segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Amiga folhagem (Conto), de Sílvio Romero


Amiga folhagem
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez o macaco intrigou-se com a onça, não se sabe bem o motivo. A onça andava sempre a ver se pegava o macaco; mas o macaco, muito arteiro, sempre escapava dela. Ora, houve um tempo em que todos os rios e fontes do mundo secaram, e a onça ficou contente, porque supunha que desta vez o macaco lhe não escaparia. Largou-se e foi esperá-lo no lugar único em que havia água, e que estava servindo de bebedouro a todos os bichos. O macaco foi beber água e por um triz que não morreu. Mas sempre escapou-se, e ficou com muito medo. Então ele engenhou um meio de escapar da onça, e foi o seguinte: encontrou um viajante que levava umas cabaças de mel de uruçu; apoderou-se de uma delas, e lambuzou-se bem no mel e depois se cobriu todo de folhas bem verdinhas, e largou-se pelo mundo a fazer estripulias. Logo chegou aos ouvidos de todos os bichos que tinha aparecido um bicho novo, a que chamavam amiga folhagem. Assim o macaco bebeu água, e escapou. Nessa ocasião a onça lhe perguntou quem era, e ele respondeu:

Eu sou a folharada,
Sempre que vier beber
Tenho de ser transformada.

E realmente as folhas lhe foram caindo da pele e também o pelo.

Foi então o macaco à fonte; lhe perguntaram quem era; ele respondeu:

O tronco da folharada;
Todas vezes que aqui bebe
É transformada...
Desde que nesta casa bati 
Nunca mais água bebi...

Houve muita gargalhada, e o macaco ficou bebendo água desassombrado.

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