quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Dona Pinta (Conto), de Sílvio Romero


Dona Pinta
(Contos populares do Brasil - Sergipe)
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez havia um rei que tinha seu palácio defronte de uma casa onde morava um velho que tinha três filhas bonitas. A mais bonita de todas chamava-se Dona Pinta e o rei se apaixonou por ela.

Uma vez estando ele na varanda a querer namorá-la, ela, que estava brincando com um gatinho, arribou-lhe o rabinho, e mostrou-lhe o boeiro... O rei ficou muito zangado e quis arranjar um meio de entender-se com a moça livremente para vingar-se. Mandou chamar o pobre do velho e lhe disse que precisava que ele fosse vencer umas guerras. O velho se desculpou muito, e disse que ia falar com suas filhas para ver o que elas diziam. D. Pinta lhe disse que prometesse ao rei ir, mas pedisse uma espera de alguns dias. Esta espera era para dar tempo a ela para fazer um alçapão na casa.

Passados os dias, o velho seguiu para as guerras, deixando a cada uma das filhas uma rosa, dizendo: “Quando eu voltar, cada uma há de me apresentar a sua rosa aberta e fresca, que é o sinal de sua virgindade; aquela cuja rosa estiver murcha terá o meu castigo”.

Depois que o velho saiu, o rei apareceu na sua casa, e D. Pinta o recebeu. Deixou-o na sala conversando com as irmãs, e foi para a sala de trás, e escondeu-se no seu subterrâneo. O rei cansou de esperar, e, ficando tarde, foi-se embora muito zangado. No dia seguinte tornou a vir, e D. Pinta fez o mesmo; no terceiro dia a mesma coisa. Aí fez mal às duas suas irmãs, que apareceram pejadas, e cujas rosas ficaram murchas. O rei cada vez foi tomando mais raiva de D. Pinta, ao passo que mais se acendia o seu desejo, quanto mais ela o enganava.

Um dia ela se vestiu de moleque, e foi buscar favas na horta do rei, o qual a viu, mas não a conheceu, e, quando o soube, ainda mais desesperado ficou. Passou-se tempo e sempre o rei a jurando.

Uma vez ela foi buscar lenha e o rei a encontrou no mato. Aí ela disse: “Oh! Como vem rei meu senhor tão cansado e tão suado! Deite-se aqui, rei meu senhor!” E sentou-se no capim, fez colo e o rei deitou-se, e ela se pôs a catar-lhe piolhos. Foi indo, foi indo até que o rei pegou no sono. Aí ela, bem devagarinho, levantou-se, botou a cabeça do rei numa trouxa que fez com o xale, e largou-se, foi-se embora a toda a pressa. Quando o rei acordou, que olhou em roda e não viu ninguém, ficou desesperado da vida. Passou-se. As irmãs de D. Pinta ficaram em ponto de dar à luz e deram. Ela, com medo de que o pai descobrisse a falta das irmãs, resolveu-se a ir enjeitar os meninos no palácio do próprio rei.

Um dia, antes do pai chegar das guerras, preparou-se de negra com tabuleiro na cabeça e os dois meninos dentro, fingindo eram flores, e foi vender no palácio. O rei, sem saber quem era, foi ver as flores, e, quando descobriu o tabuleiro, deu com os seus dois filhinhos. A negra disse: “Aí ficam que são seus!...” E largou-se de escada abaixo e foi-se embora. O rei então conheceu tudo, e dizia: “D. Pinta, D. Pinta!... Um dia eu hei de vingar-me.”

Tempos depois, chegou o pai das três moças das guerras. As duas filhas desonradas ficaram mais mortas do que vivas para irem tomar a benção ao pai, porque não tinham mais a sua rosa viva! D. Pinta as valeu, dizendo a uma delas: “Tome a minha rosa, mana, vá primeiro você, e ao depois vá fulana, e depois eu.” Assim fizeram, e enganaram o velho que de nada soube.

Depois disto, andava o rei uma vez passeando embarcado no mar e encontrou D. Pinta num bote também passeando. Ela, quando o avistou, o convidou para ir para o seu barco, e passearem juntos. Na ocasião do rei entrar, ela o atirou no lodo da maré e ele ficou todo emporcalhado. Ficou vendendo azeite às canadas, e procurando um meio de se vingar. Não achando nenhum, fez o plano de a pedir em casamento, e matá-la depois de casados. Fez o pedido, e a moça não aceitou. Afinal tanto instou que a moça disse ao pai: “Está bom, meu pai, diga a ele que eu o aceito, mas há de me dar seis meses de espera.” O velho foi dizer ao rei que a filha aceitava, mas pedia uma espera. Isto era tempo que D. Pinta pedia para poder preparar uma boneca, e parecida com ela, para enganar ao rei.

No fim de seis meses não estava pronta ainda a boneca, e o rei, tendo mandado marcar o dia do casamento, D. Pinta respondeu que só se casaria se o rei mandasse fazer um palácio novo. O rei concordou, e mandou fazer o palácio. Quando já estava a obra quase pronta, D. Pinta não tinha ainda a boneca preparada, e, então, uma noite foi ao palácio velho às escondidas, furtou a roupa do rei, meteu-se nela e foi ter com o mestre da obra, e fingindo que era o rei, e muito zangado dizia: “Isto não é obra; quero já que me botem tudo abaixo e façam tudo de novo.” Isto era de noite; o mestre da obra mandou logo chamar todos os trabalhadores e deitaram o palácio abaixo para levantar outro de novo. Afinal ficou pronta a boneca de D. Pinta, e também o palácio do rei. Marcou-se o dia do casamento. D. Pinta, quando foi para o quarto de dormir, levou a sua boneca, que era toda o retrato dela: botou-a assentada na cama com um favo de mel no seio, e se escondeu debaixo da cama, pegando num cordãozinho que a boneca tinha e que a fazia mover com a cabeça. O rei depois entrou e dirigiu-se à boneca, pensando que era D. Pinta, dizia: “D. Pinta, tu te alembras quando teu pai foi para a guerra que eu fui três dias à tua casa, e tu, pra caçoares comigo, te metias lá pra dentro, e não me aparecias mais?...” A boneca bulia com a cabeça. Assim foi o rei repetindo todas as pirraças que a moça lhe tinha feito, e no fim cravou-lhe um punhal no seio. O mel espirrou e foi tocar nos beiços do rei, que, sentindo a doçura, disse: “Ah, minha mulher, se depois de morta estás tão doce, que fará quando eras viva!” E pôs-se a chorar. Aí D. Pinta pulou de baixo e apresentou-se: “Aqui estou, meu amor!” Fizeram as pazes e ficaram vivendo muito bem.

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