ordem aos criados que empurrassem o chicote.

Se ela bem ordenou, melhor executaram os criados.

Pai Zosé apanhou tanto que escapou de morrer.

No outro dia bem cedo foi para a roça ainda muito magoado das pancadas, e quando os negros o saudaram: “Abença, Sinhô Moço Ca-zuza”, ele muito zangado respondeu: “Eu não sou Sinhô Moço Cazuza, não, eu sou Pai Zosé”.E deu nova ordem para tratarem pelo seu próprio nome. Os negros muito admirados ficaram, sem saber a causa daquela mudança.

Nunca mais Pai José pediu banho, nem camisa engomada, nem à senhora para catar piolhos.

A mulher gaiteira (Conto), de Sílvio Romero


A mulher gaiteira
(Contos populares do Brasil –  Rio de Janeiro)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia uma mulher casada e que não tinha filhos. Defronte dela morava um padre, pelo qual a mulher apaixonou-se.

Ela chamava-o de Rabo de Galo, por ele ter os cabelos muito bonitos.

O padre não correspondia e mesmo nem sabia de tal paixão.

A mulher já não governava mais a casa e só queria estar na janela para ver o padre. Estava já tão doida, que chegava a dizer ao marido: “Não é bonito aquele padre?” O marido fingia não compreender e afirmava o que ela dizia.

Não satisfeita de ver o padre só da janela, a mulher não perdia missa um só dia, a pretexto de ir rezar, e o marido suportando tudo calado. Querendo ver até que ponto chegava aquela mulher, pretextou uma viagem e escondeu-se perto de casa, recomendando à negra que lhe fizesse sabedor de tudo o que sua mulher praticasse na sua ausência.

Não tardou em que a negra lhe viesse entregar um bilhete que a senhora ia mandar por ela ao padre, no qual pedia-lhe uma entrevista à noite, visto o marido não estar em casa. O homem apoderou-se do bilhete, disse à negra que dissesse à senhora que o tinha entregado ao padre, e escreveu, disfarçando a letra, outro bilhete, dizendo ser do padre, aceitando o convite e marcando a hora da dita entrevista. Trouxe a negra o bilhete e deu-o à senhora. Esta não cabia em si de contente, e à hora marcada, entrou o marido, que se disfarçou no padre, vestido de batina, e com um grande chicote de couro cru escondido. A mulher convidou-o a entrar no quarto para descansar. Aí não teve dúvida; o marido empurrou-lhe o chicote a torto e a direito, ainda fingindo ser o padre e dizendo: “Mulher casada, sem vergonha, como é que seu marido não está em casa, e manda-me um bilhete convidando-me para vir aqui! Tome juízo”, dizia o padre, e empurrava o chicote na mulher. Ela, desesperada com as bordoadas, dizia: “Vai-te embora, padre dos diabos, se eu soubesse que tu eras tão mau, não tinha caído nesta. Sai, malvado, tu queres me matar? Basta, não me dês tanto.” O marido, depois que deu-lhe muito, saiu deixando a mulher quase morta de pancadas. Mudou toda a roupa, e veio para casa, fingindo ter chegado da viagem. Perguntou pela mulher e disseram-lhe que ela estava doente. Ele, muito penalizado, perguntou que moléstia era aquela, pois ele a tinha deixado tão boa. Ela respondeu que sentia muitas dores pelo corpo, mas que também não sabia o que era. Mal pôde dizer estas palavras ao marido, e começou logo a gritar, tão forte era o seu sofrimento. Então o marido disse que ela estava muito mal, e que ele ia mandar chamar aquele padre, que morava defronte, para confessá-la. A mulher ouvindo isto, exclamou: “Não, marido, por Nossa Senhora não me mande chamar aquele padre.” O marido replicou: “Pois mulher, você não o acha tão bonito, e como não quer que ele venha lhe confessar?” E para apreciar bem o efeito da surra, mandou chamar o padre do Rabo de Galo, como a mulher o chamava, e este veio confessá-la, alheio a tudo o que tinha se passado. A mulher, assim que foi vendo o padre, foi dizendo: “Sim, seu diabo, ainda achou pouca a surra que me deu, e ainda se atreve a vir aqui?

“Sai, diabo, vai-te embora.” O padre ficou espantado, e acreditou que a mulher estava com efeito muito doente, que talvez estivesse com o diabo no corpo, e então benzia-a e dizia: “Filha, acomoda-te, lembra-te de Deus, que estás para morrer. Eu esconjuro este mau espírito, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amém”.

“Sim”, dizia a mulher: “Eu esconjuro é a surra que tu me deste.” O padre, depois de muita reza retirou-se, e o marido quase que não podia conter o riso. Passados muitos dias, de cama, levantou-se a mulher curada da grande surra. A primeira coisa que fez foi pregar a janela que dava para a casa do padre, com uns pregos bem fortes, o que, vendo o marido, disse-lhe que não fizesse aquilo, que aquela janela era para ela se distrair nas horas vagas. Por mais que o marido pedisse, a mulher não foi capaz de deixar de pregar a janela e nunca mais olhou o padre.

O homem tolo (Conto), de Sílvio Romero




O homem tolo
(Contos populares do Brasil – Rio de Janeiro)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia uma mulher que era casada com um homem muito tolo. Ela era quem trabalhava para sustentar os filhos. Para ver se o marido a ajudava em alguma coisa e como ele era muito estúpido, ela lembrou-se de mandá-lo para a escola, a ver se ali aprendia ao menos a fazer alguma conta.

Foi o homem para a escola aprender a ler, escrever e contar. Os meninos caçoavam muito dele, de vê-lo no ABC.

Um dia, em que o homem pediu licença ao professor para ir lá fora fazer precisão, achou uma carteira cheia de dinheiro de ouro.

Ele voltou para a escola muito contente, mostrando a carteira aos meninos. Esta carteira era do rei, que andava a passeio, e perdeu-a. Chegando aos ouvidos do rei de que aquele homem tinha achado a carteira, ele mandou-o chamar para restituí-la, sob pena de morte. Logo que receberam o chamado do rei, apresentaram-se ao palácio o marido e a mulher.

O rei perguntou ao homem se ele tinha achado a carteira, ao que a mulher respondeu que não era exato, que era um falso que tinham levantado ao marido, porque ele era muito tolo. Aí o marido virou-se para a mulher e disse: “Eu achei, sim senhora, uma carteira com dinheiro, você não se lembra, quando eu estava na escola?” A mulher então disse ao rei: “Está, rei senhor, veja se ele não é tolo?” O rei viu que com efeito aquele homem era maluco, e mandou-o embora. A mulher, para poder fazer uso do dinheiro, mudou-se da terra e foi para bem longe, com o marido e os filhos.

O homem que quis laçar Deus (Conto), de Sílvio Romero






O homem que quis laçar Deus
(Contos populares do Brasil –  Rio de Janeiro)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um homem que era muito pobre e com muita família.

No lugar em que morava, havia uma estrada muito grande e se dizia que por ali passava Deus e o mundo. Ouvindo dizer isto o homem, e querendo saber a razão por que Deus o tinha feito tão pobre, armou um laço e assentou-se na estrada à espera de Deus.

Levou assim muito tempo, e todos que passavam perguntavam o que estava ali fazendo. Ele respondia que queria pegar Deus. Afinal, estando já desenganado de que nada fazia, já ia para casa, quando apareceu-lhe um velhinho e deu-lhe quatro vinténs, dizendo que só comprasse um objeto que custasse aqueles quatro vinténs. Nem mais barato, nem mais caro.

O homem foi para casa muito contente, imaginando no que havia de comprar com aquele dinheiro. Lembrou-se de um compadre negociante rico que tinha, o qual estava para fazer viagem a buscar sortimentos para sua loja. Dirigiu-se o compadre pobre para a casa do compadre rico e pediu-lhe que comprasse qualquer coisa que custasse aqueles quatro vinténs.

Fez o compadre a sua viagem e chegando na cidade não encontrou nada por aquele preço. Foi ao mercado e ainda nada. Só encontrava objetos por três vinténs, um tostão, meia pataca, dois mil réis, três, etc.

Ia já para casa, quando ouviu um menino mercar: “Quem quer comprar um gato? Custa quatro vinténs.” O homem ficou muito contente e comprou o gato. Era um animal raro naquele lugar. Chegando o negociante em casa do amigo onde estava hospedado, e que também era do comércio, este ficou desejoso de possuir aquele animal e pediu ao amigo para deixar o gato passar a noite na loja, onde havia muito rato, que lhe davam um grande prejuízo.

No outro dia quando abriram a casa, tinha uma quantidade tão grande de ratos mortos que causou admiração. Aí o negociante dono da casa ofereceu uma grande soma de dinheiro ao amigo pelo gato.

Este recusou, dizendo ser o gato de um seu compadre muito pobre, que o tinha encarregado de comprar um objeto qualquer com quatro vinténs. Instou muito o negociante e afinal ofereceu tanto dinheiro que o amigo não pôde recusar e vendeu o gato. Voltou o compadre rico de sua viagem, mas chegando em casa teve tanta pena de dar o dinheiro ao compadre, que o enganou com uma peça de chita, muito ordinária, dizendo ter comprado aquilo com os quatro vinténs.

O compadre pobre ficou muito contente e, chegando em casa, a mulher desmanchou logo a fazenda em camisas para os filhos. Mas como Deus não quer nada mal feito, assim que o compadre saiu com a peça de chita, o rico caiu com uns ataques muito fortes e já para morrer. A mulher o aconselhou a que se confessasse, que ele estava muito mal, e chegando o padre e sabendo do segredo, mandou-o restituir todo o dinheiro do compadre pobre. Este veio a chamado do rico, que logo melhorou, só com a presença dele.

Mas o ricaço, não tendo coragem de entregar o dinheiro, ainda enganou o outro com outra peça de fazenda ordinária.

O pobre não cabia de si de contente, e mal tinha saído, já o rico estava outra vez morre não morre. É chamado de novo a toda pressa o compadre pobre, sendo ainda uma vez enganado com outra peça de fazenda, mas desta vez o rico já estava quase expirando, e não teve outro remédio senão declarar ao companheiro que aquelas barricas que ali estavam eram dele com todo o dinheiro que continham.

Ouvindo isto, o pobre quase que não se segurava em pé, tal foi o choque que sentiu, e como louco correu a dar novas à família, que não sabia como explicar tamanha felicidade. Houve oito dias de festas e o pobre ficou logo cercado de muitos amigos, entre eles o rico que ficou bom da moléstia esquisita, assim que entregou o dinheiro.

O velho e o tesouro do rei (Conto), de Sílvio Romero





O velho e o tesouro do rei
(Contos populares do Brasil – Rio de Janeiro)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia em um lugar um homem velho, muito pobre, tão pobre que não tinha o que comer.

Um dia, roubaram o tesouro do rei e este disse que quem adivinhasse a pessoa que o tinha roubado ganharia uma grande soma de dinheiro. Levantaram um falso ao velho muito pobre e foram dizer ao rei que ele tinha dito que sabia quem havia roubado o tesouro. O rei mandou-o chamar e deu-lhe três dias para adivinhar, sob pena de morte.

Ficou o pobre homem em palácio, com ordem de comer do bom e do melhor. Logo no primeiro dia, apareceu um criado que o serviu de muitos bons manjares e o homem comeu até não poder mais. Quando acabou, virou-se para o criado e disse: “Graças a Deus, que já vi um.” Isto foi referindo-se ao bom passadio, pois na sua vida era aquele o primeiro dia que tinha comido melhor.

O criado, que era um dos cúmplices do roubo, ficou muito espantado e foi dizer aos outros dois companheiros o que tinha ouvido do velho. Então, assentaram que no outro dia iria outro criado servir ao velho para ver o que ele dizia. Com efeito, depois de ter comido e bebido bem no segundo dia, diz o velho para o criado: “Graças a Deus que já  vi dois.” O criado muito desconfiado disse aos outros: “Não há dúvida, o homem sabe que fomos nós que roubamos o rei.” Então, o terceiro criado para mais acreditar, foi servir o velho no terceiro dia. Este, depois que comeu bem, repetiu: “Graças a Deus que já vi três.” Aí o criado ajoelhou-se aos pés do pobre homem e declarou que com efeito tinham sido eles que tinham roubado o tesouro do rei, mas que ele guardasse segredo, que eles prometiam de entregar toda a quantia.

O velho, que estava condenado à morte, assim que se viu senhor do segredo, jurou não declarar quem tinha feito o roubo e foi logo entregar o tesouro ao rei. Este ficou muito contente e recompensou o velho com uma grande soma de dinheiro.

Os criados, por sua vez, não fizeram mais roubo, com medo de serem descobertos.

O macaco e o aluá (Conto), de Sílvio Romero


O macaco e o aluá
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Um macaco, querendo uma vez fazer um aluá, mas não tendo dinheiro, foi à casa do amigo galo e pediu-lhe para este vender-lhe meia mão de milho, que ele o pagaria em tal dia e a tal hora. Obtendo a compra do milho, despediu-se e foi à casa da amiga raposa e pediu-lhe para esta vender-lhe a mesma quantidade de milho, marcando para pagamento do mesmo, o dia em que tinha também de pagar ao galo, sendo porém meia hora depois da marcada para este.

Da casa da raposa dirigiu-se o macaco para a morada do amigo cachorro, onde fez a mesma compra de milho, marcando para pagamento o mesmo dia designado para o galo e a raposa, porém meia hora depois.

Ainda não se achando satisfeito, foi à casa da onça, a qual por sua vez também vendeu-lhe o milho fiado, tendo o macaco dito antes de sair que ela fosse buscar o dinheiro no mesmo dia em que marcou para o galo, a raposa e o cachorro, porém meia hora depois.

Daí saiu o macaco muito satisfeito e foi para casa onde fez uma grande quantidade de aluá, guardando-o em um pote. Fez também de uns jiraus uma cama muito alta e deitou-se nela, amarrando a cabeça com um pano, fingindo estar doente.

No dia do pagamento bateu-lhe o galo na porta e, quando entrou, encontrou o macaco gemendo muito e dizendo que estava muito doente. Logo que o amigo galo descansou, mandou o macaco um menino servi-lo de aluá, do qual muito gostou o amigo galo.

Nisto bateu na porta a amiga raposa. O galo ficou muito assustado e com medo, então disse-lhe o macaco: “Não tem nada, compadre, esconda-se aí debaixo da cama.” O galo escondeu-se, e entrou a raposa, dizendo-lhe o macaco que estava muito doente e gemendo muito. Descansando a raposa, ofereceu-lhe o macaco o aluá de que ela se serviu, perguntando-lhe depois que tal o achava. Ela respondeu que estava muito bom, ao que disse o macaco: “Assim o achou o compadre galo.” Aí diz a raposa: “Oh! E este homem andou por aqui?” Respondeu-lhe o macaco: “Não, há muito que ele já foi”, e apontava para debaixo da cama mostrando o galo. Trava-se uma grande luta da raposa com o galo, sendo este comido por ela. Quando o macaco viu o barulho dos dois, gritava: “Ai, minha gente, não me acabem de matar.”

Nisto bateu na porta o amigo cachorro. Repetiu-se a mesma coisa, acabando ele por comer a raposa. Nesta ocasião entrou a amiga onça, que também serviu-se do aluá, e que depois, sabendo que o cachorro estava debaixo da cama, avançou para ele e o devorou. Acabada esta cena, foi a onça ajustar contas com o macaco, o qual negou-se a pagar-lhe, alegando que ela já lhe tinha comido o aluá, e que além disto estava mais com três animais na barriga.

A onça ficou muito furiosa e quis avançar para o macaco, mas este deu um pulo e trepou-se numa árvore. Ela, vendo que não o pegava, foi embora jurando vingar-se, e para isso preveniu todas as onças e reuniu-as perto de uma fonte, dizendo que não deixassem o macaco ir ali beber água. Este já estava morto de sede e, não podendo ir à fonte beber água, atirou-se sobre uma cabaça que um carreiro trazia em um carro, mas que em vez d’água vinha cheia de mel.

O macaco não desanimou; lambuzou-se todo de mel, foi adiante onde tinha muitas folhas secas e esfregou-se nestas. Ficando completamente transformado, dirigiu-se para a fonte, passando por todas as onças que o saudaram deste modo: “Adeus, amiga folhagem!”, ao que ele não respondeu. Chegando à fonte bebeu água a fartar-se e depois sacudiu todas as folhas que tinha no corpo e passou na carreira pelas onças gritando: “Piticau, piticau!...”

A onça, ainda mais furiosa com esta astúcia do macaco, abriu um grande buraco no lugar por onde ele sempre costumava passar, entrou para o tal buraco e mandou as outras cobri-la de terra, deixando apenas os olhos e os grandes dentes de fora. O macaco, que desconfiou da história, muniu-se de uma grande pedra e atirou com ela em cima dos dentes da onça, dizendo: “Nunca vi chão ter dentes”.

A onça morreu e o macaco continuou a fazer suas artes e estripulias.

O caboclo namorado (Conto), de Sílvio Romero


O caboclo namorado
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia uma moça casada muito bonita. Por sua porta passava sempre um caboclo e numa ocasião virou-se para ela e disse-lhe: “Adeus, meu cravo.” A moça fez que não ouviu e calou-se. No outro dia o caboclo passou e tomou a dizer a mesma coisa. A moça, não podendo mais chegar à janela, porque todas as vezes que o caboclo passava, dizia-lhe: “Adeus, meu cravo”, queixou-se ao marido. Este disse-lhe: “Não te importes, e quando ele te disser “adeus, meu cravo”, tu responde-lhe “adeus, minha rosa”, e deixa o resto por minha conta.” No dia seguinte o caboclo passou e repetiu: “Adeus, meu cravo.”

Ela virou-se para ele e respondeu: “Adeus, minha rosa.” O caboclo saiu rindo-se de contente e no outro dia já não disse “Adeus, meu cravo”, e sim perguntou à moça se ela dava licença a ele ir à casa dela à noite. A senhora ficou incomodadíssima e não deu-lhe resposta. Chegando o marido, ela participou-lhe o ocorrido, ao que ele respondeu: “Amanhã dize-lhe que eu fiz uma viagem e que tu dás licença para ele vir conversar contigo à noite.” Quando o caboclo passou dirigiu à moça a mesma pergunta, esta respondeu-lhe tudo quanto o marido tinha lhe dito. À noite chegou o caboclo, indo muito cheiroso e bem vestido. Já o marido da moça tinha munido dois criados, cada qual com um chicote de couro cru, e mandado deitar debaixo da cama grande porção de cansanção.

O caboclo logo que foi chegando disse à moça que queria ir para o quarto e que ela apagasse a luz que o estava incomodando. Depois tirou toda a roupa com que estava vestido e deitou-se dizendo que estava com muito sono. Nisto o marido da moça fingiu ter chegado da viagem e esta disse ao caboclo que se escondesse debaixo da cama. O moço entrou e deitou-se, alegando que vinha muito cansado. De espaço a espaço ele ouvia como que uma espécie de grunhido sair debaixo da cama. Passado um bom pedaço e o rapaz ouvindo sempre a mesma coisa, perguntou: “Quem está aí?” Responde-lhe o caboclo: “Sou eu, cachorro.” Diz o moço: “Oh, e cachorro fala?” Replica-lhe o caboclo: “Falo eu.” Aí o moço levantou-se e com uma luz na mão olhou para debaixo da cama e viu o caboclo no meio dos cansanções, inchado como uma pipa e todo se coçando. O moço chamou os criados que já estavam preparados e ordenou: “Empurrem-lhe o chicote”.

O caboclo depois de ter levado uma tunda, saiu que mal acertava o caminho de casa. Levou muito tempo se tratando da grande surra que levou.

Depois de muito tempo e quando já estava bom, passou de novo o caboclo pela porta da moça, mas muito desconfiado e de cabeça baixa. Esta para bulir com ele disse-lhe: “Adeus, meu cravo.” Ele virou-se para ela e respondeu muito zangado: “Adeus, seu diabo!”

Melancia e coco mole (Conto), de Sílvio Romero






Melancia e coco mole
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um homem que gostava muito de uma moça e queria casar com ela. Um dia, ele foi chamado pras guerras e disse à moça que não casasse com outro, que quando ele voltasse casaria com ela. Para ninguém desconfiar, o rapaz tratava a moça por Melancia e a moça o tratava por Coco Mole. Um dia se despediram, muito chorosos, e ele partiu para as guerras. Todo dia aparecia casamento para esta moça, porém ela não queria, com sentido no seu querido. Passados alguns anos, e aparecendo um dia um casamento, o pai da moça decidiu que ela havia de aceitar. Ela fez o gosto ao pai e quando foi no dia do casamento o seu namorado chegou das guerras. Indagou logo pela moça e soube que ela se casava naquele mesmo dia.

O rapaz ficou muito triste e não quis comer. Um caboclo, que era pajem dele, perguntou-lhe por que estava tão triste. Sabendo da história, disse-lhe: “Não tem nada, meu amo. Deixa estar que eu arranjo tudo.” Havia uma árvore no fundo do quintal da casa da moça, onde ela costumava ir conversar com o antigo namorado. O caboclo ensinou ao amo que fosse para debaixo da árvore, que lhe garantia que a moça iria lá ter. Ele fez o que o caboclo recomendou e este se dirigiu para casa da noiva. Chegando lá, encontrou já todos os convidados, o noivo e a noiva já preparados, só faltando o padre para os casar. O caboclo pediu licença para fazer uma saúde à noiva, chegou para junto dela e disse: 

Eu venho lá de tão longe,
Corrido de tanta guerra,
Melancia, Coco Mole
É chegado nesta terra.

Todos bateram palma e disseram: “Bravo! Caboclo, faça outra saúde.”

O caboclo retrucou:

Não há bebida tão boa
como seja o aluá,
Melancia, Coco Mole
vos espera no lugar.

Todos bradaram: “Muito bem, caboclo! Faça outra saúde.” O caboclo, entusiasmado, continuou:

Moça, que estais tão bonita,
não vos lembrais do passado;
Melancia, Coco Mole
vos manda muito recado.

Aí a moça levantou-se e disse que ia beber água. Saiu caladinha pela porta do quintal e foi direitinha à árvore onde ela costumava ir conversar com o seu antigo namorado, que era o do peito. Chegando aí, encontrou-o e ao mesmo tempo a um padre que já ali se achava apalavrado para os casar.

O Doutor Botelho (Conto), de Sílvio Romero


O Doutor Botelho
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um homem que era marceneiro e muito pobre. Morava em uma casa de cavacos. Uma vez apareceu em casa dele um macaco e pediu-lhe um rancho. O homem disse que a casinha era muito pequena, mas que ele podia ali ficar. O macaco ficou morando com o marceneiro. Um dia o macaco entrou com os bolsos cheios de moedas de ouro e prata. O dono da casa perguntou onde ele tinha achado tanto dinheiro. O macaco disse: “Foi o rei; eu hoje levei-lhe em seu nome um presente e ele de pagamento me deu este dinheiro”.

O marceneiro perguntou: “E que presente foi, macaco?” Ele respondeu: “Eu fui no mato, assoviei e no mesmo instante apareceram mais de cem veadinhos que eu reuni todos e levei ao rei. Qualquer destes dias eu torno a levar outro presente para ele me dar mais dinheiro.” Passados dias, o macaco tornou a ir para o mato, e principiou a assoviar. De repente apareceu uma porção de garças todas muito alvinhas.

O macaco colou-as de duas em duas e disse: “Vamos para casa do rei.” Quando chegou na porta do palácio, as garças pararam e o rei achou aquilo muito bonito, e perguntou ao macaco quem é que as tinha mandado. O macaco disse: “Foi o Doutor Botelho, amigo do macaco da bota do jabotelho.” O rei agradeceu o presente e disse ao macaco que fosse na casa da moeda e dissesse que lhe dessem algum dinheiro. O macaco chegou na casa da moeda e disse que por mando do rei lhe enchessem os alforjes de moedas de ouro. Quando se apanhou com os alforjes cheios correu para casa. O marceneiro ficou muito contente de ver tanto dinheiro, e o macaco disse: “Eu logo vou levar outro presente ao rei.” Daí a dias o macaco foi outra vez para o mato e assoviou, e apareceu logo uma imensidade de coelhos, todos muito bonitos e o macaco levou-os de presente ao rei.

Este ficou muito admirado e disse que queria conhecer este Doutor Botelho, que era tão rico. O macaco aí ficou muito atrapalhado e respondeu que o Doutor Botelho era um homem muito acanhado, e que não aparecia a ninguém, e disse ao rei que para avaliar a riqueza do Doutor Botelho, montasse a cavalo e saísse com ele só para ver todas as fazendas que pertenciam ao mesmo Doutor. O rei montou-se e saiu com o macaco. Quando passavam por uma fazenda, o macaco dizia: “Isto aqui é do Doutor Botelho.” Passavam por outra e o macaco tornava a dizer: “Isto também é do Doutor Botelho.” Visitaram muitas fazendas. Afinal o rei já estava cansado e voltou para casa.

Aí chegando, o macaco afirmou ao rei que ainda tinha um recado para dar a ele, mas que estava acanhado. O rei respondeu que podia falar; então o macaco disse que o Doutor Botelho tinha mandado pedir a filha dele em casamento, e se o rei consentisse, só no dia era que o Doutor aparecia, e acrescentou que estava aquilo uma esquisitice, mas por ser o Doutor muito rico é que fazia assim. O rei não teve dúvida, deu logo o sim, e mandou ao macaco que fosse na casa da moeda e dissesse que ele mandava dar algum dinheiro. O macaco neste dia ainda encheu mais os alforjes e foi para casa.

O marceneiro ficou muito espantado de ver tanto dinheiro e o macaco lhe afirmou: “A graça não é esta, você prepare-se que vai casar com a filha do rei.” O marceneiro ficou quase morto quando o macaco lhe disse isto, e replicou que, como era que um marceneiro, que morava numa casa de cavacos, ia casar com a filha do rei. O macaco respondeu que ele não se vexasse e deixasse correr por conta dele tudo. No dia do casamento o macaco vestiu o marceneiro muito bem vestido, preparou um cavalo muito bonito e montou o Doutor Botelho.

Este ia só dizendo: “Me segure, macaco, senão eu caio, oh, que agonia eu estou sentindo.” E quase teve uma síncope. Então o macaco dizia: “Doutor Botelho, deixe-se disto, tenha coragem e deixe o resto por minha conta.” Afinal o macaco sempre conseguiu levar o doutor Botelho até a casa do rei, onde se efetuou o casamento. Depois do ato vieram todos os convidados e o rei trazer os noivos até à casa deles. De cada pé de mato saía uma girândola de foguetes e o caminho estava todo iluminado. Quando chegaram perto da casa de cavacos, todos avistaram um palácio lindo e também todo iluminado. Na porta do palácio tocaram muitos foguetes e músicas e depois os noivos entraram. Estava uma mesa preparada com todas as diversidades de comidas e doces e no meio da mesa estava um cacho de bananas muito bonito.

O macaco deu um pulo em cima da mesa, agarrou as bananas; pois, apesar de muito esperto, não se podia conter diante de semelhantes frutas e sempre mostrava o que era.

12/18/2017

O macaco e o coelho (Conto), de Sílvio Romero


O macaco e o coelho
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O macaco e o coelho fizeram um contrato para o macaco matar as borboletas e o coelho as cobras. Estando o coelho dormindo, veio o macaco e puxou-lhe pelas orelhas, julgando que eram borboletas.

Zangado por esta brincadeira, o coelho jurou vingar-se.

Estando o macaco descuidado, assentado numa pedra, veio o coelho devagarzinho, arrumou-lhe uma paulada no rabo, e o macaco sarapantado gritou e subiu por uma árvore acima a guinchar. Então o coelho ficou com medo e disse:

Por via das dúvidas,
Quero me acautelar:
Por baixo das folhas
Tenho de morar.

O macaco e a cabaça (Conto), de Sílvio Romero


O macaco e a cabaça
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O macaco se intrigou com a onça e andava com medo dela. Ora havia uma festa em certa parte, e o macaco para lá ir tinha que passar em casa da onça. Então ideou um meio de ir à festa sem ser visto pela onça. Então meteu-se dentro de uma cabaça grande e dava certo impulso e assim andava.

Passando em casa do cágado, este acreditou ser um bicho novo.

Conversaram, e despediu-se o macaco. Na saída disse:

Anda, cabaça,
Que nunca andaste.
Sexta, sábado,
Domingo, segunda...
Mas, como quiseram,
Em bicho viraste.

Assim foi andando e passou por casa da onça, e viu a festa e nada sofreu.

A onça e o gato (Conto), de Sílvio Romero




A onça e o gato
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A onça pediu ao gato para lhe ensinar a pular, e o gato prontamente lhe ensinou. Depois, indo juntos para a fonte beber água, fizeram uma aposta para ver quem pulava mais. Chegando à fonte encontraram lá o calango, e então disse a onça para o gato: “Compadre, vamos ver quem de um só pulo pula o camarada calango.” — “Vamos”, disse o gato. “Só você pulando adiante”, disse a onça. O gato pulou em cima do calango, a onça pulou em cima do gato. Então o gato pulou de banda e se escapou. A onça ficou desapontada e disse: “Assim, compadre gato, é que você me ensinou?! Principiou e não acabou...” O gato respondeu: “Nem tudo os mestres ensinam aos seus aprendizes”.

A onça e o boi (Conto), de Sílvio Romero




A onça e o boi
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia uma onça que morava em uma serra, e só descia lá de cima para fazer carneação. Um dia, quando descia, encontrou um boi, e ficou logo com vontade de o atacar traiçoeiramente. Então disse a onça ao boi: “Compadre, você, como bom mateiro, não me dará notícia de um companheiro seu, que vivia aqui neste carrasco, e que era meu amigo, e que há muitos dias não o vejo?” — “Ontem estive com ele no bebedouro, e creio que ele está lá me esperando; se você quer, amiga onça, vamos juntos até lá.” Assim falou o boi. A onça respondeu: “Nesta não caio eu, que estou com fome, e por lá não há carneiro que se possa pegar, além de que lá fico perto do meu inimigo.” — “Quem é seu inimigo?”, perguntou o boi. “É um lavrador, que tem cara de matar trinta onças, que fará a mim sozinha, e lá não tem arvoredo de que possa me valer”.

O boi: “Mas você, comadre onça, se teme é porque alguma coisa fez; quem não deve não teme”.

A onça: “Compadre, não se lembra quando eu peguei aquele bezerro naquela maiada? Correram atrás de mim três amigos cachorros, que um deles era danado; só de gritos; me trazia atordoada. Só descansei quando pude me trepar numa árvore, a ver se punha as unhas nos moleques. Mas qual! Fugiam para traz com o diabo!”


O boi: “Então, comadre onça, você só é gente tendo arvoredo? Vamos cá para o limpo”.

A onça: “Mas o compadre está me puxando para o limpo; parece que está desconfiado!” Assim uma procura o mato e outro o largo, até que se ausentaram desconfiando um do outro.

O macaco e o rabo (Conto), de Sílvio Romero




O macaco e o rabo 
(Contos populares do Brasil – Pernambuco)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma ocasião achavam-se na beira de uma estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia: “Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.” Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse: “Só te dou, se me deres leite.” — “Onde tiro leite?”, disse o macaco. Respondeu o gato: “Pede à vaca.” O macaco foi à vaca e disse: “Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.” — “Não dou; só se me deres capim”, disse a vaca. “Donde tiro capim?” — “Pede à velha.”

— “Velha, dá-me capim para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato para me dar o meu rabo.” — “Não dou; só se me deres uns sapatos.” — “Donde tiro sapatos?” — “Pede ao sapateiro.” — “Sapateiro, dá-me sapatos para eu dar à velha, para a velha me dar

capim para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite para eu dar ao gato, para o gato me dar meu rabo.” — “Não dou; só se me deres cerda.” 

— “Donde tiro cerda?” — “Pede ao porco.” — “Porco, dá-me cerda para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para me dar leite para dar ao gato, para me dar o meu rabo.” — “Não dou, só se me deres chuva.” — “Donde tiro chuva?” — “Pede às nuvens.” — “Nuvens, dai-me chuva para o porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo...” — “Não dou; só se me deres fogo.” — “Donde tiro fogo?” — “Pede às pedras.” — “Pedras, dai-me fogo para as nuvens, para chuva para o porco, para cerda para o sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para me dar meu rabo.” — “Não dou; só se me deres rios.” — “Donde tiro rios?” — “Pede às fontes.” — “Fontes, dai-me rios, para os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar cerda, a cerda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o gato, o gato me dar meu rabo.” Alcançou o macaco todos os pedidos; o gato bebeu o leite, entregou o rabo; o macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

O macaco e o rabo (Conto), de Sílvio Romero


O macaco e o rabo
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Um macaco uma vez pensou em fazer fortuna. Para isto foi-se colocar por onde tinha de passar um carreiro com seu carro. O macaco estendeu o rabo pela estrada por onde deviam passar as rodeiras do carro. O carreiro, vendo isto, disse: “Macaco, tira teu rabo do caminho, que eu quero passar.” — “Não tiro”, respondeu o macaco. O carreiro tangeu os bois, e o carro passou por cima do rabo do macaco, e cortou-o fora. O macaco, então, fez um barulho muito grande: “Eu quero meu rabo, ou então me dê uma navalha...” O carreiro lhe deu a navalha, e o macaco saiu muito alegre a gritar: “Perdi meu rabo! Ganhei uma navalha!... Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!...” Seguiu. Chegando adiante encontrou um negro velho fazendo cestas e cortando os cipós com o dente.

O macaco:

“Oh, amigo velho, coitado de você!... Ora, está cortando os cipós com o dente! Tome esta navalha.” O negro aceitou, e, quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca ao mundo e pôs-se a gritar: “Eu quero rainha navalha! Ou então me dê um cesto!” O negro velho lhe deu um cesto e ele saiu muito contente gritando: “Perdi meu rabo ganhei uma navalha, perdi minha navalha ganhei um cesto... Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!” Seguiu. Chegando adiante encontrou uma mulher fazendo pão e botando na saia. “Ora, minha sinhá, fazendo pão e botando na saia! Aqui está um cesto.” A mulher aceitou, e, quando foi botando os pães dentro, caiu o fundo do cesto. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar: “Eu quero o meu cesto, quero o meu cesto, senão me dê um pão!” A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito contente a dizer: “Perdi meu rabo ganhei uma navalha, perdi minha navalha ganhei um cesto, perdi meu cesto ganhei um pão!... O meu pão eu vou comer! Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!...” E foi comendo o pão.

O macaco e o moleque de cera (Conto), de Sílvio Romero





O macaco e o moleque de cera
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Morava em certo lugar uma velha que tinha uma porção bonita de bananeiras. Quando elas estavam carregadas de cachos maduros a velha não podia subir para tirá-los. Então apareceu um macaco e se ofereceu para ir tirar as bananas. Trepou-se nas bananeiras e entrou a comer as bananas maduras e a atirar as verdes para a velha. Esta ficou desesperada, e procurava um meio de se vingar do macaco, mas sempre ficava lograda. Afinal lembrou-se de fazer um moleque grande de cera, fingindo um negrote. Depois de preparado o moleque, ela encheu um tabuleiro de bananas bem amarelinhas e botou na cabeça do moleque, fingindo que estava vendendo. Vem o macaco e pede uma banana ao moleque, e o moleque calado.

O macaco: “Moleque, me dá uma banana senão te arrumo um tapa!” E o moleque calado. O macaco desandou-lhe a mão e ficou com a mão grudada na cera.

O macaco: “Moleque, solta a minha mão senão te dou outro tapa!” E o moleque calado... O macaco trepou-lhe a outra e ficou com ela grudada na cera.

O macaco: “Moleque! Moleque! Solta as minhas duas mãos e me dá uma banana, senão te arrumo um pontapé!...” E o moleque calado... O macaco desandou-lhe um pé e ficou com ele grudado na cera.

O macaco: “Moleque dos diabos, solta minhas duas mãos e meu pé, e me dá uma banana, senão te arrumo o outro pé!...” E o moleque calado... O macaco arrumou-lhe o outro pé e ficou com ele preso.

O macaco: “Moleque das confundas, larga as minhas duas mãos e meus dois pés, e dá-me uma banana senão dou-te uma umbigada!” E o moleque calado... O macaco deu-lhe uma umbigada e ficou com a barriga presa.

Aí chegou a velha e o agarrou e matou e esfolou e picou e cozinhou e comeu. Depois, quando teve de ir ao mato, deitou para fora aquela porção de macaquinhos, que saíam saltando e gritando: “Ecô, eu vi o tubi da velha!”

A onça e o coelho (Conto), de Sílvio Romero




A onça e o coelho
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma onça tinha uma roça, mas como esta estivesse toda coberta de cansanção e ela não a pudesse roçar, reuniu diversos animais e disse: “Aquele que me limpar esta roça sem se coçar, ganhará de recompensa um boi.” O macaco foi o primeiro que se ofereceu para fazer o trabalho.

Principiou a roçar, mas a onça teve de despedi-lo logo, porque ele coçou-se. Veio o veado que também não fez nada. Seguiu-se o bode que por sua vez também não pôde continuar. Afinal apareceu um coelhinho dizendo que queria limpar a roça, ao que a onça disse consigo: “Se os outros animais não roçaram, quanto mais este coelho.” Em todo o caso, o aceitou e ele principiou o seu trabalho. Limpou um bom pedaço, e como a onça já estivesse cansada de estar ali prestando atenção, saiu, deixando um filho tomando conta do serviço e preveniu a este que reparasse se o coelho se coçava. Este aproveitando a ausência da onça, virou-se para o menino e disse-lhe, para se poder coçar: “Ó menino, o boi que sua mãe vai me dar é pintado assim, assim, neste lugar, assim...”, e assim se coçava a valer. O menino, muito tolo, respondia: “É.” O coelho continuava o seu trabalho, e quando o cansanção passava-lhe pelas pernas, orelhas, ou qualquer parte do corpo, ele aproveitava-se e perguntava ao menino se o boi tinha uma malha naquele lugar, assim, assim, e nisto coçava-se todo. Deste modo acabou-se de limpar toda a roça e ganhou o boi. Então disse-lhe a onça: “Compadre coelho, você há de matar este boi aonde não houver moscas nem mosquitos, e onde não cantar galo nem galinha.” O coelho ouviu o que a onça lhe disse e saiu com o boi. Caminhou um bom pedaço e reparava. Ouvia o galo cantar, então dizia: “Ainda não é aqui.” Caminhou durante muito tempo, e quando não viu mais moscas nem mosquitos e nem ouviu o galo cantar, matou aí o boi e principiou a esfolá-lo, quando apareceu a onça dizendo: “Compadre coelho, por favor me dê um pedaço deste boi, que eu estou grávida e receio abortar.” O coelho partiu um bom pedaço que ela devorou de uma só vez. Ainda não satisfeita tornou a pedir mais um pedaço, e isto já ameaçando o coelho de matá-lo. Este, como se tivesse muito medo dela, foi-lhe dando a carne todas as vezes que ela pedia, acabando a onça por comer-lhe todo o boi. Depois voltou o coelho para casa somente com o facão nas costas, muito triste, mas prometendo vingar-se da onça. Prestou atenção ao lugar por onde ela mais passava e para lá foi cortar uns cipós. Nisto apareceu a onça e perguntou-lhe o que ele estava ali fazendo. Ele respondeu-lhe que Deus ia castigar o mundo mandando uma grande ventania, e que ele estava tirando aqueles cipós para se amarrar. A onça insistiu muito para que ele amarrasse ela primeiro, ao que ele fingiu não querer, dizendo que ainda tinha que ir para casa amarrar toda sua família. Insistindo a onça, disse-lhe o coelho que, como ela era sua comadre, ele lhe fazia aquele favor; e principiou a amarrá-la. Quando ela já não podia mais se bulir, disse que afrouxasse mais os cipós, mas ele continuou a apertá-la, dizendo que só assim ela resistiria ao vento e depois saiu correndo. Passou por ali o macaco, e a onça pediu para ele desamarrá-la. Respondeu-lhe o macaco: “Deus ajude a quem aí te botou”, e foi passando. Veio o veado e a onça pediu-lhe a mesma coisa, e ele deu a mesma resposta do macaco. Com o bode aconteceu o mesmo. O coelho lembrou-se da onça e foi ver se ela ainda estava viva. Esta assim que o viu, pediu para ele desamarrá-la. O coelho fingiu não ser ele o autor da obra, e, fingindo estar muito penalizado, principiou a desatar os cipós, para ver se ela assim não o comia. A onça assim que se viu desamarrada avançou para o coelho e o quis pegar, mas ele correu e meteu-se num buraco, conseguindo a onça ainda pegar-lhe numa perna. Quando ele se viu com a perna presa, disse: “Comadre onça ainda é muito tola, pensa que uma raiz de pau é minha perna.” Ouvindo isto a onça soltou-o, e então pegou na raiz do pau. O coelho escondeu-se lá no fundo do buraco. Estava uma garça pousada numa árvore, e a onça lhe disse: “Comadre garça, fique botando sentido aqui que eu vou buscar uma enxada para cavar este buraco, e não deixe o coelho sair.” A garça ficou lá no pau, e o coelho lhe disse: “Oh! É assim? Quem bota sentido a coelho vem para a porta do buraco, arregalando bem os olhos.” A garça desceu e veio para a porta do buraco, arregalando bem os olhos. O coelho atirou-lhe de dentro uma porção de areia e saiu sem que ela visse. Quando a onça chegou, principiou a cavar, mas nada de encontrar o coelho. Ela então perguntou à garça: “Comadre garça, aonde está compadre coelho?” Esta respondeu dizendo: “Eu não sei, ele me atirou uma porção de areia nos olhos e eu não vi mais nada.” A onça ficou muito desapontada e foi embora. 

O jabuti e o veado (Conto), de Sílvio Romero


O jabuti e o veado
(Versão da lenda antecedente colhida entre os índios por Couto de Magalhães)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O jabuti saiu a procurar seus parentes e encontrou-se com o veado. O veado perguntou-lhe: “Para onde vai você?” O jabuti respondeu: “Vou chamar meus parentes para virem me ajudar na caçada grande da anta.” O veado falou assim: “Então você matou a anta? Vá chamar todos, que eu fico aqui; quero vê-los.” O jabuti disse então: “Eu já me vou; aqui mesmo quero esperar que a anta apodreça, tirar-lhe o couro para fazer uma gaita.” O veado falou desse modo: “Você matou a anta, agora quero eu apostar uma carreira com você.” O jabuti respondeu: “Espere por mim aqui; vou ver por onde hei de correr.” O veado disse: “Quando você correr pelo outro lado, deve responder quando eu gritar.” O jabuti disse: “Já vou indo.”

O veado falou-lhe: “Agora nada de demoras... Eu quero ver a tua valentia.”

O jabuti falou assim: “Espera um poucochinho; deixa-me chegar à outra banda.”

Logo que chegou ali, chamou todos os seus parentes. Postou-os a todos pela margem do pequeno rio para responderem ao veado tolo. Depois falou assim:

— Ó veado, você já está pronto?

O veado respondeu: — Eu já estou pronto.

O jabuti perguntou: — Quem é que vai na dianteira?

O vedo riu-se e disse: — Tu vais mais adiante, jabuti.

O jabuti não correu; enganou o veado e foi colocar-se mais adiante.

O veado estava seguro confiando nas suas pernas.

O parente do jabuti gritou pelo veado. O veado respondeu para quem lhe ficava atrás. Assim o veado falou: — Eis-me que vou aqui, tartaruga do mato!

O veado correu, correu, correu, depois gritou: — Jabuti!

Outro parente do jabuti respondeu sempre de diante. O veado disse: “Eu ainda vou beber água.”

Então o veado ficou calado.

O jabuti gritou, gritou, gritou... Ninguém lhe respondeu.

Disse então: — Aquele macho por ventura morreu. Deixa-me ir vê-lo.

O jabuti disse aos seus companheiros:

— Eu vou sorrateiro para espreitá-lo.

O jabuti, quando saiu na margem do rio, disse assim: — Nem sequer cheguei a suar.

Então chamou pelo veado: — Veado!

O veado não deu resposta.

Quando os companheiros do jabuti olharam para o veado disseram:

— Verdadeiramente, já está morto.

O jabuti disse: — Vamos tirar o osso.

Os outros perguntaram-lhe: — Para que é que tu o queres?

O jabuti respondeu: — Para eu assoprar por ele e tocar em qualquer tempo.