segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Mistério (Conto), de Mário de Sá-Carneiro



Mistério
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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CAPÍTULO 1

A sua dor era tão grande que pondo a mão na sua fronte sentia todo o seu esqueleto.
O ônibus que o conduzia resvalava agora barulhento de ferragens pela Avenida monumental, e esse ruído acre, unindo-se às luzes imensas que o fustigavam zebrando-se através das vidraças tilintantes, dava bem a expressão rítmica da sua alma atual. A sua alma de hoje era toda vidros partidos e sucata leprosa.
Disperso, o artista olhou em redor de si. Atentou no panorama que o envolvia e pôs-se a delirá-lo, seguindo-o na sua multiplicidade. Pois o cenário interior do auto-ônibus era inconstante: variava momento a momento em função da paisagem exterior. Ao dobrar as esquinas, os grandes prédios e as árvores atravessavam-no resvalando em semicírculo, e os candelabros ziguezagueantes vergavam-se enclavinhadamente, penetrando em rodopio pelas janelas.
Depois, o transeunte que esperara o carro num portal e subira com o veículo a andar, trazia ainda consigo o quadro da porta aonde se incrustara; bem como a rapariga gentil e europeia que se assentara agora ao lado dele, vibrava toda ainda de luar, perlada de movimento, pois correra fugitiva do grupo das suas companheiras a trincarem, a rir, laranjas de Espanha – lá longe já – e sobre as quais, saudosa a alma, a lua de dezembro incidia ecos de platina.
E no ambiente da mobilidade, olhando mais, ele distinguia, realmente distinguia à força de concentração, gomos de ar que se entrechocavam e soçobravam em catadupas, vértices esbatidos de luz, calotes de cor, planos que ora volteavam ora se detinham, harmonizando-se bizarramente, e eram assim – com as coisas que sustentavam ou traspassavam – uma beleza nova talvez, em todo o caso bem digna dum pintor imortal.
Desviando a sua atenção para as formas materiais que tinha em sua volta, o artista via agora as oscilações arrepiadas e berrantes dos bancos vermelhos da primeira classe deserta, e as fisionomias múltiplas dos passageiros cujos rostos se confundiam sucessivamente com os dos transeuntes que deslizavam pela rua, paralelos a eles, e que eram só os seus próprios quando o veículo parava...
O movimento! o movimento! – o grande renovador que tudo multiplica, e vibra, e delira... Por que era a sua desolação tamanha? Precisamente porque a sua vida era uma existência parada de alma e corpo – uma existência onde nunca sucedera coisa alguma. A sua vida era como se não existisse. Por isso, uma tarde de ânsia, o artista tomara a decisão esbraseada de a procurar febrilmente, de a construir, por suas próprias mãos ungidas, à força de aventura. E desde aí, elançara-se sôfrego sobre o mundo, sobre a vida em suma, transpondo, correndo, estrebuchando... Mas nada até hoje vencera erguer dela para si. O seu corpo e a sua alma pareciam ter a estranha propriedade de afastar as horas, assim como, inversamente, o ímã atrai o ferro. Tudo girava em seu redor e fugia; só ele era sempre o centro da enorme circunferência. Deslocando-se em alma ou corpo, a querer aproximar-se do que lhe esvoava – às horas o mesmo acontecia, de maneira que a sua posição era sempre a mesma relativamente ao que, cingindo-o, se lhe esgueirava em rodopio longínquo. Ele era aquele que não tinha papéis nas suas gavetas, que podia mostrar a sua carteira a qualquer. Um criador. Por isso mesmo, quem sabe, não lhe existia a vida.
Orgulho! Orgulho! Mas em todo o caso o resgate, uma agonia tão seca...
Entanto descera na grande praça. Chamou por si fortemente, e para maior ser a sua dor, começara agora a ver-se em toda a lucidez.
Que desconforto! A sua alma era uma casa enorme, no inverno, com a mobília atravancada, forrada de sarapilheiras, e as janelas abertas por onde o vento se engolfava sibilante... e muito pó, sobretudo muito pó, em grandes rimas de livros e manuscritos.
Nada o atraía já nem o entusiasmava; as coisas raras que ainda não tivera positivamente, se acaso as aproximava, fugia-lhes na maior das desilusões, como ainda essa manhã fugira da rapariguinha loira com quem almoçara.
Depois – e era essa a última tortura – o descalabro da sua alma, já ele o sofria fisicamente, traduzido por um torpor constante, um sono invencível – um desejo insaciável de viver de olhos cerrados. E esse sono, penetrando-o, era como que um álcool que o ruísse: não lhe entorpecia só o cérebro, embebedava-lhe todo o corpo. Pois esse sono prostrado, ele sentia-o em toda a sua carne. Toda a sua carne tinha vontade de fechar os olhos.
Turbilhões de pensamentos por a mínima coisa suscitados lhe sibilavam no espírito sempre redemoinhante, e mesmo quando em verdade não pensava em coisa alguma, sentia entanto, nitidamente sentia, o seu cérebro a trabalhar. Apenas a sua febre lhe não chegava aos ouvidos. Martírio sem nome! Martírio sem nome!
Ah! se pudesse descansar enfim... E antevisionava um quarto de hospital, muito branco, aonde, para não mais se erguer, se deitasse num grande leito, muito branco também.
Outras vezes, fustigavam-no ideias despropositadas, sobretudo lembranças vagas, reminiscências ínfimas que lhe ocorriam sem motivo. E assim, agora mesmo, de súbito, lhe acudira a recordação bem nítida dum dia de chuva da sua infância que vivera em uma praia do norte, no seu país. Chovera todo o dia, sinistramente, torrencialmente. O céu conservara-se noturno, houvera relâmpagos, trovões, muito vento – ah, um vento horrível que silvara desolador, arrepiante, pelas ruas do pequeno jardim do chalé. Era já pelo outono. E as folhas secas, amarelas, as folhas mortas, haviam redemoinhado largo tempo, vergastadas sem piedade de encontro às vidraças.
Mas pela tarde amainara o temporal. Morrera o vento, cessara a chuva, tinha-se azulado o céu. E o sol, um sol triste, o sol nostálgico das tardes outonais, surgira amorável, confortadoramente dourado. Então, com a velha ama de seu pai, fora a comprar pão de milho, pão quente e louro a sair do grande forno provinciano. E lembrava-se tão bem das ruas alagadas, das ruas estreitas e cinzentas, friamente cheirosas à umidade penetrante do ar que o sol fraco iluminava...
Mas por que motivo, ai, porque motivo, lhe viera ao espírito essa tarde banal da sua infância, só úmida e chuvosa? Por que motivo? Porque na sua alma – descobriu com horror – ele tinha hoje a mesma sensação de desconforto estagnado: sim, na sua alma havia hoje a mesma umidade penetrante, esguiamente arrepanhada, que desolara uma tarde agreste da sua infância...
Em voz débil, um mendigo suplicou-lhe uma esmola. Era um velho homem de barba florida, e alto, e heráldico, tiritante de frio. O artista levou a mão à algibeira. Tirou algumas moedas de cobre, estendeu-lhas. O velho homem agradeceu. E assim como muitas vezes chorara a infância das pessoas idosas que estimava, uma piedade infinita começou agora a torturá-lo – piedade por todos os que sofriam, e mesmo pelos que não sofriam: os felizes, os medíocres, toda a gente... à força de egoísmo, sentia-se quase morto de ternura compadecida.
Entre estes pensamentos esmagadores, chegou ao seu quarto. Era um vasto aposento num bom hotel, atapetado, confortável, do qual entanto ele desertava todas as horas que lhe era possível. Pois quando, especialmente de dia, se encontrava nesse quarto, parecia-lhe que todos os móveis e os reposteiros o traspassavam, e que as próprias paredes, mimando esgares obscenos, cresciam sobre ele a esmagá-lo. Uma noite acordara até horrorizado: a casa inteira endoidecera e, se não fugisse para o corredor, decerto que, numa loucura furiosa, as cadeiras e o guarda-vestidos de mogno o teriam estrangulado. Tratara-se apenas dum pesadelo, era claro, tão estrambótico porém que, embora medonho, o fizera rir sozinho às gargalhadas quando acordara dele.
Deitou-se logo e, antes de adormecer, pensou ainda: “Todo o meu sofrimento provêm disto: sou um barco sem amarras que vai bêbado ao sabor das correntes. Se conseguisse lançar ancoras... Mas aonde... aonde?...”
E na manhã seguinte, após um sono seguido de dez horas, acordou morto de sono para viver mais um dia igual e vazio da sua vida...
Logo de manhã lembrara-se: “Que sensação tão bizarra eu tive ontem ao colocar a mão na minha fronte... Senti todo o meu esqueleto. Mas senti-o singularmente. Senti-o em sombra. É verdade: quando levei a mão à minha fronte, senti que por debaixo dela se esgueirava a sombra esguia do meu esqueleto. Era esta a expressão da dor máxima, compreendi. Mas por que... por quê?... E se eu enlouquecesse?...”
Muitas vezes o artista, para remédio da sua angústia, pensava no suicídio. E então dilacerava-o uma ternura infinita, uma piedade ilimitada por si próprio. Pois havia de se destruir, ele?... Sim, era essa talvez a salvação... Que tristeza!... E via-se alguém que atravessasse uma ponte transportando um fardo precioso e que, por não ter mais forças para o carregar, fosse obrigado a lançá-lo ao rio, no último desânimo, perto já do seu destino.
Entanto por mais duma vez ele decidira, positivamente decidira, meter uma bala no coração. Chegara a comprar uma pistola. Mas por fim, até hoje, sempre renunciara à sua ideia numa grande alegria – alegria porém logo dispersada: É que, mesmo não se suicidando, havia de morrer mais tarde. Ainda se, ao menos, o não suicidar-se lhe evitasse a morte...

CAPÍTULO 2
Sim, precisava ancorar porque era preciso viver para as suas obras.
Há bem pouco recebera uma carta dum amigo íntimo. Em resposta aos seus lamentos, aos seus gritos de desolação, dizia-lhe este, depois de rodeios em que se desculpava por aconselhar tal remédio a uma alma genial como a sua, que talvez (estava mesmo certo) as horas se lhe erguessem, se lhe limpassem, se ele quisesse procurar uma companheira gentil, acariciadora, que o entendesse um pouco e a quem o artista desse a vida – isto é: que fosse a razão, enfim, da sua existência destrambelhada.
Porque era verdade: até hoje a sua vida fora passada aos tombos e aos gritos. Afogueado, suado de alma, tendo visto todas as coisas mas nenhuma inteiramente conhecido – sentia-se uma criança que, na ânsia de jogar com todos os brinquedos que ao mesmo tempo lhe houvessem dado, se lançasse sobre eles, mal tocando em cada, e logo farta, desencantada, por saber o que todos faziam, sem verdadeiramente ter brincado com nenhum...
Uma companheira... uma companheira... Uma noiva talvez... Sim, às horas enternecidas, por vezes ele sofrera a nostalgia dumas mãos brancas que lhe apertassem os dedos... e duma boca úmida que se vergasse para a sua... e de tranças louras bem cheirosas a mocidade e a amor...
...As ruas duma grande quinta; um ar sadio, aureolado – confiança, singeleza, paz... 
Por isso, respondera ao amigo que fora inútil pedir perdão pelo conselho. Oh, se essa companheira existisse... se a encontrasse... Sim, sim, talvez fosse esse o remédio da sua vida...
Procurá-la?...
Ai, para quê, procurá-la...
Se fosse como todos... Mas não. Ele, ao amor, exigia que fosse amor. E o amor não existe.
Nem eram sequer lances de paixão, requintes estranhos ou perversões longínquas que sonhava. Apenas isto: uma alma que conhecesse inteiramente e que também lhe soubesse toda a alma. Sendo assim, o maior afeto as uniria. E punha-se a antevisionar uma existência quimérica: ele, o Artista, realisando pouco a pouco, sem febre, ungidamente, as suas obras imortais, acastelando sonho após sonho – e embaixo, quando do alto da montanha olhasse, uma vida de aurora: uma companheira sincera, espontânea, pequenina e loira, a beneficiar-lhe a existência, a aquecer-lha... Braços nus e rosas brancas desfolhadas.
No fundo queria muito à vida. Eh! não o fossem imaginar alguém divagando por outras regiões, fechado numa torre de marfim erguida além-céu. Simplesmente amava uma vida despida de tudo quanto nela o nauseava. Ora o que o nauseava era precisamente a vida de todos e de todos os dias...
Não, estava decidido, não fora feito para a felicidade.
O remédio era outro: renunciar, vivendo, ou vencer, morrendo.
Já raras vezes procurara até vagamente essa companheira afetuosa. Mas fugira sempre apavorado do abismo que, ao aproximar se um pouco, se lhe deparara entre ele e a encantadora. De modo que a todas podia aplicar a frase que escrevera a uma: “Na tua vida, meu amor, eu não fui sequer alguém que passou, alguém que surgiu – fui um desaparecido”.
A incompreensão!
Fora esta a barreira em que sempre tropeçara e em que sempre havia de tropeçar – era irremediável, demasiadamente o sabia. 
De resto, essa barreira entrepunha se entre todos os homens – os perpétuos isolados. Apenas a maioria se contentava em trocar olhares, sinais vagos, de cada margem do abismo. E nenhuma destas almas diligenciava sequer aproximar-se da outra, que existia além do precipício!... Era como se fosse impossível.
Ao fim duma convivência de muitos anos, duma convivência quotidiana, jamais toldada, se os velhos esposos se olharem bem, se se descerem bem, encontrar-se-ão – ai, fatalmente se encontrarão – dois estranhos separados por mil ninharias: mil pequenas mentiras, mil deslealdades insignificantes. As suas almas nunca se souberam – mesmo que, sinceramente, eles tenham acreditado na sua amizade e no seu amor.
...É que a amizade, na vida-normal, não passa duma ideia falsa, dum preconceito a que pouco a pouco nos fomos adaptando. E o amor... Ora, uns laivos de literatura barata e de espasmos úmidos com que excitamos a convenção e a ungimos de pacotilha...
Aliás o artista concordava em como era difícil desvendar uma alma. Mesmo quando nós queremos dizer a nossa a um amigo querido – escapam-nos sempre alguns detalhes que não podemos explicar, talvez à falta de palavras, e que sentimos serem exatamente aqueles que a descreveriam em toda a luz. Estrebuchamos, debatemo-nos contra um denso véu que não logramos romper, que só soçobraria se o nosso interlocutor nos compreendesse por outra coisa – não por palavras.
E eis porque às vezes o artista receava:
“Seriam as almas segredos?”
Ah, se ao menos sofresse... Sim, em último caso, era possível que fosse encontrar no sofrimento o sentido da sua vida – a raiz. Pressentira-o quando uma noite, ao caminhar solitário por uma rua estreita, cheio de tristeza sofrida, se descobrira muito mais feliz, com a existência bem mais cheia e embelezada, do que ainda há pouco, por uma grande praça, antes de lhe descer essa amargura. E talvez fosse justamente por esse motivo que, num requinte, embora sem premeditação, ele desprezava – para os vincar de sofrimento e assim os tornar mais sensíveis – alguns raros instantes que, se os ampliasse, lhe poderiam seguir dourados. Assim, ainda essa tarde o ansioso de ternura, aquele que se lastimava por nada lhe suceder, renunciara à rapariga gentil que lhe sorrira no boulevard, tão espontânea e amorável... Em vez de lhe apertar as mãos, falara-lhe em fantasia, dissera-lhe um adeus sem carícia, deixara-a perder para sempre...
Mas é que, na realidade, ele nem mesmo sofria. Pois no seu espírito tudo se alterava diluído em literatura. Das suas dores motivadas e das suas tristezas imateriais, apenas trouxera obras-primas. Ora em face das maravilhas que umas e outras lhe suscitavam, logo claramente deixava de as sofrer para só as abençoar e admirar.
A sua dor, enfim, era, quando muito, a melancolia que nos fica da leitura dum livro angustiante e imortal.
Sentia-se numa grande intensidade por essa tarde linda de inverno. A multidão pejava os boulevards europeus da grande capital – uma multidão bem contemporânea, ultracivilizada e latina. E o artista que sempre se aprazera tanto no ondear da vida moderna, levado pela corrente, era quase feliz. Subira-lhe ao cérebro, como um álcool de êxtase, toda a agitação urbana...
Esvaído num entusiasmo azul, à sede de ventura, pôs-se a entre-sonhar, como que acordado entre nuvens de ópio. Achara finalmente a sua companheira d’alma – achara-a uma tarde roxa de sol, nos jardins maravilhosos dum grande palácio real acastelado e histórico. Tudo fora quimera... Conhecera-a por acaso e logo, às primeiras palavras, fremira adivinhando-a... Depois, com o prosseguir das tardes carinhosas, pouco a pouco descera a sua alma – num assombro, numa irrealidade... Não, não era engano! Descobrira-A enfim, tinha-A enfim ao seu lado!... Aquela alma saberia sonhar toda a sua, bem como já não guardava segredos para a dele. Aurora! Aurora!...
E percorria, construindo-os, mil episódios gentis, banalmente quotidianos, até à realização inteira da sua ânsia – divagava toda a paisagem rural em que a sua felicidade desabrocharia, esboçava o perfil da encantadora, via as suas tranças, as suas joias, os seus pés nus na água fria dum regato, o seu rubor, os seus beijos e sorrisos, os seus véus, os seus dedos agrestes de unhas polidas, vermelhas...
Mas, de súbito, um ruído dissonante fê-lo despertar, e logo uma raiva estranha se apoderou do seu espírito. Pois como lhe havia de suceder alguma coisa, se tudo imaginava? Era, claro, o bastante haver sonhado d'antemão um cenário, um enredo, uma figura – para jamais viajar esse panorama, viver esse episódio, conhecer essa personagem. Sonhos não se realisam. Ora ele sonhava tudo...
Não tinha repugnâncias morais – só tinha repugnâncias físicas e, nesse sentido, as maiores repugnâncias. Sabia-se capaz de roubar, mas não de matar.
Eram estes talvez os segredos da sua vida deserta; eis pelo que talvez a sua vida se restringia ao moral – isto é: ao irreal.
O mais perturbador entanto era que, de tudo isto, trazia em verdade uma angústia invencível – mas ao mesmo tempo um orgulho de auréola, um orgulho imenso, tão cioso e dourado que talvez fosse ele até que lhe criasse todas as impossibilidades, imaginariamente.
De súbito, sem saber como, encontrou-se num grande jardim tradicional e romântico. Foi-o percorrendo enternecido, a olhar naquele ar úmido, sadiamente aromático, as crianças jogando a correrem afogueadas, de pernas nuas - e raparigas loiras lendo livros de versos ou, de mãos enlaçadas, a falarem com os seus companheiros, jovens como elas. A gente-média, a gente feliz...
As crianças...
Era agora um turbilhão em seu redor. Perto, um órgão de Barbaria rouquejava música. Aproximou-se; parou em frente dum carrossel infantil... O aparelho girava vertiginoso, numa alegria de feira, transportando um enxame de crianças a montarem a rir, bem convictas, elefantes e pombas, leões e abelhas, panteras e cisnes.
Ora o artista, quando olhava para a sua infância, sofria uma saudade tão grande, um enternecimento tão comovido... Só nessa época indecisa ele fora feliz – tivera tudo. E por quê? Percebera-o nitidamente nesse instante – tinha ali o exemplo em sua face: É que, na infância, não possuímos ainda o sentido da impossibilidade; tanto podemos cavalgar um leão como uma abelha...
 CAPÍTULO 3
Noite a noite o sofrimento do artista se fora exacerbando. Mais do que nunca, sentia agora uma necessidade atroz de aportar. Pois num último tédio, olhando a existência, vinha-lhe a sensação incoerentemente bizarra, de que as horas o arrastavam consigo na sua carreira alucinante, e de que ele entretanto permanecia sempre no mesmo tempo...
Se se descia bem, se se media bem, achava-se numa grande amargura sem forças para se vencer. De modo que era este o seu futuro – conformara-se –: ir-se habituando instante a instante à ideia do suicídio. Uma vez, era fatal, chegar-lhe-ia a força de se destruir, de ser vencido, já que não podia vencer – em suma, de pôr termo aquela situação intolerável, úmida, estagnada, viscosa...
E foi, desde aí, só esta a sua esperança. Mas, esperança triste que fazia por olvidar, esquecendo-se a si próprio, anestesiando-se com a vida diária...
Como todas as tardes, lá divagava ele, solitário, pelas grandes ruas...
De súbito, num gesto expansivo, alguém lhe estendeu a mão... Era um conhecimento banal, a quem nada o ligava, que há muito não via – mesmo com quem raras palavras tinha trocado ainda...
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...E à noite, cedo, ao encaminhar-se para sua casa, a pé, o artista ia relembrando as agradáveis horas que passara com esse estrangeiro distante. Como fora encontrar nele uma alma aberta, e ampla, e intensa...
Tinham pouco falado de arte, imediatamente resvalando, numa súbita intimidade, para a descrição das suas próprias almas. E que pontos de contato logo acharam entre si! Como o artista, também o estrangeiro delirava em grandes ideais – e em grandes torpores, grandes náuseas. Às vezes, confessara-lhe até, assaltava-o um desejo esbraseado de enlouquecer a fim de pôr termo à sua vida, de qualquer forma, e não pensar mais nela. O suicídio repugnava-lhe – quisera sempre tão orgulhosamente à existência... E, doido, existiria – embora morto na ânsia, tranquilo, morfinizado, visto que por convulsionada que fosse a sua loucura, nunca o seria tanto como a sua vida de aspiração. O artista concordava com ele. Endoidecer – que vitória!... E pusera-se a falar de si. Contara-lhe como se sentia vogando ao sabor da corrente, barco sem amarras, ébrio de ouro sobre a água profunda, lodacenta, amarga. Descrevera-lhe a sua angústia. Dissera-lhe do segredo eterno das almas. E o estrangeiro observara:
– É desolador, é horrível. Duas almas, por mais leais, por mais unidas, separa-as sempre um turbilhão de pequeninas coisas que se aglomeram em uma nuvem impossível de varar. Mas, ai, quem sabe se é por isso mesmo que elas existem... Enfim, enfim, tinha achado um belo companheiro – ele que há tanto não encontrava um homem. E a convivência entre os dois prosseguiria...
Esteve uma semana sem o ver. Durante ela a sua angústia foi a mais dolorosa. Parecia lhe realmente tocar um limite.
Endoidecer! – ah, se conseguisse semelhante triunfo...
Numa obsessão, o seu cérebro imaginoso, o seu cérebro literário, logo começou a trabalhar essa ideia – depressa fantasiando um homem que, no desejo de enlouquecer, saísse à rua e desfechasse de súbito um tiro sobre a primeira criatura que passasse e ele não conhecesse. Escolheria mesmo uma rapariguinha galante, suave e loira, porque se escolhe sempre em todas as circunstâncias. Assim haveria um pouco de ternura na tragédia. Ora esse homem, matando alguém que nunca encontrara, cometera um ato injustificado – isto é: um ato de loucura. Seria preso. Explicaria o seu crime: fora para endoidecer, praticando uma ação incoerente, que assassinara – e juntaria a razão enternecida porque escolhera a sua vítima. À primeira vista este homem deixava de ser um doido: houvera um motivo no seu crime – querer endoidecer. Mas, por amor de Deus, tal motivo melhor vinha provar ainda a sua loucura: só a um doido podia ocorrer semelhante ideia. E enfim o assassino seria dado por irresponsável, seguramente, e encerrado em um manicômio...
Porém, na verdade, depois de se ver em tal situação encruzilhada, este homem era ou não era um doido? Mistério. Pois ele chegara a essa situação coerentemente louca, por um raciocínio bem seguido, bem voluntario e bem certo.
Entanto, colocando-se dentro da sua personagem, o artista logo concluiu que esse homem, ainda que não fosse um doido, havia de enlouquecer, sem dúvida – pelo menos após a sua entrada no manicômio – na ânsia de se descer e atingir se tinha ou não vencido.
Sim, tamanho rodopio afogueado havia de silvá-lo, que fatalmente as ideias se lhe emaranhariam até soçobrar no azul, num último crepúsculo...
... E de todo este estranho devaneio, é claro, só restou ao artista o assunto para uma das suas complicadas novelas. Aliás sucedia-lhe sempre o mesmo – com as suas divagações, e as suas tristezas, as suas dores. Por isso nunca se tomara a sério.
O sofrimento físico em que se lhe convertera há muito a desolação moral, era agora requintadamente torturante: Ainda o mesmo álcool, o mesmo sono em toda a sua carne. Mas outrora essa vontade impossível de dormir, que era a febre da sua alma angustiada, espalhava-se-lhe pelo corpo inteiro. Enquanto que hoje, entre a carne sonolenta, havia pequenas porções, intervalos nítidos, bem despertos. O que mais o enastrava de angústia pois, destrambelhadamente, lhe vinha enclavinhar em torpor excitado a ânsia abatida desse quebranto infernal.
Correram alguns dias. De novo encontrou o estrangeiro.
Uma bela convivência se ia agora prolongando entre os dois; quase todas as tardes passavam algumas horas juntos – e uma vez o amigo disse-lhe para vir jantar com ele, a sua casa. Habitava com a família, o pai e duas irmãs, uma linda propriedade nos arredores da capital assombrosa. Queria-lhe ler um poema, e mostrar-lhe os seus livros e as flores da quinta. Tanto insistiu que o artista, preferindo recusar, aceitou.
Pelo caminho foi-se lembrando que era essa a primeira vez que alguém o levava a jantar em sua casa, com a sua família...
 CAPÍTULO 4
...E agora, às tardes perfumadas, ele revia etereamente todo aquele sonho, hoje bem real, junto da sua companheira afetuosa, no jardim singelo da “vila” isolada que os noivos tinham vindo habitar num país do sul – o país do artista, um país luminoso...
Maravilha! Maravilha!
Quando o amigo lhe apresentara a sua irmã mais velha, quem lhe dissera que naquele corpinho lindo e fútil estava a realização do seu sonho?... Mas logo depois, pouco a pouco, irrealmente, de enlevo em enlevo, fora descobrindo naquela alma A que nunca esperara encontrar – a velada sutil! Até que, de quimera em quimera, erguera enfim a realidade, salvando a sua vida na aventura inigualável. E hoje – vitória azul! – tinha alguém: alguém que sabia inteiramente quase, alguém que não era um estranho, um desconhecido astral; alguém que por seu turno o compreendia já sem segredo.
Auréola! Auréola! Lançara pontes sobre o abismo insuperável – conquistador iriado da sombra: e pela vez primeira, duas almas estavam ali, sim, face a face, libertas do mistério!...
O esforço de romper uma tênue rede áurea, e seria inteira a sua glória...
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Ah! como se encontrava radiosamente feliz, hoje...
Tinha côncavos de mãos brancas, sadias, onde mergulhar os seus dedos ansiosos, e uns lábios dourados para morder – toda uma carne sensível a divagar. Sentia vida dentro de si, ele que sempre vivera em morte. Tinha, finalmente, ele que nunca tivera. Pois agora, ao fremir sobre o corpo gentil da amante precoce, daquela pequenina esposa que se lhe entregava com toda a carne velada em rubor, ondeante de rosas – um orgulho infinito o ascendia porque, nas suas mãos, em êxtases e lírios, oscilava, realmente oscilava, não só um corpo – como outrora, nos abraços desiludidos – mas também uma alma. E, vibrando esse corpo, emaranhava ao mesmo tempo essa alma – sim, possuía-a carnalmente, em ânsia iriada, num espasmo de luar, numa agonia fluida, num arrepio de auréola esbatida, sutil de transparência sonora...
Noite a noite o triunfo era mais nítido, era mais sensível. Entanto alguma coisa faltava ainda – uma pequena luz – para chegar ao fim: ao além, que ele entrevia definitivo de Oriente, e musical, ecoando timbres esguios de aromas ritmizados.
Sim! Sim! Erguera-se! Deixara de ser um estranho: coisa alguma o isolava dessa alma estremecida! Companheiras ideais, heroicas e profundas, reciprocamente se haviam aprendido aquelas duas almas. E era-lhe ainda mais caricioso saber de alguém que o conhecia sem segredo, do que ter varado enfim o mistério de alguém. 
Ai, como ele sofrera outrora nos seus grandes momentos de ternura magoada, à ânsia de se lançar – pobre coisa, triste coisa – nos braços de alguém que, sem palavras, o entendesse um pouco, sentisse um pouco a sua dor. E em face da incompreensão total, mesmo de certos amigos leais que na verdade o estimavam e que, não obstante, tão a miúdo o feriam – quantas vezes não sufocara um desejo feroz, um desejo perverso, de lhes atirar com a sua alma como quem arremessasse com um globo de ouro, tilintante de luzes... E então, que eles ainda lha poluíssem – que lha pisassem, ah, que lha pisassem!...
Hoje porém, vencera. Irrealidade! – tinha o que sonhara! Tinha uma doce companheira a cujos braços débeis se podia confiar silencioso e que, em silêncio, adivinhava os segredos da sua alma – as pequeninas coisas veladas que se não sabem dizer, – enfim: alguém que lhe sentia toda a alma como se sente uma obra genial.
Pela primeira vez não estava só. Com efeito, como nunca existira em relação a ninguém, andara sempre só – mesmo na companhia dos seus camaradas se sentira sempre um ausente. Apenas vivera um pouco mais acompanhado, no estrangeiro, em grandes períodos de isolamento, devido à concentração do seu espírito, tanto mais intensa quanto menos o atingia a vida diária, e que por isso o lembrava melhor a si próprio, o fazia viver um pouco mais dentro de si. Hoje, como existia em relação a outra alma, como achara a sua alma perfeita, vivia enfim realmente acompanhado.
Muita vez o artista pressentira que lhe faltava qualquer coisa que os outros possuíam. Ignorava o quê. Entanto, fosse o que fosse, tinha a certeza que se resumiria num ponto de referência. Pois bem: hoje preenchera esse vácuo. Eis tudo.
E mesmo, em verdade, só agora é que se conhecia – por haver alguém que o conhecia. Triunfara. Deixara de ser um isolado – mas realmente; não como os outros, hipocritamente.
Nessa atmosfera cariciosa e tépida o seu corpo destrinçara-se – porque era assim: ele tivera sempre a sensação de que o seu corpo andava enastrado, contorcido, embaralhado.
Se se divagava, logo via, numa ascensão, como se lhe substituíra o cenário d’alma. Amanhecera dentro de si numa antemanhã gloriosa. Todas as nuvens se haviam desacastelado, deixando o sol raiar sobre o ouro. Um montão de coisas cinzentas se desmoronara em ruínas de azul. As sarapilheiras tinham voado, descobrindo móveis de marfim e prata...
Depois, ele percorria-se hoje em largas avenidas, enquanto que, outrora, dentro de si apenas tropeçava por becos e saguões.
Também lhe não vinham já desejos de se entender no chão, ao comprido, nas ruas das grandes capitais, como dantes – talvez por ser essa a posição dos mortos sob a terra.
A sua alma que fora sempre um canal estreito, viscoso e mefítico – ou, quando muito, um pântano aluarado – era hoje uma torre branca erguida a meio do mar.
A sua vida enfim, lançara amarras – fundeara numa baía de festa, cheia de sol, embandeirada, ruidosa, imensa, ondeante de mastros e velas.
Tudo era horizonte em seu futuro.
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A “vila” que os noivos tinham vindo habitar, engrinaldava bem uma felicidade milagrosa como aquela. Assemelhava-se a um desses sensatos “cottages” ingleses e, por fora, revestia-a um manto de glicínias. Um jardim afetuoso, muito verde, todo relvado e aromático, cingia-a num círculo de frescura e saúde. Em volta, um grande isolamento. Apenas, a uma centena de metros, fronteiramente quase, uma outra “vila” habitada por um poeta doido e o seu enfermeiro. Um jardineiro e uma criada velha serviam os dois noivos.
Entanto, a capital adivinhava-se ao longe num tumultuar de luzes, pressentida num vago eco a movimento e a civilização que melhor vinha frisar ainda a tranquilidade e o isolamento da moradia encantada.
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Sim, sim! – tivera um termo a sua vida. Pois toda existência futura ele a percorria do presente em bonança: aromas novos, novos sons, outras cores, no mesmo fundo eterno a ouro e a azul. Sem mais estrebuchar, ir-se-iam criando as suas obras, lisamente, em paz, só em febre ideal, – e nunca lhe faltaria um ombro dócil para recostar a sua fronte sagrada.
Estava prestes agora a fulgir o último triunfo – a comunhão inteira daquelas duas almas. E era tão grande a felicidade do artista, tão sonhada que lhe vinha até um desejo singular de morrer com a companheira das rosas. Mas esse desejo logo se dispersava, claramente, numa ânsia de vida, num júbilo de mãos frias que lhe enastravam os dedos.
Entanto, com as ideias de morte também uma dúvida – longínqua dúvida – o assaltara:
Poder-se-iam, em verdade, abater todas as barreiras entre duas almas?...
Ia sabê-lo essa noite. Sim, essa noite – estava certo – havia de atingir o além da sua felicidade: a tênue rede de ouro que, embora translucidamente, ainda separava as duas almas, voaria enfim dispersa.
Por isso era a sua glória ilimitada quando, ao recolher, subindo para o seu quarto, entrelaçara o corpo agreste da amante aureoral e a mordera na boca, confundido com ela na mesma sombra...
 CAPÍTULO 5
A loucura do poeta que vivia próximo, era a loucura tranquila e etérea dum náufrago do irreal. Assim os seus amigos, compadecidamente, lhe tinham evitado o manicômio, isolando-o naquela vivenda carinhosa e aprazível.
Entanto, essa noite passou-a ele muito agitado. Numa grande vibração, só queria vir à varanda do seu quarto – e debruçava-se olhando o espaço.
Seriam umas três horas, erguera-se mesmo do leito e de novo correra à varanda. De súbito – segundo o enfermeiro devia contar no outro dia – esgasearam-se-lhe os olhos, todo o seu corpo oscilara e, apontando na “vila” fronteira a janela do quarto dos noivos, tinha soltado um grito estridente. Depois, num delírio, contara que vira sair por essa janela uma chama, uma grande e estranha chama, ou antes: uma forma luminosa que galgara o parapeito e que, num espasmo arqueado, numa ondulação difusa, ascendera, voara perdida...
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Na manhã seguinte, como fossem onze horas e os patrões não dessem sinal de si – eles, tão matinais – a velha criada decidiu ir acordá-los. Bateu à porta, chamou-os, gritou... Não obtendo resposta, dispôs-se a entrar. Mas, coisa bizarra, a porta estava fechada por dentro, quando, habitualmente, eles a deixavam entreaberta para o ar circular. Então, num pavor, correu a dizer o caso estranho ao jardineiro que, por seu turno, subiu ao quarto dos noivos. Chamou. Como ninguém lhe respondesse deliberou por último forçar a porta, cuja chave tinha ficado no trinco, do lado interior...
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No grande leito, serenamente, dormiam os amorosos. Apenas os seus corpos estavam rígidos e frios. Mas nem um sinal de violência, uma beliscadura.
Pelo quarto, nenhum vestígio de luta. Tudo no seu lugar. As joias sobre o toilette. Nem uma arma. Nem mesmo um frasco que pudesse ter contido um líquido venenoso. Coisa alguma, enfim, coisa alguma. Nem um rastro, uma pegada. A porta ficara fechada por dentro. A janela, entreaberta. Mas a janela rasgava-se à altura dum segundo andar. Fora impossível encostar-se-lhe uma escada sem deixar vestígios, sem amachucar as glicínias.
E em todo o decorrer das diligências policiais, apenas se averiguou que o poeta doido tinha passado essa noite numa agitação desabitual e que afirmara ter visto pela madrugada, galgar a janela do quarto dos mortos uma chama, uma grande e estranha chama, ou antes uma forma luminosa que, num espasmo arqueado, numa ondulação difusa, ascendera, voara perdida...
Triunfo? Quebranto?
– Mistério, perturbador mistério...
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