sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

João mais Maria (Conto), de Sílvio Romero


João mais Maria
(Contos populares do Brasil – Rio de Janeiro e Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez houve um homem e uma mulher que tinham tantos filhos que resolveram deitar fora um casal para se verem mais desobrigados. Num belo dia o pai disse a João e Maria que se aprontassem para irem com ele tirar mel no mato. Os dois meninos se aprontaram e seguiram com o pai, que desejava metê-los na mata e deixá-los lá ficar. Depois de muito andar, e quando já estava bem embrenhado, o pai disse aos filhos: “Agora esperem aqui, que eu vou ali, e quando eu gritar vocês se dirijam para o lado do grito.” Depois de andar um bom pedaço, o pai gritou e retirou-se para trás, em busca de sua casa. As crianças, ouvindo o grito, se dirigiram naquela direção, mas não encontraram mais ao pai e se perderam. Chegando a noite ali pousaram; no dia seguinte, desenganados que não achavam o pai, tratou João de trepar em uma das árvores mais altas, que estavam num outeiro a fim de ver se descobria alguma casa. De cima da árvore descobriu muito longe uma fumacinha. Para lá se dirigiram; depois de muito andar descobriram uma casa velha, e o menino se aproximou, para explorar, deixando a irmã escondida. Chegando João à casa encontrou uma mulher velha, quase cega, que fazia bolos de milho. João fez um espetinho e furtou alguns bolos, que comeu e levou também para sua irmã.

Como a velha não enxergava bem, quando sentia o movimento do menino lhe tirando os bolos, supunha que era o gato, e dizia: “Chipe, gato, meu gato, não me furtes meus bolinhos!” No dia seguinte João voltou à mesma casa para tirar bolos para si e para Maria. Ouvindo a velha o reboliço dizia: “Chipe, gato, meu gato, não me come meus bolinhos!” João muniu-se de bolos e se retirou. No dia seguinte quis ir só, e Maria tanto insistiu que também foi. Logo que chegaram à casa tratou o menino de tirar alguns bolos dos que a velha acabava de fazer. A velha, que ouviu o rumor, disse pela terceira vez: “Chipe, gato, meu gato, não me furtes meus bolinhos!” Maria não pôde-se conter e desatou uma gargalhada. A velha ficou sarapantada e conheceu que eram os dois meninos, e então disse: “Ah! Meus netinhos, eram vocês! Venham cá, morem aqui comigo.” Os dois meninos ficaram. Mas o que a velha queria era engordá-los para comê-los ao depois. De tempos a tempos a velha lhes pedia o dedo grande para ver se já estavam gordos; mas os meninos lhe davam um rabinho de lagartixa que tinham pegado. A velha achava o rabinho muito magrinho, e dizia: “Ainda estão muito magrinhos.” Assim muitas vezes, até que os meninos perderam o rabicho da lagartixa e não tiveram outro remédio senão mostrarem os próprios dedos. A velha os achando gordos, e os querendo comer, mandou-os fazer lenha para uma fogueira, para dançarem em roda. O fim da rabugenta era empurrar os dois meninos dentro do tacho de água fervendo e os matar. Os meninos foram buscar lenha, e quando vinham de volta toparam com Nossa Senhora que lhes disse: “Aquela velha é feiticeira e quer dar cabo de vós; portanto quando ela mandar fazer a fogueira, fazei-a; assim que vos mandar dançar, dizei-lhe: “Minha avozinha, vossemecê dance primeiro para nós sabermos como havemos de dançar.” Quando ela estiver dançando empurrai-a na fogueira, e correi. Trepai-vos na árvore que tem perto da casa; quando der um estouro é a cabeça da velha que arrebentou. Dela têm de sair três cães ferozes, que vos hão de devorar; por isso tomai três pães. Quando sair o primeiro cão chamai-o Turco, e atirai um pão; quando sair o segundo chamai-o Leão, e atirai outro pão; quando sair o terceiro gritai Facão, e atirai o último pão. E serão três guardas que vos acompanharão.” Assim fizeram. Pronta a fogueira, e a velha os mandando dançar, pediram para ela dançar primeiro para lhes ensinar, no que caiu a velha, e quando estava muito concha nos seus trejeitos, os dois pequenos atiraram-na na fogueira. Treparam-se depois na árvore à espera de arrebentar a cabeça da feiticeira e saírem os três cães.

Aconteceu tudo como lhes tinha ensinado Nossa Senhora, desceram da árvore e tomaram conta da casa como sua, e ficaram alguns anos com os três cães como guardas. Ao depois Maria se namorou de um homem, e tentaram os dois dar cabo de João, o que não podiam conseguir por causa dos três cachorros que nunca o desamparavam. Combinaram então em Maria pedir ao irmão que lhe deixasse um dia ficar com os três bichos por ter ela medo de ficar sozinha, quando ele ia para o serviço. João consentiu e cá os malvados taparam os ouvidos dos cachorros com cera para, quando chamados, não ouvirem. Depois do que partiu o camarada de Maria a encontrar João para o matar, levando uma espingarda carregada. Quando o avistou disse: “Reza o ato de contrição que vais morrer.” João, que se viu perdido, pediu tempo para dar três gritos; o sujeito lhe respondeu: “Pode dar cem.” Trepou-se o moço numa árvore e gritou: “Turco, Leão, Facão!...” Lá os cachorros abalaram as cabeças. Tornou o moço a gritar e os animais despedaçaram as correntes que os prendiam; tornou a gritar, e eles se apresentaram diante dele e devoraram aquele que o queria matar. Voltando para casa disse João a sua irmã: “Visto me atraiçoares, fica-te aí só, que vou pelo mundo ganhar a minha vida.” E seguiu com os seus três guardas, até que chegou a uma terra que tinha um monstro de sete cabeças, que tinha de comer uma pessoa por dia, e que se lhe tinha de levar fora da cidade para ele não se lançar sobre ela. Quando João chegou nesse ponto, topou com uma princesa em quem tinha caído a sorte para ser lançada ao bicho. Perguntou-lhe o moço a causa por que estava ali. Respondeu que lhe tinha caído a sorte de ser naquele dia devorada pelo monstro de sete cabeças que ali tinha de vir e que ele se retirasse para não ser também devorado; que o rei seu pai tinha decretado que quem matasse o bicho casaria com ela, mas que não havia ninguém que se atrevesse a isso.

O moço então disse que queria ver o tal monstro, e, como estava com sono, deitou a cabeça no colo da princesa e adormeceu. Quando foi daí a pouco, apresentou-se a fera. A princesa, logo que a avistou, pôs-se a chorar e caiu uma lágrima no rosto do moço, e ele acordou; a princesa lhe pediu que se retirasse, mas ele não o quis, e, quando o bicho se aproximou, mandou o moço seu cachorro Turco se lançar sobre ele. Houve grande luta, e estando já cansado o Turco, mandou o Leão, que quase matou a fera; finalmente mandou o Facão, que acabou de a matar. João puxou por sua espada e cortou as sete pontas das línguas do monstro, e seguiu, bem como a princesa, que foi para o palácio de seu pai. Passando um preto velho e aleijado por onde estava o bicho morto, cortou-lhe os sete cotocos das línguas e levou-os ao rei, dizendo que ele é que tinha morto o monstro.

O rei, pensando ser verdade, mandou aprontar a princesa para casar com o negro, apesar da moça lhe dizer que não tinha sido aquele que tinha dado cabo do monstro e a livrado da morte. Chegando o dia do casamento, mandou o rei aprontar a mesa para o almoço, e, quando botaram os manjares no prato para o negro, entrou o cão Turco e o arrebatou da mão do preto. Quando a princesa viu o cão ficou muito alegre, e disse que era aquele um dos que tinham morto o bicho, e que seu dono é que tinha cortado as sete pontas das línguas com a sua espada. Veio o segundo prato para o negro, e entrou o cão Leão e o arrebatou, e a princesa disse o mesmo ao pai. Então o rei mandou um criado seguir o cão para saber donde era, e quem era o seu senhor, e que o trouxesse a palácio. O moço, que recebeu o recado, partiu logo a ter com o rei. Quando a princesa o viu, disse logo que era aquele, que realmente puxou um lenço e mostrou as sete pontas das línguas. O rei mandou buscar quatro burros bravos e mandou amarrar neles o preto, que morreu despedaçado, e João casou com a princesa.

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